A demissão de Eduardo Baptista no Atlético Paranaense causou enorme estarrecimento nesta segunda-feira. Que a situação do time na Copa do Brasil e na Libertadores seja delicadíssima, é difícil justificar a decisão. O treinador havia comandado os rubro-negros em apenas 13 jogos, tirando o time da zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro. De fato, tomou decisões contestáveis em suas escalações e alterações. Porém, não se viu muita paciência com o início do trabalho, até por assumir um elenco que sofre com problemas que fugiam de sua alçada – incluindo lesões, falta de disciplina e baixo rendimento de jogadores importantes. A explicação da diretoria sobre a falta de sintonia com o técnico não convenceu muito, e culminou também na saída do “manager” Paulo Autuori. Um dia depois, o Furacão anunciou Fabiano Soares, brasileiro com experiência em Portugal, mas nome que não transmite tanta confiança à torcida para desativar a bomba que se armou na Baixada.

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A postura impassível do Atlético, contudo, gerou repercussões muito além de Curitiba. E é interessante notar como as demissões recentes de treinadores pelo Brasil vêm sendo protestadas por muitos colegas de profissão. Assim aconteceu em outras quedas recentes, como a de Vágner Mancini. Já nesta terça-feira, Abel Braga fez colocações pertinentes após o episódio com Eduardo Baptista. Levantou a voz e afirmou que a situação necessita da mobilização dos principais técnicos do país, contra a intensa ciranda que acontece sob a música dos dirigentes. O comandante do Fluminense abriu até mesmo a possibilidade de uma greve, para que se crie uma proteção maior aos treinadores no Brasil.

“Tem algo que pode ser feito. A única coisa: tem que pressionar o governo, a sociedade, que o treinador de futebol é uma profissão. Você é demitido de um clube, não recebeu a rescisão e a CBF pede uma declaração ao clube sobre a mudança para que ele possa contratar outro. E o acerto?”, afirmou Abel. “E os outros da Série C? Série D? Que a gente nem fica sabendo? Onde isso vai parar? Minha vida está estabilizada por causa dessa profissão. Mas quero que a rapaziada nova consiga também. Tem que parar, não tem rodada. Eu estou disposto. Se meus colegas estiverem também, estou dentro”.

Que o treinador no Brasil receba salários suntuosos, isso não é razão para os desmandos. A organização da classe é um dever – algo que se esboçou nos últimos anos, mas parece ter se perdido. De qualquer forma, a melhora das condições dos treinadores vai além daquilo que concerne ao próprio universo. A questão é muito mais ampla, e este é o primeiro passo para o entendimento. A luta, no fim das contas, é de todos – incluindo jogadores, torcedores e outros que fazem o futebol. O calendário inchado e o excesso de jogos provocam grande impacto na regularidade dos times, na capacidade dos jogadores, na continuidade dos técnicos. Até mesmo sobre a frequência do público existem suas consequências claras. Mas enquanto a situação estiver de agrado aos dirigentes do clube e, sobretudo, aos mandatários da estrutura de poder, fica difícil de acreditar em transformações profundas. A mobilização precisa ser geral e olhar o horizonte.

Um passo importante, por si, é o próprio diálogo. Entretanto, enquanto se postergam discussões vitais para a evolução do futebol brasileiro, o quadro geral continua deteriorado. E quem paga o pato quase sempre é o técnico. Não que eles sejam completamente imaculados, mas as responsabilidades de outros atores importantes dentro do clube recaem sobre o treinador. A relação, historicamente desgastada, culmina em momentos críticos como o que se repete no Campeonato Brasileiro. A reação revoltosa de Abel Braga é até natural e a greve se aponta como um caminho, mas precisa ser consciente de que a pressão não deve ser apenas pontual. A visão tem que ser abrangente, para não se satisfazer apenas com soluções paliativas. Para tanto, falta reflexão e debate. As palavras fortes de Abel, ao menos, oferecem um ponto de partida para isto. E não precisam parar necessariamente no futebol.