No futebol que se reconta de memória, existe certa predileção pelas duplas. Diversos times célebres têm o novelo de suas histórias desenrolado a partir de uma dupla arrebatadora. Todo torcedor possui sua tabelinha dos sonhos, e o próprio futebol brasileiro foi prolífico em consagrar grandes parcerias. Ao que tudo indica, mais uma reivindicou seu lugar nas lembranças após atingir seu ponto máximo nesta noite de Maracanã. Entre tantas partidas excelentes nos últimos meses, Bruno Henrique e Gabigol deram um passo além durante a catarse contra o Grêmio.

De certa maneira, as grandes duplas também parecem um pouco anacrônicas ao futebol brasileiro. Coisa dos anos 80 ou 90, quando realmente a maioria dos times jogava com dois atacantes que dividiam o trabalho de esmerilhar defesas. Entre variações e novas funções, perdeu-se um tanto daqueles nomes que ficavam na ponta da língua ao final das escalações. As formações de Jorge Jesus, em partes, resgataram essa deixa. Mas o reconhecimento vem mesmo pela bola que ambos exibem com a camisa rubro-negra.

A gênese na simbiose entre Gabigol e Bruno Henrique vem de Santos. A Vila Belmiro, casa daquela que possivelmente é a mais dupla recordada do futebol brasileiro, Pelé e Coutinho, contribuiu para afinar o entrosamento dos atacantes. Não quer dizer, entretanto, que a combinação sempre tenha sido perfeita. Ou quem se lembra do quebra-cabeças criado por Abel Braga, ao trocar os dois jogadores de suas posições costumeiras e não vê-los rendendo tudo o que poderiam? Outros tempos de Flamengo, que hoje parecem restritos a um passado distante.

Como aconteceu com outros tantos atletas, Jorge Jesus encontrou o melhor encaixe à sua dupla. Os dois se completam, dentro de um time que não precisa de uma forma fixa. Podem ser dois atacantes ao mesmo tempo ou assumir tantas funções mais, dentro da fluidez rubro-negra na construção de seu jogo. É essa ideia maleável, sem rigidez, que ajuda os dois principais artilheiros do Flamengo a se somarem. O resultado? Gols, muitos – em uma equipe que, afinal, não possui apenas os dois como protagonistas.

Existe até mesmo um certo equilíbrio entre os parceiros rubro-negros, um yin-yang boleiro. Descoberto na várzea, Bruno Henrique leva isso em seu estilo de jogo, mais persistente e voraz. Gabigol, por sua vez, recebeu bajulações nas categorias de base e o que se nota é um aprimoramento técnico raro. Entre os descaminhos de suas carreiras, vieram a se encontrar no salto ao pleno reconhecimento. Bruno Henrique, em uma trajetória tardia, que negou as desconfianças de que não poderia chegar ao alto nível. Gabigol, ainda em sua confirmação, fazendo engolir as palavras quem já o tratava como promessa perdida.

As rotas cruzadas tornaram o Flamengo mais forte. As redes balançam numa frequência que coloca o clube no rumo dos principais títulos. Bruno Henrique tem um gosto especial pelos clássicos e apresenta um ímpeto mais solidário. Gabigol é mais efetivo e tem correspondido muito bem em jogos grandes. Nesta Libertadores, ambos carregaram os rubro-negros em momentos vitais. Se Gabriel desatou um nó contra o Emelec, Bruno desbancou o Internacional. E, contra o Grêmio, quatro dos seis gols anotados pelo Fla entram para a caderneta da dupla.

Talvez o melhor exemplo da sinergia tenha ocorrido no primeiro tento do Flamengo no Maracanã. Quando recebeu a bola de Gerson no meio-campo, num passe inteligentíssimo, Bruno Henrique bem que poderia abrir com Everton Ribeiro à esquerda. Parecia o mais certo e até mesmo o mais fácil. O ponta, entretanto, escolheu outro caminho. Preferiu arrombar a defesa tricolor com sua arrancada. Esperou o momento certo para Gabigol se desmarcar e receber o presente. O chute rebatido por Paulo Victor e a sobra na área são um mero detalhe àquilo que realmente conduziu o lance. O entendimento entre os atacantes valeu bastante.

Depois de abrir o placar, Bruno Henrique ajudaria nos outros dois gols de Gabriel. Foi numa bagunça rente à linha de fundo que nasceu o escanteio prévio ao chute que pegou na veia do artilheiro. Depois, o camisa 27 ainda sofreria o pênalti que permitiu ao 9 erguer de novo sua plaquinha. E ainda haveria uma retribuição, outra vez irresistível, só negada por impedimento. Ao longo da noite, a aceleração de Bruno Henrique foi um importante escape ao Flamengo, sobretudo no primeiro tempo. Gabigol contribuiu com sua inteligência no posicionamento e a capacidade nos arremates. Das 18 finalizações do Fla, oito foram executadas pelo centroavante, enquanto o ponta arremataria ou daria o passe a cinco chutes de seu time.

O Flamengo de Jorge Jesus pode ser subdividido em várias duplas. Rafinha e Filipe Luís formam uma dupla de laterais consagrados, Rodrigo Caio e Pablo Marí são os zagueiros refinados, Gerson e Arão acabam como os meio-campistas redescobertos, Arrascaeta e Everton Ribeiro se combinam como os armadores classudos. A dupla de atacantes fica em evidência pelos gols, pelo protagonismo, pela forma de comandar a festa. Ainda assim, são parte de um sistema. De um todo que, junto e misturado, consegue proporcionar esse momento único aos rubro-negros. É o sonho de qualquer torcedor ver o time jogar desta maneira.

E a passagem à decisão da Libertadores, por fim, dá um motivo evidente para que a dupla formada por Bruno Henrique e Gabigol seja lembrada, não só pelo carinho dos flamenguistas – como 60 tentos no ano já não bastassem.

O Flamengo ganha a chance de disputar novamente o título continental após quase quatro décadas, além de manter a taça do Brasileirão sob sua mira. Joga bola, exala vontade, empilha gols. Entre sons e cores, os responsáveis por estourar o grito no Maracanã tantas vezes têm o direito de estampar as capas dos jornais, de se propagar pelas ondas do rádio, de dominar a tela da TV. Dos velhos agradecidos pela alegria tão aguardada às crianças inspiradas que sequer possuem a dimensão daquilo que presenciam, Gabigol e Bruno Henrique também serão aqueles que balançarão ainda mais as redes nas tabelinhas imaginárias dos times de botão.