O Bate Borisov sustentava a quarta maior hegemonia da história dos campeonatos nacionais ao redor do mundo. Os auriazuis conquistaram o Campeonato Bielorrusso incríveis 13 vezes seguidas, de 2006 a 2018. Apenas Tafea (Vanuatu, com 15 taças de 1994 a 2009), Lincoln (Gibraltar, com 14 taças de 2003 a 2016) e Skonto Riga (Letônia, com 14 taças de 1991 a 2004) conseguiram emendar mais títulos. Por isso mesmo, o título do Dynamo Brest no último final de semana merece receber a devida repercussão. Pela primeira vez desde 2005, alguém foi capaz de desafiar o Bate e terminar com o troféu de campeão no país.

Dono de dois títulos antes da sequência, em 1999 e 2002, o Bate Borisov soube aproveitar muito bem as benesses de sua supremacia. O clube ainda surgiu nos tempos soviéticos, fomentado por uma fábrica de tratores, mas fechou as portas nos anos 1980 e só ganhou projeção após a independência de Belarus, refundado em 1996. Foram dois acessos consecutivos até a primeira aparição na elite do Campeonato Bielorrusso, em 1998. Desde então, em apenas uma temporada os auriazuis ficaram de fora das três primeiras colocações na liga.

O grande mentor da ascensão do Bate Borisov foi Anatoly Kapsky. Economista por formação, ele era executivo da companhia de tratores e liderou o projeto de refundação do clube em 1996, aos 30 anos de idade. Com o investimento liderado por Kapsky e pela empresa, os auriazuis se tornaram uma força local e ocuparam a lacuna deixada pelo Dynamo Minsk – único clube bielorrusso a disputar o antigo Campeonato Soviético, mas que sentiu o impacto da mudança de sistema econômico em suas finanças. Ainda assim, seria preciso mais para que os auriazuis construíssem tal hegemonia e a relevância além das fronteiras.

O Bate Borisov contou com uma administração exemplar para crescer passo a passo. A formação do time se baseava principalmente nas categorias de base, com a adição de uma ou outra estrela. Mesmo com um orçamento bem menor que o da concorrência de outros países, os auriazuis se tornaram frequentes na Champions League e na Liga Europa. Ao mesmo tempo, aproveitavam a injeção financeira garantida pela participação nas competições internacionais para melhorar as suas estruturas e sustentar a soberania local. Mesmo localizado em uma cidade de 150 mil habitantes, o Bate soube fazer a roda girar. Virou um dos clubes mais fortes do Leste Europeu e inaugurou um moderno estádio em 2014.

A partir da temporada 2008/09, o Bate Borisov se ausentou da fase de grupos nas competições continentais em apenas três ocasiões. Foram cinco aparições na etapa principal da Champions League e outras quatro na Liga Europa. Tratado como um inovador, o técnico Viktor Goncharenko conduziu o processo até 2013, exibindo um futebol competitivo e também ofensivo. Seu antigo assistente, Alyaksandr Yermakovich teve sucesso ao substituí-lo e permaneceu no cargo até 2017. No entanto, o Bate passou a enfrentar problemas nas temporadas mais recentes.

Oleg Dulub durou apenas seis meses à frente do time em 2018, substituído por Alyaksey Baha. Além disso, o Bate Borisov perdeu seu grande mentor. Lutando contra um câncer, o presidente Anatoly Kapsky faleceu em setembro de 2018, aos 52 anos. O clube ainda venceu o título na temporada passada com certa folga, mas não conseguiu emendar o 14° troféu consecutivo em 2019, apesar do evidente favoritismo.

Eliminado nas preliminares da Champions pelo Rosenborg e nas preliminares da Liga Europa pelo Astana, o Bate Borisov tratava o Campeonato Bielorrusso como seu objetivo único neste segundo semestre. Desde o primeiro turno, todavia, os auriazuis já travavam uma batalha com o Dynamo Brest pela liderança. O Bate chegou a ocupar a liderança no início do segundo turno, mas a sequência de tropeços minou seu fôlego. O Dynamo Brest aproveitou o desleixo para tomar a dianteira e, com uma sequência de 14 jogos de invencibilidade, nem precisou esperar o fim da liga para erguer a taça.

O jogo do título aconteceu pela penúltima rodada. O Bate Borisov até realizou sua parte, ao derrotar o Dynamo Minsk por 3 a 0. De qualquer maneira, o Dynamo Brest também venceu o Vitebsk e manteve a vantagem de cinco pontos na primeira colocação, suficiente para a conquista antecipada. Derrotada apenas uma vez ao longo do campeonato, a equipe possui o melhor ataque e a segunda melhor defesa do Campeonato Bielorrusso. De quebra, também vai representar o país nas preliminares da Champions.

Localizado numa cidade de 350 mil habitantes, na fronteira com a Polônia, o Dynamo Brest era uma espécie de filial do Dynamo Minsk nos tempos de União Soviética. Já depois da independência, se manteve como um clube de primeira divisão, mas limitado ao meio da tabela. Os primeiros sinais da ascensão recente vieram através da Copa de Belarus, com dois títulos em 2017 e 2018. Agora, um passo maior com o fim da supremacia do Bate Borisov.

Diferentemente do Bate Borisov, que possui um elenco formado majoritariamente por atletas bielorrussos, o Dynamo Brest aposta em atletas de diversas nacionalidades, sobretudo da África e das outras antigas repúblicas soviéticas. O próprio técnico é um estrangeiro, o tcheco Marcel Licka. A ascensão, de qualquer maneira, corresponde a um aporte financeiro. Desde 2016, o clube é gerido pela Sohra Overseas, uma companhia de origem emiratense que é propriedade de Alexander Zaitsev. Dono de diversas empresas, o magnata é torcedor do Dynamo desde a infância e por isso começou a investir na agremiação. Neste intervalo, até Diego Maradona foi nomeado presidente do clube, numa ação com mais interesses midiáticos do que práticos.

A lacuna no comando do Bate Borisov e o investimento do Dynamo Brest deixam um cenário aberto, que pode até mesmo motivar o crescimento de outras equipes. Os auriazuis sabem o caminho das pedras e possuem uma estrutura que permite acreditar na retomada já na próxima campanha. Ainda assim, a mudança no trono beneficia a competição e, quem sabe, pode levar outros clubes bielorrussos ao cenário continental. A quem esteve tão próximo do recorde, a derrocada dói ao Bate.