Na última segunda-feira, a Colômbia nomeou o novo chefe de suas forças armadas. Eduardo Zapateiro Altamiranda foi escolhido pelo governo do país para comandar os militares colombianos. A notícia fria, que pode não suscitar tanto interesse assim, incide diretamente no futebol. O general faz parte da vida de Juan Fernando Quintero, e marca um tristíssimo episódio ao meia. Quando o jogador do River Plate ainda era criança, seu pai desapareceu, dias após se juntar ao exército. Um dos principais suspeitos é justamente Zapateiro. Mesmo 24 anos depois, o caso segue sem resolução.

A nomeação de Zapateiro gerou revolta na família de Quintero. Tios do jogador se posicionaram publicamente contra a escolha do general. Zapateiro chegou a ser absolvido das acusações por um tribunal do departamento de Antioquia em 2001, o que não satisfez os familiares em busca de justiça. Por sua vez, Juan Fernando também se manifestou através de suas redes sociais. O meia preferiu não apontar diretamente para Zapateiro e enfatizou que não tem responsabilidade por aquilo que seus tios falam. Ainda assim, explicitou seu desejo por saber o que aconteceu com seu pai e a sua luta pela verdade.

“Não me interessa e não quero me aproveitar da notícia sobre o novo general do exército. Mas espero e aspiro ter um diálogo muito em breve e saber o que aconteceu. Sou alheio às declarações dos meus tios, a quem também respeito muito e sei a dor que sentem após 24 anos em que meu pai permanece desaparecido. Não sabemos o que aconteceu com ele, onde está e para onde foi. Sofremos muito e o vazio pelo meu pai permanece”, escreveu Juan Fernando Quintero, em seu twitter.

“Tenho o direito, como filho, de saber o que se passou com o meu pai. Isso é o que quero saber, porque sofri e vi minha família sofrer problemas sociológicos e mentais, bem como a ausência de meu pai para sempre. O vazio fica e o sinto todos os dias. Só quero saber o que aconteceu. Para terminar, espero que tenha ficado claro o que penso, mas sigo esperando uma resposta e sei que saberemos a verdade”, concluiu.

O caso é bastante delicado. Jogador com passagens por Atlético Nacional e Deportivo Itagüí, Jaime Quintero se apresentou ao exército em 1° de março de 1995, quando esperava ser liberado do serviço militar obrigatório. Na época, o rapaz tinha oito filhos, entre eles Juan Fernando, com dois anos recém-completados. O colombiano acabou integrado às forças armadas em Medellín e foi enviado à cidade de Carepa, ainda no departamento de Antioquia, próxima à fronteira com o Panamá.

Segundo sua ficha, Jaime Quintero foi expulso do exército quatro dias após seu alistamento. Os militares alegam o “mau comportamento e agressão a um homem uniformizado”, embora existam relatos de uma discussão com o então capitão Eduardo Zapateiro Altamiranda, que acusou o rapaz do uso de drogas. Neste ponto, incidem os questionamentos sobre o papel do agora general no desaparecimento. Oficialmente, Jaime Quintero retornou a Medellín em um ônibus que foi sequestrado por uma milícia armada no meio do caminho. Entretanto, seus familiares colocam em dúvida a veracidade de tal versão.

Juan Fernando Quintero cresceu participando de protestos nas ruas de Medellín, pedindo justiça e verdade ao pai. O número de desaparecidos na Colômbia durante décadas de luta armada passou dos 83 mil. O caso de Jaime Quintero, entretanto, foge dos padrões. Em março de 2001, os familiares do antigo recruta conseguiram acionar a justiça para um esclarecimento, pedindo indenização do exército. Todavia, o Tribunal Administrativo de Antioquia avaliou os relatos e negou qualquer direito aos parentes de Jaime. Duas décadas depois, a relevância de Juan Fernando traz outra dimensão ao caso.

Irmã de Jaime, Silvia Quintero questionou as reais intenções de Zapateiro, em entrevista ao jornal El Espectador: “Se ele realmente estivesse interessado, ajudaria para saber o que se passou com meu irmão. Ele nos deve uma explicação sobre o que fez com meu irmão, o que mandou fazer. Ele era o capitão de instrução. Deu a ordem do suposto traslado, depois do qual nunca voltamos a ver Jaime”.

Já Carlos, outro tio do jogador e irmão de Jaime, foi ainda mais duro em conversa com a Rádio Caracol: “Não entendo como as pessoas que cometem este delito de desaparição forçada são premiadas. Isso foi muito doloroso para toda a família. Queremos saber o que se passou com nosso irmão, visto pela última vez na Brigada 17”.

Depois da cerimônia que o colocou no comando das forças armadas, realizada nesta segunda, Zapateiro declarou que deseja conversar com Juan Fernando: “Eu me uno ao sentimento e à dor da família. Quero dizer a Juan Fernando que também o respeito, é nosso ídolo, e que as portas do meu comando no exército estarão sempre abertas à família”.

Nicacio Martínez, antecessor de Zapateiro na chefia do exército, sofreu denúncias de violações aos direitos humanos. Além disso, são comprovados os crimes contra a humanidade cometidos pelas forças armadas colombianas durante a guerra contra o narcotráfico e os paramilitares. Zapateiro ganhou prestígio especialmente a partir de 2008, quando foi responsável pela operação que terminou com a morte de Raúl Reyes, número dois das FARC. Ele também participou da operação que libertou a ex-candidata presidencial Íngrid Betancourt, mantida como refém pelas milícias.

Na própria segunda-feira, o exército emitiu um comunicado em que afirma que não há qualquer indício contra o general. Segundo a nota oficial, “a procuradoria delegada para a defesa dos direitos humanos não encontrou provas sobre a responsabilidade dos militares, por ação ou omissão, no desaparecimento de Jaime”. Ao lamentar o “sofrimento da família Quintero”, o exército ressalta a existência de grupos paramilitares naquela região. Além disso, as forças armadas convidaram a família para acessar as decisões judiciais existentes.

O próprio presidente da Colômbia, Iván Duque, se posicionou nesta terça-feira. O governante, que nomeou o general Zapateiro, ofereceu “todo o apoio” para esclarecer o desaparecimento do pai de Juan Fernando Quintero. Duque telefonou para o jogador e garantiu que o governo o ajudará. “Faremos o possível para que essa família, que tem essa dor, esclareça o ocorrido. Da parte do general Zapateiro, do exército e do governo, vamos auxiliar neste propósito”, afirmou. O desejo de Juan Fernando é se encontrar pessoalmente com Zapateiro.