Não é preciso de muito para aprender a amar a Libertadores. A vibração dos torcedores, a festa nas arquibancadas, os jogos eletrizantes, a paixão que exala dentro e fora de campo. São muitos os motivos para se criar um torneio fantástico. Ainda que alguns se recusem. A má fé de alguns se combina com a falta de organização imutável da Conmebol e a incompetência das autoridades. Permite instaurar o caos, como aconteceu nesta quinta-feira em La Bombonera. O que era para ser uma festa linda da torcida e um dos maiores capítulos do clássico entre Boca Juniors e River Plate se tornou um retrato do muito que atravanca o futebol na América do Sul. Que atrapalha tudo aquilo que faz a Libertadores apaixonante, mas que não é o suficiente para a gente desistir dela.

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Podia não se esperar uma grande noite de futebol, após os dois clássicos arrastados que os argentinos fizeram nas semanas anteriores. Mas a Bombonera pulsaria de qualquer maneira, como aconteceu antes da partida e durante o primeiro tempo, com o show dos 50 mil nas arquibancadas. E um dos gigantes sairia vencedor em uma noite histórica, até a imbecilidade dominar alguns indivíduos e estragar tudo. Torcedores localizados na barra brava do Boca Juniors teriam aberto fendas no túnel de acesso aos vestiários e lançado spray de pimenta contra alguns jogadores do River Plate antes da volta para o segundo tempo. O fim do jogo.

Atualizado às 15h de 15/05/15: A perícia determinou que o spray de pimenta partiu de dentro do campo, e não de fora. Segundo a imprensa argentina, torcedores tentavam lançar sinalizadores dentro do túnel. Independente da mudança de cenário, não minimiza a falta de controle sobre a torcida. Pior, só salienta o despreparo das autoridades para lidar com a situação.

A partir de então, o que ficou evidente foi uma sucessão de erros. Enquanto os jogadores do River Plate sofriam com os efeitos da substância, a indecisão permanecia. Como recomenda a Fifa, a Conmebol deixou a decisão sobre a continuidade da partida apenas ao árbitro, o argentino Darío Herrera – ou melhor, a entidade tirou o corpo fora de qualquer decisão mais incisiva, e de uma maneira patética, pelo twitter. Ao invés da sensatez de ver que não havia condição alguma para o jogo, preponderou o medo sobre a possível reação da torcida diante da suspensão do clássico. Passou-se 1h20 até que a decisão fosse tomada. Enquanto isso, objetos eram atirados em campo e investigadores colhiam as provas do ataque em pleno gramado, tirando fotos das camisas manchadas dos Millonarios.

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E, mesmo após a decisão de Herrera, os jogadores precisaram esperar mais uma hora no centro do gramado para que a proteção policial chegasse e os ajudasse a ir para os vestiários. Enquanto o River Plate era tomado pelo terror, o Boca Juniors (que queria seguir jogando, apesar de tudo) foi saudar a barra que provocou toda a confusão, gritava pedindo para que os rivais “ficassem” e atirava os objetos para que ninguém saísse do campo. Vergonha atrás de vergonha.

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Segundo as informações iniciais, a partida deverá ser retomada no final de semana – quando as rodadas das sete divisões do futebol argentino estarão suspensas em luto por causa da morte de um jogador. A previsão é que aconteça no estádio do Racing, em Avellaneda, com os portões fechados. E o River Plate, que era melhor em campo e ia saindo com a classificação, terá que se submeter a isso.

É até difícil apontar qual o maior erro nesta quinta. A liberdade aos barras, a falta de proteção aos jogadores e a indecisão sobre a suspensão do jogo são lamentáveis. Mas, no fim das contas, tudo gira em torno de três problemas crônicos, que impregnam o futebol, mas vão além: a desorganização, a impunidade e a submissão de interesses. Enquanto a baderna impera, uma minoria tem liberdade para fazer o que bem entender e ameaçar quem quiser. Não há risco de punições mais graves. E as instituições e as autoridades permanecem subjugadas por esta relação de poder.

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Por mais que a Argentina veja as barras bravas infestando o seu próprio sistema político, a questão não se limita a eles. Os problemas se repetem de uma ou outra maneira nos demais países. Pior, com a mesma impunidade e com a mesma submissão. Não é a torcida única, a perda de mandos de campo ou qualquer outra “medida exemplar” tomada pela Conmebol que vai resolver o problema. Infelizmente, ele é bem mais profundo. E depende também da colaboração dos clubes e do poder público. Algo que, na maioria das vezes, eles preferem não fazer justamente pelo jogo de interesses.

No fim das contas, a frouxidão da Conmebol só coroa a permissividade. Emendando o caos na Bombonera, logo tivemos as cenas da bela recepção da torcida em Medellín para o Atlético Nacional x Emelec decisivo. Ajudou a resgatar a Libertadores que a gente realmente gosta, ainda que não nos faça esquecer a estrutura podre que a sustenta. E que arruína um campeonato que tem tantos elementos sensacionais. Isso não é Libertadores, é vergonhoso.

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