O principal grupo de ultras do Sevilla, a Biris Norte, carrega a homenagem a um ídolo. A ‘peña’ surgiu durante a década de 1970 e ganhou seu nome em referência a Biri Biri, atacante que infernizava os marcadores adversários no mesmo período. Alhaji Momodo Njie, um dos maiores jogadores da história rojiblanca, merece ser lembrado como um pioneiro. O veterano também foi o primeiro negro a atuar pelo clube e um dos principais africanos que passaram por La Liga, em tempos nos quais os atletas do continente eram bem mais raros na Europa. Ainda foi o primeiro futebolista profissional de Gâmbia e, não à toa, permanece considerado como a grande figura do esporte local em todos os tempos. Tinha drible, tinha potência, tinha carisma. E assim fica sua memória, após a triste notícia do falecimento do gambiano, aos 72 anos.

Menor território da África continental, Gâmbia ganhou sua independência do Império Britânico em 1965. Nascido na capital Banjul, Biri Biri tinha 17 anos quando o país viveu sua transformação. E numa realidade pobre, o talento seria o caminho para o jovem buscar novos destinos. Não se negava desde cedo, afinal, que o rapaz possuía tino àquele negócio de chutar uma bola. Unia habilidade e velocidade, assim como muita impulsão, o que o tornava imparável nas partidas locais. Mais do que isso, também sabia marcar gols. Era uma joia bruta que, logo ficou claro, seria maior que seu próprio país dentro das quatro linhas.

Naquele mesmo 1965 da independência, Biri Biri juntou-se ao Augustinians, um dos principais clubes locais na época. Também defendia a seleção desde 1963, mas o país sequer integrava as eliminatórias. Um dos que admiravam os lances mágicos do atacante era o capitão da equipe nacional de críquete. E a ligação com os britânicos, de certa maneira, também abriu as primeiras portas ao jovem futebolista. Em 1970, ele ganhou uma chance de viajar à Inglaterra e se testar no Derby County.

Os Rams, que haviam acabado de conquistar o acesso à primeira divisão do Campeonato Inglês, eram treinados por Brian Clough. O lendário treinador, porém, não reconheceu as virtudes do gambiano. “Passei um ano difícil por lá. O treinador, Brian Clough, não me queria. Creio que não gostava da forma como eu jogava futebol. Assim, na temporada seguinte eu saí. Voltei para Gâmbia. Na Inglaterra, não souberam me querer”, diria Biri Biri, em entrevista à revista Panenka. O atacante juntaria-se em Banjul ao recém-fundado Wallidan, que se tornou o clube mais vitorioso do país.

O sonho de Biri Biri em se aventurar no futebol europeu não havia acabado. O caminho ao seu talento não seria a Inglaterra, mas sim a Dinamarca. Clube de meio de tabela no Campeonato Dinamarquês, o B 1901 realizou uma excursão pela África e enfrentou a seleção de Gâmbia. Os visitantes ganharam por 5 a 4, mas a atuação de Biri Biri impressionou tanto que o treinador Kurt Nielsen o convidou para realizar um período de testes. Na agremiação onde também surgira um jovem Morten Olsen pouco antes, o gambiano iniciava o pioneirismo.

Na época, o futebol dinamarquês ainda não era totalmente profissional, então Biri Biri precisava complementar sua renda trabalhando na lavanderia de um hospital. E uma temporada bastou para que o atacante ganhasse amplo reconhecimento no novo país. Sétimo colocado na liga local, o B 1901 alcançou a final da Copa da Dinamarca. Perdeu para o Randers, mas a ótima campanha havia levado a fama do gambiano até a Espanha. Seu desembarque na Andaluzia ocorreria logo em 1973.

E a contratação de Biri Biri serve como um elemento a mais na principal rivalidade da região. Há quem afirme que o primeiro a se interessar pelo atacante, na verdade, foi o Betis e que o Sevilla atravessou o negócio. Muitos sevillistas, em contrapartida, juram de pés juntos que seus dirigentes é que descobriram o talento primeiro. Fato é que, quando o gambiano aterrissou na nova cidade, os dirigentes do Sevilla o esperavam no aeroporto. Foi levado ao estádio, assinou seu primeiro contrato e depois poderia retornar para as férias em Gâmbia, antes de que a temporada começasse.

O Sevilla já era um dos clubes mais importantes da Espanha e viveu sua época dourada nos anos 1940, além de protagonizar boas campanhas nos anos 1950. A década de 1960, porém, começaria a marcar certo declínio dos andaluzes. Quando Biri Biri aportou, o time disputaria sua segunda temporada consecutiva na divisão de acesso. O atacante, então, carrega consigo a mística de devolver os sevillistas à grandeza da primeira divisão. Foi assim que ganhou a idolatria na Andaluzia.

A primeira temporada de Biri Biri no Nervión, em 1973/74, não seria tão feliz ao clube. O Sevilla chegou a ser treinado por Ernst Happel no início da campanha e tinha jogadores relevantes – Francisco Sanjosé, Pablo Blanco e Enrique Lora estão entre os dez atletas que mais vestiram a camisa da equipe, enquanto Baby Acosta figura entre os maiores artilheiros e Víctor Espárrago era uma das estrelas da seleção uruguaia. Nem assim os rojiblancos passaram da nona posição. Biri Biri, de qualquer forma, começava a conquistar a torcida. Foi o vice-artilheiro do time, com nove gols em 17 aparições, cinco deles anotados nas últimas duas rodadas da segundona. Indicava que merecia mais espaço.

O acesso, enfim, veio na terceira tentativa do Sevilla, em 1974/75. Treinados pelo argentino Roque Olsen, os andaluzes terminaram na terceira colocação da segundona, suficiente para o aguardado retorno. A grande figura da campanha seria exatamente Biri Biri. Titular absoluto, anotou 14 gols ao longo da competição, em 31 partidas disputadas. Tornou-se ainda mais um dos favoritos nas arquibancadas. O sorriso sempre presente e a gentileza com todos ao seu redor também facilitavam a aproximação, assim como alguns trejeitos peculiares dentro de campo, como a maneira em que batia na bola. O próprio filho pequeno do jogador, Momodo, costumava ser festejado pela torcida quando entrava em campo ao lado do pai.

“Olsen me disse: ‘Comigo vai jogar todas as partidas’. Então, pensei que era a hora de demonstrar quem eu era”, recontou o gambiano, à Panenka. “A segunda temporada no Sevilla foi o melhor ano da minha vida. Eu me lembro de uma partida contra o Rayo, em que marquei dois ou três gols. Quando saí de campo, as crianças me olhavam com admiração e os torcedores me carregaram nos braços até minha casa. Todo mundo gritava meu nome”. Foi a partir deste jogo, aliás, que se formou a peña Biris Norte.

Desde a década de 1940, alguns jogadores africanos se tornaram ídolos em La Liga. O marroquino Larbi Benbarek foi um pioneiro, com passos seguidos pelo moçambicano Mendonça, pelo guinéu-equatoriano Miguel Jones e pelo malinês Salif Keïta. Contudo, nenhum deles havia passado pelo Sevilla. Ser aclamado desta maneira, em tempos mais fechados do país ao final do franquismo e também de racismo mais frequente, representava bastante. A torcida acolheu Biri Biri e o glorificou.

“Biri Biri foi nosso primeiro jogador negro e, quando chegou, todos percebemos que era algo distinto. Ele era muito rápido, tinha um grande salto de cabeça e, além do mais, transmitia uma bondade incrível. Era muito carinhoso. O exotismo de sua chegada, sua forma de jogar futebol e seu caráter fizeram com que a torcida começasse a idolatrá-lo. Ele nos deixou seus gols e sua bondade, mas também passou ao nosso coração com a peña Biris Norte. Aí está seu legado e sua transcendência no Sevilla. Não há nada igual a esta torcida por sua animação, por seu sentimento, copiada por muitos outros e com um caráter muito pioneiro. Uma peña assim em 1975 não era comum”, contaria Pablo Blanco, antigo capitão do Sevilla e um dos melhores amigos do gambiano, em entrevista ao jornal El País.

O impacto de Biri Biri na primeira divisão do Campeonato Espanhol não seria tão grande dentro de campo, o que não diminuiria a veneração que recebia no Nervión. Ainda titular, anotou três gols por La Liga em 1975/76. Um deles aconteceria no empate por 1 a 1 contra o Real Madrid, que seria bicampeão nacional naquela temporada. “O Real Madrid tinha acabado de vencer o Derby County por 5 a 1. Jogamos contra eles no Sánchez-Pizjuán e começaram ganhando. O estádio estava cheio e só tinha três negros: minha mulher, meu filho e eu. Então, no segundo tempo, Julián Rubio chutou, o goleiro espalmou e eu fui correndo para marcar no rebote. Miljanic, técnico do Madrid, disse que era a primeira vez que via alguém ganhar bolas pelo alto de Benito, que era um zagueiro muito bom. Saiu em todos os jornais“, recobrava.

Por um problema contratual, Biri Biri não atuou na temporada 1976/77. Retornou ao time para La Liga 1977/78, com seis gols em 28 partidas. Balançaria as redes do Barcelona, na derrota por 3 a 1 dentro do Camp Nou, e também do Atlético de Madrid, quando o Sevilla desbancou os campeões do ano anterior por 3 a 0 no Nervión. A segunda divisão parecia um problema já distante aos rojiblancos, que terminaram aquela campanha num razoável oitavo lugar. Todavia, o gambiano não tinha uma relação tão boa com o técnico Cid Carriega e, deixado de lado, preferiu sair em 1978, depois de cinco anos. Foram 109 partidas e 34 gols pela equipe andaluz.

Biri Biri teve uma rápida passagem pelo Anderlecht, com um forte time na época, que havia acabado de levar dois títulos na Recopa Europeia. O atacante não permaneceria por muito tempo na Bélgica e retornaria à Dinamarca. Seguiu por três temporadas no Herfolge, antes de ressurgir no Campeonato Gambiano como um rei. Biri Biri defendeu o Wallidan por mais cinco temporadas. Também fez parte da seleção local, figurante nas eliminatórias da Copa do Mundo e da Copa Africana de Nações. Em 1986, aos 38 anos, o velho ídolo pendurou as chuteiras. Continuaria celebrado como uma espécie de Pelé em seu país, com raros destaques gambianos no futebol depois disso.

As honrarias a Biri Biri são amplas. Em 2000, recebeu a maior condecoração de seu país e foi nomeado ‘o melhor jogador do milênio’ em Gâmbia. Também foi nomeado vice-prefeito de Banjul e se tornou Ministro dos Esportes. Já em Sevilha, todas as recepções ao veterano eram extremamente calorosas. “Não posso expressar como me sinto quando vou para lá. Os sevillanos ficam malucos. É como se fosse outra família. Nas ruas, me amam mais do que aqui em Gâmbia. Eu levo o Sevilla no meu coração. Chorei quando saí do clube. Não sei como as pessoas de um país, onde só joguei futebol, podem me amar tanto. Ainda hoje muito, muito…”, relatou à Panenka.

A penúltima visita de Biri Biri ao Nervión aconteceu em 2017. Vestido em trajes típicos, o atacante seria homenageado com a insígnia de ouro do Sevilla. Foi aplaudido de pé pelos torcedores presentes nas arquibancadas e teve seu nome cantado, especialmente pela Biris Norte. Uma das músicas mais tradicionais da peña cita ‘Biri Biri Biri’. A emoção era natural, em reconhecimento que o gambiano levaria ao resto da vida. Diante dos problemas econômicos que o veterano enfrentava, o clube ainda lhe dava uma contribuição mensal. Sua casa em Banjul era repleta de referências aos rojiblancos. Outro a ajudá-lo era o filho mais novo, Yusupha Njie, que seguiu seus passos e virou jogador profissional. Nesta temporada, o atacante de 26 anos defende o Boavista, de Portugal.

Submetido a uma cirurgia em Dakar nos últimos dias, Biri Biri não resistiu às complicações e faleceu no domingo. O Sevilla dedicou a vitória sobre o Valencia ao veterano, e os tributos viriam de diferentes equipes da Espanha, bem como de outros tantos personagens do futebol – incluindo Maradona, que conheceu o gambiano durante sua passagem pela Andaluzia. Não foram apenas os sevillistas, afinal, que se renderam à história do atacante. Seu funeral teve honras de estado em Gâmbia, com a presença do presidente. Biri Biri pode não ter acumulado os números mais impressionantes e nem ter exibido o futebol mais refinado, mas fez o suficiente para se gravar como uma lenda. E uma torcida sempre o exaltará.