Um dos maiores emblemas da cultura basca é a Gernikako Arbola. A árvore simboliza a liberdade do povo basco, em uma tradição que se preserva há séculos. Durante a Idade Média, os representantes das vilas de Biscaia se reuniam em assembleias sob grandes árvores, para discutir os interesses gerais da população. A partir de 1512, a Assembleia de Guernica passou a centralizar estes grupos menores. Então, um grande carvalho foi adotado como sinal do antigo costume. Nem mesmo as mudanças na organização política do País Basco ao longo das décadas tiraram o valor daquele símbolo.

Em 26 de abril de 1937, a Gernikako Arbola foi o alvo de um ataque sem precedentes. O bombardeio à cidade de Guernica, nas redondezas de Bilbao, possuía razões estratégicas e ao mesmo tempo simbólicas. Francisco Franco destruía uma das principais bases republicanas e feria o coração de seus principais adversários na Guerra Civil Espanhola. Com a permissão do general, a Luftwaffe alemã e a Aviazone Legionaria italiana devastaram o município, em um dos primeiros ensaios militares de Adolf Hitler e Benito Mussolini às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Por conta de uma feira grande local, cerca de 10 mil pessoas estavam em Guernica naquele dia de horror. Centenas de civis morreram, outros tantos ficaram feridos e desabrigados. Carregaram o trauma para sempre.

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O massacre chamou a atenção de todo o planeta. Semanas depois, Pablo Picasso eternizou a brutalidade vivida pelos bascos ao pintar o célebre quadro Guernica. E, apesar do rastro de sangue, a Gernikako Arbola sobreviveu ao bombardeio. Aquele carvalho, conhecido como ‘El Árbol Hijo’, foi o terceiro a ser utilizado como símbolo – a partir de 1858, após a morte das duas árvores anteriores. Diante dos rumores de que os franquistas partiriam o tronco ao meio, moradores de Biscaia chegaram a montar guarda ao redor da Gernikako Arbola. ‘El Árbol Hijo’ permaneceu firme ao longo da Guerra Civil, da ditadura de Franco e do processo de redemocratização da Espanha. Aquele carvalho só foi retirado em 2004, por conta de uma infestação de fungos. Foi substituído e suas mudas hoje se espalham por Guernica.

guernica

Várias representações da cultura e do povo basco carregam a imagem da Gernikako Arbola, quase sempre com a reprodução de ‘El Árbol Hijo’. Inclusive, o maior orgulho regional no futebol. Se você observar o escudo do Athletic Bilbao, o carvalho está lá. Divide o espaço com a Igreja de San Antón e a ponte de mesmo nome, sobre a desembocadura dos rios Nervión e Ibaizábal – conhecida como Ria de Bilbao. A árvore apareceu no distintivo pela primeira vez na década de 1910 e, mesmo diante da supressão dos símbolos regionalistas durante a ditadura de Franco, ela foi mantida.

Nas semanas seguintes ao ataque a Guernica, o Governo Provisório do País Basco (que dirigia autonomicamente a região desde outubro do ano anterior) resolveu providenciar refúgio a cerca de 30 mil crianças e adolescentes bascos, sob os temores de outros ataques aéreos tão poderosos quanto aquele, sobretudo em Bilbao. Neste momento, ao lado da Gernikako Arbola, o próprio Athletic se transformou em um vínculo dos jovens expatriados com sua terra. Um episódio marcante é contado por Luis de Castresana no livro ‘El otro árbol de Guernica’, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura em 1967. Segundo o jornalista, um grupo de crianças refugiadas na Bélgica mantinha suas memórias vivas sobre as famílias e os amigos através de duas coisas: uma árvore no pátio da escola, que chamavam de Gernikako Arbola, e uma camisa do Athletic. Os pequenos vestiam o uniforme tentando preservar seu passado, relacionando as alegrias com o clube às lembranças de seu cotidiano no País Basco.

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Além disso, o próprio futebol se tornou um meio de redenção a alguns jovens que seguiram ao Reino Unido. O navio SS Habana levou o maior contingente de crianças fugidas da guerra: cerca de quatro mil bascos desembarcaram no porto de Southampton, dependendo do auxílio de voluntários britânicos, após a recusa do governo local de deslocar fundos públicos para os seus cuidados. O goleiro Raimundo Lezama e o atacante Sabino Barinaga, já adolescentes, atuaram no segundo quadro do próprio Southampton (curiosamente, fonte de inspiração ao uniforme do Athletic Bilbao) durante os últimos anos da década de 1930. Ao final da Guerra Civil, ambos retornariam à Espanha, seguindo a carreira como futebolistas no país-natal. Outros jovens bascos que se espalharam pelo território britânico, no entanto, decidiram permanecer na ilha e tentar fazer vida nova – seja pelas oportunidades oferecidas ou pela morte de seus parentes na Espanha. Entre eles, Emilio Aldecoa, que se tornaria o primeiro jogador espanhol a se profissionalizar na Inglaterra, defendendo Wolverhampton e Coventry City.

lezama

Ao final da Guerra Civil, muitos clubes espanhóis também refaziam os seus elencos, desmanchados por conta dos conflitos. O Athletic Bilbao, sobretudo, perdera muitas de suas referências. A maioria dos destaques dos leones se juntaram à seleção basca, que se formou em 1936 para dar visibilidade à causa republicana e arrecadar fundos às vítimas da guerra. A Euzkadi, inclusive, disputou o seu primeiro jogo justamente no dia do bombardeio a Guernica, vencendo o Racing de Paris (então campeão francês) por 3 a 0. Entretanto, boa parte daqueles legionários decidiu não retornar ao País Basco, assinando principalmente com clubes argentinos e mexicanos. Os leones precisaram começar praticamente do zero, recrutando novos talentos.

Sabino Barinaga, o garoto que ganhou uma oportunidade no Southampton, chegou a ser cortejado pelo Athletic na volta ao país. No entanto, o atacante recebeu uma oferta mais polpuda e acertou com o Real Madrid. Faria história nos merengues: anotou o primeiro gol da história do Estádio Santiago Bernabéu, assim como balançou as redes na histórica (e controversa) goleada por 11 a 1 sobre o Barcelona nas semifinais da Copa do Generalíssimo de 1942/43. Naquela competição, inclusive, se reencontrou na decisão com Raimundo Lezama, seu colega nos tempos de Saints. E o goleiro arrojado, contratado pelo Athletic em 1941, ajudou a fechar o gol na vitória dos leones por 1 a 0, com tento do mítico Telmo Zarra na prorrogação. Seis anos depois do horror de Guernica, o clube que simboliza o orgulho basco conquistou a dobradinha nacional, faturando também La Liga.

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Em San Mamés, Lezama se transformou em um dos maiores ídolos dos alvirrubros, erguendo oito taças em 16 anos. Também foi companheiro de jogadores que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas marcadas pelos ataques a Guernica. Emilio Aldecoa deixou o Coventry City em 1947 e realizou o seu sonho ao se transferir ao Athletic. Entretanto, não teve muito espaço na lendária linha ofensiva montada pelos leones naquele momento. Desfrutou de mais sorte no Barcelona, ao qual chegou em 1951, conquistando duas ligas e três copas. Por lá, tornou-se um dos melhores amigos de László Kubala, coincidentemente outro refugiado. Na única temporada em que Aldecoa vestiu a camisa alvirrubra, retornava ao elenco José Iraragorri. O veterano atacante, então com 34 anos, defenderia os leones por três temporadas até pendurar as chuteiras. Voltava para casa após nove anos fora, deixando o país com a seleção basca em 1937, antes de atuar pelos argentinos do San Lorenzo e pelos mexicanos do Real España.

iriondo

E havia Rafa Iriondo. O ponta direita poderia ser conhecido como o homem que defendeu o Athletic por 13 anos. O talento que completava o histórico quinteto de ataque ao lado de Zarra, Gainza, Venancio e Panizo. O dono de cinco taças nacionais pelo clube. No entanto, o rapaz que honrou os leones dos 22 aos 35 anos de idade representava mais. Ele era um sobrevivente de Guernica. Nascido na cidade, tinha 19 anos na época do bombardeio. Filho de comerciantes, conseguiu se salvar em uma fábrica. Depois, seguiu a Bilbao com seus familiares, onde contavam com o auxílio da assistência social após perderem tudo. O jovem ainda precisou se alistar ao exército republicano, servindo em um batalhão de transmissões por alguns meses. Virou prisioneiro de guerra e, como condição para sua liberdade, precisou se juntar às forças franquistas. Esteve presente na Batalha de Teruel, uma das mais sangrentas da Guerra Civil, deixando cerca de 40 mil mortos.

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Nem os conflitos separaram Iriondo do futebol, atuando pelo Gernika e também pelo Atlético de Tetuán, durante um período em que serviu no Marrocos. A partir de 1940, enfim, pôde retornar para sua terra e teve a chance de defender as suas verdadeiras cores: as do Athletic Bilbao. Marcou 115 gols em 326 partidas, além de dar inúmeros passes para o seu amigo Telmo Zarra balançar as redes. Deixou o clube em 1953, mas ainda voltaria em outras duas ocasiões como técnico, conquistando inclusive a Copa do Generalíssimo de 1968/69. Nenhum outro honrou tanto a Gernikako Arbola que carregou no peito, exaltado tantas vezes em vida e também em seu falecimento, em fevereiro de 2016, aos 97 anos. O guardião de um símbolo que todos que vestem a camisa dos leones precisam estar cientes do que representa.

Bônus

Para conhecer a história de Lezama, Barinaga, Aldecoa e de tantos outros jovens bascos que fugiram à Inglaterra, vale assistir a esse documentário produzido pelo Movistar+. Em espanhol: