A latinha de Coca que anulou um dos maiores massacres da história da Champions: Gladbach 7×1 Inter

Borussia Mönchengladbach e Internazionale são velhos conhecidos nas competições europeias. Os adversários desta quarta-feira na Champions se enfrentaram em duas ocasiões distintas por torneios da Uefa. E, embora mais recente, a Copa da Uefa de 1979/80 merece apenas uma nota de rodapé quando se lembra o confronto anterior. Em 1971/72, as potências se pegaram pelas oitavas de final da Copa dos Campeões. Apesar da tradição da Inter, o Gladbach chegou a aplicar uma inapelável goleada por 7 a 1 na Alemanha Ocidental. Porém, o massacre não está computado oficialmente no histórico dos clubes. Por conta de uma lata de Coca-Cola atirada das arquibancadas, o jogo acabou anulado.

Aquele era o retorno da Inter à Champions depois de cinco temporadas. Os nerazzurri tinham sido uma das forças dominantes do torneio europeu na década de 1960, com o bicampeonato conquistado pelo esquadrão de Helenio Herrera, mas estavam fora da disputa desde a derrota para o Celtic na final de 1967. Os interistas atravessaram um período de transição, ainda que alguns dos antigos campeões permanecessem à disposição. Tarcisio Burgnich, Giacinto Facchetti, Jair da Costa, Mario Corso e Sandro Mazzola compunham a ala mais rodada da equipe, com as chegadas posteriores de Ivano Bordon, Gabriele Oriali e Roberto Boninsegna. O técnico era Giovanni Invernizzi, que levou o Scudetto de volta à Beneamata em 1970/71 e tinha longo histórico no clube, como jogador e comandante na base.

O Borussia Mönchengladbach, por sua vez, começava a despontar como uma força na Alemanha Ocidental. Os Potros estrearam na Champions durante a temporada anterior, eliminados pelo Everton, e chegavam em 1971/72 como bicampeões nacionais. A fama da equipe se espalhava além das fronteiras, não apenas pela força na Bundesliga, mas também pela maneira como vários jogadores passavam a reforçar a seleção alemã-ocidental. Berti Vogts, Klaus-Dieter Sieloff, Günter Netzer, Herbert Wimmer e Jupp Heynckes já eram constantes nas convocações da Mannschaft, o que também ocorreria em breve com Rainer Bonhof. À frente da equipe desde 1964, após ser campeão com o rival Colônia, Hennes Weisweiler era um dos treinadores mais respeitados da Europa.

Durante a fase anterior, Inter e Gladbach avançaram sem grandes problemas. Os alemães-ocidentais pegaram o Cork Hibernians e não tiveram muita piedade dos irlandeses. Golearam em Cork por 5 a 0 e tiraram o pé nos 2 a 1 de Mönchengladbach. Já os italianos encaminharam a classificação com os 4 a 1 sobre o AEK Atenas, no San Siro. Não foi a vitória por 3 a 2 dos gregos em casa, com o gol decisivo anotado apenas no final, que incomodou os nerazzurri.

Os capitães Mazzola e Netzer se cumprimentam (Foto: Imago / One Football)

O embate nas oitavas de final atraía grandes atenções. A rivalidade entre Itália e Alemanha Ocidental estava em alta, sobretudo após a semifinal da Copa de 1970. Berti Vogts era o único representante do Gladbach em campo no Azteca, mas teve uma atuação fantástica. Já entre os interistas, se repetiam Burgnich, Facchetti, Mazzola e Boninsegna – este, protagonista no triunfo da Azzurra por 4 a 3, com um tento e a assistência para o gol decisivo. Seria também um personagem central na Champions.

Embora o Borussia Mönchengladbach construísse sua história, a Internazionale carregava o favoritismo ao confronto. O renome de muitos jogadores e também o peso da camisa na década anterior contribuíam a esta análise, o que levou os italianos a tratarem com certo esnobe os adversários. A delegação interista sequer ficou em Mönchengladbach, hospedando-se na vizinha Colônia. Os Potros soavam como um oponente provinciano à Inter, com seu estádio acanhado e a parca representatividade além das fronteiras. Seria um erro tremendo naquela noite chuvosa de outubro.

Afinal, o Borussia Mönchengladbach não demorou a fazer estrago no Bökelbergstadion, diante de 27 mil espectadores – muitos deles italianos, que acompanhavam seu time na estrada. O primeiro gol saiu logo aos sete minutos, numa bela jogada de Jupp Heynckes, deixando o marcador no chão. E por mais que a Inter tenha arrancado o empate aos 19, com Boninsegna, os alemães retomaram a vantagem dois minutos depois. Ulrik Le Fevre mandou para dentro e ratificou a superioridade dos Potros até aquele momento. A forte marcação dos nerazzurri não funcionava, diante do volume de jogo e do ímpeto ofensivo dos alvinegros.

A história do jogo mudou perto dos 30 minutos. Boninsegna foi cobrar um lateral, quando de repente o atacante caiu no gramado, aparentemente atingido por um objeto atirado das arquibancadas. “Não sei o que aconteceu, porque eu estava no chão. Ia bater o lateral quando fui atingido e desmaiei. Depois de acordar, queria continuar jogando, mas o médico me levou para o vestiário”, declararia Boninsegna, anos depois, ao Mondo Sportivo.

Logo a confusão se instaurou no gramado, com os dois times se embrenhando no meio do campo. O atacante se dizia tonto pelo golpe. O médico da Inter ratificava o discurso do jogador, ao afirmar que ele havia sofrido uma séria lesão no osso parietal. Já o técnico Giovanni Invernizzi queria retirar os nerazzurri de campo, afirmando que não havia condições para retomar o jogo.

Houve até mesmo uma corrida para encontrar a lata que havia atingido Boninsegna. O objeto apontado pelo atacante de repente desapareceu. Os alemães eram acusados de sumir com a latinha para deslegitimar a agressão ao adversário. Pouco depois, Sandro Mazzola apareceu com uma lata de Coca-Cola nas mãos, vazia. O capitão interista levou o artefato ao árbitro Jef Dorpmans, afirmando que ali estava a prova irrefutável do ataque. Imagens reveladas décadas depois, entretanto, indicam que o meia pegou o objeto com torcedores visitantes que estavam por perto nas arquibancadas.

A versão de Luggi Müller, defensor do Gladbach, reforça a impressão de uma farsa: “Eu vi a lata atingir o ombro de Boninsegna. A princípio, ele apenas parecia confuso. Então, Sandro Mazzola correu até ele e pediu para que ele ficasse no chão. Ele caiu como se tivesse sido atingido por um raio. A lata estava praticamente vazia. Percebi isso quando a chutei para fora. Boninsegna queria se levantar, mas um médico o empurrou repetidamente para o chão. Em seguida, ele foi carregado em uma maca. Mas vimos que ele estava piscando para seus companheiros. Foi uma ótima atuação”.

Já o jornalista Alfeo Biagi, ao site Storie di Calcio, se colocava como testemunha ocular da agressão: “Eu voltei de Mönchengladbach com minha capa de chuva manchada de Coca-Cola. A lata mais famosa do futebol europeu, de fato, voou em direção à nuca de Boninsegna, passando por cima da minha cabeça. Os respingos do líquido escuro pareciam brilhar sob os refletores. Lembro como se fosse ontem o forte impacto na cabeça de Boninsegna, que caiu no gramado atordoado. E vi, com a mesma nitidez, Sandro Mazzola pegando alguma coisa e entregando ao árbitro. Virei no mesmo momento e um jovem loiro tentava se esconder nas arquibancadas, mas foi imediatamente pego por dois policiais. As manchas de Coca-Cola deixaram uma leve marca na minha capa de chuva transparente, mesmo depois da lavagem”.

A discussão no gramado (Foto: Imago / One Football)

Diante de sete minutos de imbróglio, o árbitro Dorpmans até estava propenso a cancelar o jogo, mas a polícia alemã-ocidental recomendou a retomada, temendo uma revolta generalizada no estádio e um ataque aos cerca de 7 mil italianos presentes. A mesma posição pela continuidade foi apontada por Sir Matt Busby, que atuou como delegado do jogo lendário, mesmo ainda trabalhando como diretor do Manchester United. Assim, Boninsegna precisou ser substituído por Gian Piero Ghio e a Inter seguiu em campo. Com os italianos desinteressados e afetados pela confusão, o Borussia Mönchengladbach não se fez de rogado: os Potros aplicaram uma goleada histórica, num duelo que já pendia ao seu lado em condições normais.

Foram mais três gols do Gladbach ainda no primeiro tempo. Le Fevre balançou as redes cinco minutos depois do retorno, aos 34. Netzer também deixou o seu, aos 42, numa cobrança de falta rumo ao ângulo. E o quinto tento dos anfitriões viria aos 44, assinalado pelo oportunista Heynckes. O goleiro Lido Vieri, que falhou duas vezes, até deixou o campo no intervalo para a entrada do garoto Ivano Bordon. Só então a sangria seria estancada, também porque os anfitriões tiraram o pé.

Aos sete minutos do segundo tempo, Netzer marcou o sexto num toque soberbo por cobertura e só então o Gladbach poupou energias. A Inter perdeu nos minutos finais o lesionado Jair e, por ter feito as duas substituições permitidas na época, ficou com dez homens. Além do mais, Mario Corso foi expulso por reclamação no final. Ainda assim, os germânicos se contentaram “apenas com o sétimo”, graças a um pênalti cobrado por Sieloff aos 38. A partida ganhava ares míticos, ainda mais, por não ter sido transmitida ao vivo em consequência de um conflito pelos direitos televisivos. O massacre se agigantou graças às narrações das rádios, aos relatos dos jornais e ao que diziam os torcedores presentes no Bökelbergstadion. Da mesma forma, não havia filmagem disponível na época para confirmar as versões sobre o tumulto.

Depois da partida, a Inter justificava a derrota pela “condição psicológica” de seus jogadores. Apesar disso, também havia confiança de que a força política dos italianos pesaria nos bastidores. Paralelamente, o Gladbach acusava Boninsegna de encenar. O médico dos alemães foi atrás do atacante nos vestiários ao final do jogo, mas o médico interista não permitiu que o visitante examinasse o jogador. A federação alemã tentou colocar a culpa ainda nos torcedores visitantes, mas a polícia deteve um seguidor do Gladbach. O jeito aos Potros era confiar em seus direitos nos tribunais. O regulamento da Uefa na época previa eliminações e sanções financeiras por episódios do tipo, mas não o cancelamento da partida.

A Inter, de qualquer maneira, acionou o tapetão para pleitear a vitória por 3 a 0. Era respaldada por Peppino Prisco, seu vice-presidente e advogado renomado. Uma semana depois, a Uefa anunciou sua sentença: a partida estava mesmo cancelada e deveria ser repetida em Berna, um campo neutro. O Mönchengladbach também pagaria uma multa de 10 mil de francos suíços. Os Potros recorreram, declarando que a lesão de Boninsegna não foi tão séria e que a Uefa tinha sido influenciada pela opinião pública italiana. Depois disso, a confederação concederia permissão para que os germânicos realizassem o reencontro no Estádio Olímpico de Berlim, não mais que isso. Do outro lado, Mario Corso pegou um gancho de três jogos por sua expulsão.

A decisão gerou um sentimento de revolta na Alemanha Ocidental, principalmente contra suíços (sede da Uefa) e italianos. O prefeito de Mönchengladbach precisou lançar medidas protetivas por conta dos ataques xenofóbicos contra imigrantes italianos. Já dentro de campo, os Potros não conseguiram se impor da mesma maneira. O reencontro aconteceu primeiro no San Siro, com a vitória da Inter por 4 a 2.

Mauro Bellugi e Boninsegna fizeram os dois primeiros gols em 13 minutos, até que Le Fevre descontasse ao Gladbach pouco antes do intervalo. Jair fez o terceiro da Inter no início do segundo tempo. E, por mais que Hans-Jürgen Wittkamp tenha encostado aos alemães mais uma vez aos 44, houve tempo para Ghio assinalar o quarto tento interista e fechar a conta. “O reencontro foi disputado com uma tensão incrível. Eles ficaram furiosos porque o resultado foi anulado, mas sentimos o compromisso moral para mostrar que os 7 a 1 não refletiam nossa habilidade. Estávamos todos muito nervosos”, recobrou Facchetti, à Gazzetta dello Sport.

O Borussia Mönchengladbach ainda teria a oportunidade de virar o placar em Berlim Ocidental, mas não conseguiu passar do 0 a 0 no Estádio Olímpico. Seria uma atuação decisiva de Ivano Bordon, efetivado no gol após as falhas de Lido Vieri em Bökelsberg. O jovem de 20 anos colecionou milagres e chegou a pegar um pênalti de Sieloff, selando a classificação da Inter às quartas de final. Os nerazzurri eliminaram Standard de Liège e Celtic na sequência da Champions, caindo apenas na decisão. Johan Cruyff comandou a vitória por 2 a 0 no De Kuip, em noite de consagração ao bicampeão Ajax.

Já ao Gladbach, a Coca-Cola é uma lembrança amarga de seus anos de ouro. Os Potros conquistaram cinco títulos da Bundesliga nos anos 1970 e bateram de frente com o poderoso Bayern. Também levaram a Copa da Uefa duas vezes e perderam duas decisões, em tempos prestigiados do torneio secundário. A Champions, contudo, terminou como uma lacuna ao esquadrão. O clube foi eliminado nas quartas de final pelo Real Madrid em 1975/76, antes de ser superado pelo Liverpool na decisão de 1976/77 e na semifinal de 1977/78. Os 7 a 1 sobre a Inter eram tratados como o ápice do timaço.

“Naquele dia, fizemos o jogo de nossas vidas. Ninguém poderia ter nos parado. Nós teríamos batido a Inter mesmo se não houvesse lata e Boninsegna permanecesse em campo”, declarou Günter Netzer, craque dos 7 a 1, ao Corriere della Sera em 2002. Sandro Mazzola discordou à Gazzetta, em 2017: “Se Boninsegna não fosse atingido pela lata, acho que o jogo não teria terminado assim. O Borussia tinha um esquadrão, mas nós não teríamos tomado sete gols. Sabíamos que o jogo seria cancelado. Falei aos alemães para pararem, porque não importava mais o placar”

Árbitro da partida, Jef Dorpmans chegou a tratar o incidente como “deplorável”, em suas declarações à imprensa italiana logo após o jogo. Entretanto, com o tempo, mudou sua versão e apontou que Boninsegna não parecia realmente machucado. E também discordou da definição nos tribunais, já que o ocorrido não teria influência sobre o placar, em sua visão. “Obviamente, você não se esquece disso. O chefe de polícia me pediu para continuar o jogo. Ainda estou convencido que Boninsegna fingiu estar inconsciente, uma atuação profissional. A lata estava aberta, mas não cheia, e foi atirada de 20 ou 30 metro de distância. Não teria esse efeito todo em Boninsegna. O ato não estava certo, é claro, mas tampouco a resposta”, afirmou à revista Der Spiegel, em 2006.

O Dorpmans ainda ficou com um souvenir daquela noite: a latinha entregue por Sandro Mazzola. O objeto terminou em posse do Vitesse, clube da cidade do árbitro, onde ele chegou a atuar antes de iniciar a carreira com o apito. O destino do artigo, de qualquer forma, seria mesmo Mönchengladbach. Quando o episódio completou 40 anos, o Borussia entrou em contato com o Vitesse e pediu a lata, para que ficasse exposta em seu museu. Hoje, a latinha de Coca-Cola vazia tem um lugar de destaque no memorial dos Potros. É uma parte da história do clube, que reconta a glória e também o desgosto.

A famosa latinha no museu do Gladbach