A Juventus pode não ter espantado muita gente ao demitir Maurizio Sarri neste sábado, após a eliminação na Champions League. Surpreendente mesmo foi a escolha para sucedê-lo: Andrea Pirlo será o novo comandante dos bianconeri na próxima temporada. O maestro começará sua carreira como treinador no primeiro time da Velha Senhora, dias após ser anunciado como o novo comandante da equipe sub-23. Uma missão pesada a quem não tem qualquer experiência no trabalho, precisando comandar a reformulação após uma temporada insatisfatória. O ex-volante de 41 anos assinou contrato até junho de 2022.

“Andrea Pirlo será o novo treinador da Juventus. Hoje começa um novo capítulo de sua carreira no mundo do futebol. Como foi dito há cerca de uma semana: de Maestro a Mister. A partir de hoje será ‘O Mister’, pois o clube decidiu confiar a ele a liderança técnica do primeiro time, após já tê-lo escolhido para a Juventus Sub-23. A decisão de hoje se baseia na crença de que Pirlo tem tudo para liderar, em sua estreia no banco, um time experiente e talentoso para buscar novos sucessos”, anunciou o clube, em nota oficial.

Os riscos na escolha de Pirlo são claros, aos dois lados. A Juventus traz um treinador bastante cru, que possui sua inegável vivência dentro de campo, mas que ainda precisará estabelecer sua filosofia de jogo e suas ideias na casamata. Até pela maneira como Sarri saiu, esperava-se uma aposta renomada dos bianconeri, com Mauricio Pochettino já pintando nas primeiras notícias da imprensa italiana. Entretanto, a diretoria da Velha Senhora sequer deu tempo para especularem. Aproveitou que Pirlo estava “em casa”, propôs o desafio e recebeu o sim.

Pirlo também arrisca. Por sua visão dentro de campo e por sua inteligência tática, parece um craque propenso a também ter sucesso à beira do campo. O ponto é que esta troca de papéis costuma acontecer com o tempo. Mesmo Pep Guardiola ou Zinedine Zidane passaram por um “estágio” nas filiais antes de saltar ao time principal. Este era um roteiro bem possível ao italiano, mas a Juventus preferiu queimar etapas e sequer deixá-lo estrear no time sub-23. O veterano confia em seu taco, considerando que sua formação como técnico foi concluída apenas em 2019 e ele não teve tanto tempo para se aprimorar ou mesmo para ser assistente.

Pirlo ainda coloca em jogo a sua idolatria na Juventus – algo que poderia ter aprendido com antigos companheiros do Milan, a exemplo de Gennaro Gattuso e Pippo Inzaghi. Obviamente, não é um trabalho ruim que vai apagar a história de tudo o que o maestro construiu dentro de campo. Em compensação, pode tornar a escalada mais difícil para ser treinador, como se deu com os colegas de clube e seleção. E a pressão por resultados na Velha Senhora costuma ser ainda maior, dado o atual domínio do clube na Serie A.

Por outro lado, a Juventus também possui suas cartas na manga. Se Pirlo não der certo, o clube pode se eximir da culpa e também ganhar tempo para trazer outro treinador renomado nos próximos meses. Zinedine Zidane já foi um sonho de consumo da diretoria, por exemplo, até pelo seu passado em Turim. Além do mais, se o novato não emplacar, nada impedirá os bianconeri de admitirem a pressa na escolha e realocarem Pirlo ao sub-23, para assim prepará-lo ao futuro. Mas, neste momento, a escolha do velho ídolo parece muito mais um escudo em meio aos equívocos com Sarri. E também uma maneira de economizar dinheiro, diante dos valores altíssimos que os juventinos ainda precisarão pagar ao antecessor – estimados em €20 milhões brutos.

Em sua apresentação no time sub-23, Pirlo declarou o apreço pelo estilo de jogo praticado por Sarri. Se quiser manter tais ideias, terá um trabalho mais árduo, considerando as lacunas do elenco para tal proposta. A Juventus tem bons jogadores e alguns craques de primeiro nível, mas seu antecessor não conseguiu corresponder às expectativas justamente pela maneira como a equipe atuava, previsível e sem aproveitar o potencial de algumas peças, além de dependente de Cristiano Ronaldo e Paulo Dybala. Não é um quebra-cabeças tão simples de se resolver, embora o novo técnico inspire respeito por seu passado como jogador e conheça diversos atletas que foram seus companheiros.

“Eu preciso explicar para esses rapazes o que a Juventus realmente significa. Qualquer um que jogue contra nós irá querer vencer ainda mais e nós temos que nos provar todas as vezes”, afirmou Pirlo, em sua chegada ao sub-23. “Eu estou orgulhoso de começar esta carreira como técnico e espero viver algumas das emoções que tive como jogador. Eu mal posso esperar para começar, porque os anos longe do futebol desde a minha aposentadoria me fizeram perceber que este era o caminho que queria seguir. Eu estou muito feliz por ter voltado à Juventus”. Um discurso que agora precisará adaptar à nova tarefa.

Quanto ao estilo, Pirlo possui um norte, a partir do que vivenciou dentro de campo: “Eu tenho estudado desde que eu parei de jogar, isso aumentou a minha curiosidade e meu desejo de aprender mais, então eu mergulhei 100%. Eu tive muitos técnicos na minha carreira e todos eles me ensinaram alguma coisa, de Carlo Ancelotti a Marcelo Lippi e Massimiliano Allegri. Contudo, todo técnico tem seu próprio caminho e eu tenho um jeito específico de jogar na minha mente, é com a bola nos pés e sempre partir para a vitória. Eu odiei algumas coisas como jogador e nunca quero vê-las de novo. Os sistemas não são um problema, é sobre ocupar os espaços e trabalhar com as características dos jogadores”.

Pirlo chegou à Juventus em 2011, após não ter seu contrato renovado com o Milan, e pode se dizer que ajudou a transformar a história recente do clube. O maestro contribuiu bastante ao início da atual dinastia, com quatro Scudetti no eneacampeonato pela Serie A. Também seria brilhante na Champions de 2014/15, embora tenha se despedido com o vice, para atuar na MLS. Voltou como uma figura muito querida em Turim e com uma história para qualquer um respeitar. Mas, apesar das virtudes, terá que lidar com uma pressão para fazer acontecer – o que não se esperava quando chegou ao sub-23. O teste inicial será enorme.