Já garantida ao menos como segunda colocada em seu grupo, a Irlanda do Norte aguarda a definição das demais chaves das Eliminatórias para saber se disputará a repescagem. Assim, segue alimentando o sonho de retornar ao maior torneio de seleções do planeta depois de mais de três décadas, quando uma geração histórica colocou o pequeno país numa posição de destaque no futebol internacional. Entre 1980 e 1986, a ‘Norn Iron’, como é chamada por seus torcedores, disputou dois Mundiais seguidos (fazendo ótimo papel em um deles), venceu por duas vezes o tradicional Campeonato Britânico e esteve muito perto de jogar a Eurocopa pela primeira vez, obtendo ainda vitórias marcantes sobre seleções mais cotadas.

O início

Fundada em Belfast no ano de 1880, a Irish Football Association formou pela primeira vez a seleção nacional da Irlanda dois anos depois. Na época, e até o começo da década de 1920, toda a ilha representava um só país, até que um movimento de secessão, que pouco antes havia dividido o território em norte e sul, criou em 1922 o Estado Livre Irlandês, que logo se tornaria a República da Irlanda. Como naquela época as seleções britânicas não eram filiadas à Fifa, o que só ocorreria em caráter definitivo após a Segunda Guerra Mundial, a equipe representada pela IFA ficou de fora das competições da entidade internacional até 1949.

VEJA TAMBÉM: O Avellino de 1978 a 1988: O simpático clube que se manteve por uma década na estrelada Serie A

Nas Eliminatórias para a Copa de 1950, pela primeira vez, as duas Irlandas participaram de um mesmo torneio, mas a divisão ainda era indefinida em termos organizacionais. Somente em 1953, a Fifa deliberou que dali em diante as equipes seriam tratadas por Irlanda “do Norte” (a administrada pela IFA) e “República” da Irlanda (a originada do Estado Livre Irlandês).

Cinco anos depois, os norte-irlandeses viveram momento histórico ao se classificarem para o Mundial da Suécia, deixando Itália e Portugal para trás nas Eliminatórias, e chegarem às quartas de final, eliminando Argentina e Tchecoslováquia, caindo somente para a França de Kopa e Fontaine. Deste time dirigido por Peter Doherty, entre craques como Danny Blanchflower, Jimmy McIlroy, Peter McParland e o goleiro Harry Gregg, sairia o treinador de uma outra Irlanda do Norte que marcou época, décadas depois: a da primeira metade dos anos 1980. Seu nome era Billy Bingham.

O técnico

pat jennings e billy bingham

Em sua carreira de jogador, Billy Bingham foi um ponta-direita revelado pelo Glentoran, que se tornou titular do Sunderland ao longo de quase toda a década de 1950, chegando à seleção norte-irlandesa com apenas 19 anos, em 1951. Sete anos depois, participou da histórica campanha nas Eliminatórias (marcou inclusive o gol do empate em 1 a 1 com Portugal em Lisboa) e na Copa do Mundo da Suécia. Na volta, foi negociado pelo Sunderland com o Luton, pelo qual jogaria a final da FA Cup de 1959 em Wembley (os Hatters seriam derrotados pelo Nottingham Forest por 2 a 1).

VEJA TAMBÉM: O Espanyol de 1987/88: Quando os pericos saíram da sombra do Barça e derrubaram gigantes da Europa

No ano seguinte, vendido ao Everton, conquistou com os Toffees o título da liga em 1962-63, pendurando as chuteiras no Port Vale em 1965. Embora não fosse um atacante naturalmente talentoso, Bingham compensava com uma boa velocidade, força física e controle de bola, além de muita luta – ingredientes os quais empregaria futuramente como técnico da seleção.

No mesmo ano em que encerraria seu período de jogador, iniciaria o de treinador, marcado em seus primeiros 15 anos por passagens pelo futebol da Inglaterra e da Irlanda do Norte, além de trabalhos esporádicos na Grécia (no comando da seleção e do PAOK). Na liga inglesa, seu momento de maior destaque foi no Everton, brigando pelo título da liga em 1975, perdido nas rodadas finais. Já na Irlanda do Norte, além de ter comandado a seleção entre 1967 e 1971, levantou nada menos que quatro títulos com o Linfield na única temporada em que esteve à frente dos Blues.

Em março de 1980 seria novamente convidado para dirigir a Irlanda do Norte. A seleção, antes comandada por Danny Blanchflower (um dos maiores jogadores da história do país e ídolo eterno do Tottenham) havia terminado na segunda colocação em seu grupo nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1980, à frente de Irlanda, Bulgária e Dinamarca, mas bem atrás da classificada Inglaterra. Havia, como sempre, uma base de jogadores experientes que atuavam nas duas primeiras divisões inglesas, e foi a ela que Billy Bingham recorreu em sua estreia, contra Israel em Tel-Aviv, já na abertura do Grupo 6 europeu das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982.

A geração

A equipe que Billy Bingham herdou já não contava mais com George Best, maior jogador surgido no país, que havia feito sua última partida pela seleção três anos antes. Mas trazia nomes rodados. No gol, o dono da posição era o veterano Pat Jennings, 34 anos de idade, e que havia marcado época no Tottenham e posteriormente no rival Arsenal como um dos melhores goleiros britânicos. Dos Gunners também vinha o viril lateral-esquerdo Sammy Nelson, enquanto o fértil viveiro do Manchester United provia três nomes sólidos na equipe: o lateral-direito Jimmy Nicholl (nascido no Canadá), o batalhador volante David McCreery (na época já defendendo o Queens Park Rangers) e o dinâmico meia Sammy McIlroy.

martin

O Nottingham Forest, então vivendo o auge de sua força na história, caminhando para o bicampeonato europeu, cedia o jogador mais talentoso do meio-campo, o armador Martin O’Neill. O ponta convertido em volante Tommy Cassidy, que havia jogado uma década inteira no Newcastle, também era outro nome constante, assim como o veterano zagueiro Chris Nicholl, 33 anos, que vivera bom momento no Aston Villa e agora defendia o Southampton. No ataque, uma presença certa era a de Gerry Armstrong, que em breve trocaria o Tottenham pelo Watford.

VEJA TAMBÉM: O Norwich de 1992/93: A primeira grande zebra da história da Premier League

A essa base experiente, Bingham acrescentou novos nomes: deu sequência a jovens lançados no fim da era Blanchflower – como o centroavante Billy Hamilton, do Burnley – e fez estrear outros ao longo de seu primeiro ano no cargo, como os zagueiros John O’Neill (Leicester) e John McClelland (Mansfield Town), o lateral-esquerdo Mal Donaghy (Luton) e o ponta-esquerda Noel Brotherston (Blackburn). Era esse o grupo de jogadores nos quais o treinador apostaria para os dois primeiros grandes desafios que teria pela frente: as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982 e o tradicional Campeonato Britânico, torneio que reunia anualmente Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales num quadrangular em turno único.

Saindo da fila no Campeonato Britânico

Instituído em 1884, o British Home Championship foi o primeiro torneio de futebol entre seleções do mundo. Nas 84 edições anteriores a aquela de 1980, a Irlanda do Norte havia levado a taça sozinha apenas uma vez, em 1914, no último torneio antes da pausa forçada pela Primeira Guerra Mundial, quando ainda representava o todo de sua ilha. Havia ainda dividido o título com a Inglaterra por duas vezes (1958 e 1959), com ingleses e escoceses em outras duas ocasiões (1903 e 1964) e ainda em um incrível empate quádruplo ocorrido em 1956. Mas o jejum de 66 anos sem o título isolado incomodava.

A edição de 1980 seria disputada ao longo da segunda quinzena de maio, semanas antes da abertura da Eurocopa daquele ano, para a qual apenas a Inglaterra de Ron Greenwood havia se classificado. Mas a primeira rodada já registrou surpresas. No dia 16, a Irlanda do Norte abria a competição batendo a Escócia por 1 a 0 no Windsor Park, em Belfast, com um gol de Billy Hamilton, girando sobre seu marcador e fuzilando o goleiro Thomson no primeiro tempo. No dia seguinte, um resultado ainda mais chocante foi a goleada dos galeses sobre os ingleses por 4 a 1 no Racecourse Ground, em Wrexham.

1980

No dia 20, sobrou para os norte-irlandeses enfrentarem uma Inglaterra mordida em Wembley. Mas o placar só seria aberto a nove minutos do fim, numa infelicidade de Brotherston, marcando contra as próprias redes e colocando os ingleses em vantagem. Mas por pouco tempo. Dois minutos depois, após cruzamento da direita desviado na área, a bola sobraria para o reserva Terry Cochrane deixar tudo igual e encerrar as chances da Inglaterra no quadrangular. No dia seguinte, a Escócia se recuperou e bateu Gales por 1 a 0 em Glasgow, gol do zagueiro Willie Miller, embolando a disputa.

VEJA TAMBÉM: Como o dinheiro da TV foi chave para a criação da Premier League

O jogo crucial entre galeses e norte-irlandeses ficou para o dia 23, no Ninian Park, em Cardiff. As duas seleções poderiam levantar o título, embora os donos da casa – em caso de vitória – ainda precisassem aguardar o resultado do jogo entre Escócia (que seguia com chances) e Inglaterra no dia seguinte. Mas tudo acabaria decidido mesmo naquele primeiro jogo da última rodada: logo aos 22 minutos, Noel Brotherston receberia um passe da direita, entraria na área, limparia a marcação, chutando no canto do goleiro Dai Davies para marcar o único gol do jogo e transformar o clássico do dia seguinte num mero amistoso (os ingleses venceriam por 2 a 0 no Hampden Park).

A vitória confirmava um título histórico para a Irlanda do Norte, marcando ainda as comemorações do centenário da federação local naquele ano. E era ainda mais significativa em virtude dos desfalques de Pat Jennings e Martin O’Neill, dois jogadores fundamentais para a seleção, e que na mesma época disputavam finais europeias com seus clubes (Arsenal e Nottingham Forest, respectivamente).

Armado no 4-4-2 britânico clássico, o time-base começava com o goleiro Jim Platt, do Middlesbrough (o substituto de Jennings), e seguia com a linha de quatro defensores formada pelos laterais Jimmy Nicholl e Mal Donaghy e os centrais John O’Neill e John McClelland. No meio, Tommy Cassidy e Sammy McIlroy atuavam na faixa central, com Tom Finney (Cambridge United) no lugar de Martin O’Neill pela direita e Noel Brotherston na esquerda. Na frente, Billy Hamilton jogava mais enfiado na área, com Gerry Armstrong movimentando-se ao redor.

De volta à Copa do Mundo

A campanha nas Eliminatórias que levaria a Irlanda do Norte a um Mundial depois de 24 anos começaria antes mesmo da disputa do Campeonato Britânico, ainda em 26 de março de 1980, num empate sem gols com Israel (que havia sido remanejado para o Grupo 6 europeu após o sorteio) em Tel-Aviv. Os norte-irlandeses não eram muito cotados a uma das duas vagas no Mundial numa chave que contava ainda com Suécia, Escócia e Portugal, mas depois dos primeiros resultados daquele grupo, as possibilidades foram aumentando.

VEJA TAMBÉM: Relembre como foi a primeira temporada da Premier League

No jogo seguinte, dia 15 de outubro em Belfast, o time de Billy Bingham aproveitou-se do mau momento da Suécia, que vinha de dois resultados ruins em casa (empate sem gols com Israel e derrota de 1 a 0 para a Escócia), para sapecar um 3 a 0 sobre os escandinavos, marcando os três gols em menos de 40 minutos. Os dois primeiros gols nasceram de contragolpes fulminantes. Aos 24, a jogada começou pela esquerda, mas terminou do outro lado, com a finalização de Noel Brotherston, abrindo o placar. Quatro minutos depois, Billy Hamilton fez jogada de ponta descendo pela direita e cruzou para Sammy McIlroy ampliar. E o terceiro gol veio aos 37, num chutaço de canhota do lateral-direito Jimmy Nicholl da intermediária.

irlanda do norte - elim. copa 82

A primeira derrota viria no terceiro jogo, em 19 de novembro, contra Portugal no Estádio da Luz: 1 a 0, gol do centroavante Jordão no segundo tempo. Após os oito jogos realizados pelo grupo, os lusos encerravam o ano de 1980 na liderança, com cinco pontos em três jogos. A Escócia, que jogara apenas duas vezes, havia obtido uma vitória e um empate, somando três pontos, mesmo número da Irlanda do Norte (uma vitória, um empate e uma derrota) e dos surpreendentes israelenses (três empates e uma derrota). Na rabeira, vinha a decepcionante Suécia, com apenas dois pontos (dois empates) em quatro partidas.

Os norte-irlandeses voltaram a campo em 25 de março do ano seguinte, empatando em 1 a 1 com a Escócia em noite chuvosa no Hampden Park, em Glasgow. Saíram na frente já aos 25 minutos do segundo tempo quando Sammy McIlroy cobrou falta lateral na área e Billy Hamilton apareceu para cabecear. Mas sofreram o empate cinco minutos depois, quando John Wark recebeu passe pela direita e bateu cruzado para vencer Pat Jennings. De qualquer maneira, foi um ponto precioso, pois os escoceses já haviam ultrapassado os portugueses e agora se distanciavam na ponta, após vencerem seus dois confrontos contra Israel.

E em 24 de abril chegou a vez de a Irlanda do Norte também ultrapassar Portugal na classificação, ao vencer o confronto direto por 1 a 0 no Windsor Park, dando o troco da derrota em Lisboa. Após os portugueses chegarem a acertar uma bola no travessão em chute de António Oliveira, o gol dos britânicos saiu em jogada dramática, aos 28 minutos da etapa final. Sammy Nelson cobrou falta pelo lado esquerdo na área, um jogador norte-irlandês desviou de cabeça, e a bola ia se perdendo pela linha de fundo em tiro de meta. Até que Terry Cochrane correu e conseguiu impedir a saída, quase sobre a linha. Então recuperou o fôlego e cruzou de volta. O goleiro Bento saiu em falso, e Armstrong, na pequena área, cabeceou para as redes.

Com a vitória, a Irlanda do Norte chegava a seis pontos, dois a menos que a Escócia, mas um à frente de Portugal. Quando junho chegou, no entanto, a Suécia começou a ensaiar uma reação, iniciada no dia 3 com uma vitória exatamente sobre o time de Billy Bingham em Estocolmo. Foi um jogo tenso, decidido num pênalti muito contestado em Svensson aos quatro minutos da etapa final e convertido por Hasse Borg, que mais tarde acabaria expulso junto com Terry Cochrane numa confusão. Três semanas depois, novamente em Estocolmo, os suecos abateriam Portugal com um sonoro 3 a 0 e chegariam aos mesmos seis pontos dos norte-irlandeses.

A reação nórdica foi freada em setembro, com a derrota para a Escócia por 2 a 0 em Glasgow, resultado que praticamente confirmou o Tartan Army na Copa. Em 14 de outubro haveria rodada simultânea: os suecos encerrariam sua participação no grupo vencendo os portugueses por 2 a 1 em Lisboa, graças a um gol de Persson no último minuto, e subiriam para a vice-liderança com oito pontos, deixando os lusos em situação complicada com apenas cinco (e dois jogos por fazer). Na outra partida, a Irlanda do Norte parou num travado empate em 0 a 0 diante da Escócia em Belfast e caiu para a terceira colocação, com sete pontos, enquanto os escoceses garantiam matematicamente sua classificação antecipada.

A briga pela segunda vaga passou a se resumir oficialmente entre suecos e norte-irlandeses no dia 28, quando Portugal perdeu suas últimas esperanças ao ser goleado por Israel em Tel-Aviv por 4 a 1, caindo temporariamente para a lanterna do grupo. E seriam os embalados israelenses os adversários da Irlanda do Norte em seu último e decisivo jogo no Windsor Park. Mesmo com o desfalque de Martin O’Neill, os donos da casa mostraram muita determinação e marcaram o gol da vitória e da classificação à Copa do Mundo aos 27 minutos: Jimmy Nicholl bateu falta da direita, Billy Hamilton ajeitou de cabeça e Gerry Armstrong emendou de primeira para vencer o goleiro Arie Haviv. Depois do fim do jejum de muitas décadas no Campeonato Britânico, outra longa espera chegava ao fim.

Surpreendendo na Espanha

Após a classificação histórica, a Irlanda do Norte decepcionou nos jogos de preparação para o Mundial. Terminou a nova edição do Campeonato Britânico na última colocação com apenas um ponto ganho, sofrendo pesadas derrotas para Inglaterra (4 a 0) e Gales (3 a 0), e ainda foi goleada pela França num amistoso em Paris (4 a 0). Mas Bingham não se abalou. Sorteada no Grupo 5 do Mundial, ao lado da anfitriã Espanha, da bem-cotada Iugoslávia e da desconhecida Honduras, sua equipe era tida como um azarão perigoso, com o qual todo cuidado era pouco.

VEJA TAMBÉM: Os 25 anos do último título do Leeds, uma surpresa às portas da revolução com a Premier League

O elenco, no entanto, era bastante curto, fazendo com que Bingham lançasse mão de apostas insólitas. Na lista final dos 22, incluiu quatro jogadores da semiamadora liga da Irlanda do Norte – o goleiro George Dunlop (Linfield), os meias Jim Cleary e Johnny Jameson (Glentoran) e o atacante Felix Healy (Coleraine) – e um jovem que havia completado 17 anos em maio e feito apenas duas partidas oficiais como profissional pelo Manchester United chamado Norman Whiteside.

irlanda do norte 1982

E Whiteside seria a grande surpresa na escalação da equipe para a estreia contra os iugoslavos. O meia-atacante faria sua primeira partida pela seleção já no Mundial, e quebrando um recorde: batera a marca de ninguém menos que Pelé como o atleta mais jovem a disputar uma Copa do Mundo. A Irlanda do Norte entraria em campo com aquela que seria sua equipe-base para o Mundial: Pat Jennings no gol, Jimmy Nicholl e Mal Donaghy nas laterais, Chris Nicholl e John McClelland na zaga, Dave McCreery como o pulmão do meio-campo, ao lado do organizador Sammy McIlroy, o capitão Martin O’Neill na meia-direita e Whiteside pelo lado esquerdo como os principais criadores e, na frente, a já entrosada dupla formada por Gerry Armstrong e Billy Hamilton.

O empate em 0 a 0 em Zaragoza, em 17 de junho, numa partida sem grandes lances de emoção (apesar do domínio iugoslavo) pelo menos serviu para acalmar os nervos da estreia e manter os irlandeses no páreo. Para o jogo seguinte contra Honduras, quatro dias depois, o que se esperava era uma boa vitória, importante para tentar a classificação, mas o adversário vinha embalado: havia segurado a Espanha diante da fanática torcida no estádio Luís Casanova (atual Mestalla), em Valencia, num empate em 1 a 1.

Sem medo da zebra hondurenha (afinal, também era considerada como tal), a Irlanda do Norte começou atacando e abriu o placar logo aos nove minutos. McIlroy cobrou falta na ponta esquerda levantando na área, a bola bateu no travessão duas vezes antes de Armstrong cabecear para as redes. Após uma bola na trave para cada lado, o empate de Honduras veio na etapa final, também numa jogada aérea: Tony Laing desviou cobrança de escanteio no primeiro poste para deixar tudo igual.

O resultado, aliado às vitórias da Espanha sobre a Iugoslávia e dos iugoslavos sobre Honduras na última rodada (que não foi disputada de forma simultânea), deixava os irlandeses numa situação complicada: dependiam de uma vitória ou ao menos um empate com muitos gols diante dos espanhóis. Um 0 a 0 classificaria os balcânicos no número de gols marcados e o 1 a 1 levaria a decisão para um sorteio. Na tarde quente de 25 de junho em Valencia, o jogo foi para o intervalo sem gols. Mas o placar seria aberto logo aos dois minutos da etapa final – surpreendentemente a favor dos azarões.

Armstrong interceptou um passe na lateral direita da defesa irlandesa e correu até o meio-campo, abrindo o jogo na ponta com Billy Hamilton. O atacante passou por Tendillo e centrou. A bola desviou levemente em Alonso, e forçou o goleiro espanhol Arconada, um dos melhores da Europa na época, a fazer a defesa apenas parcial, espalmando para o meio da área. Seria um erro fatal: a bola caiu nos pés de Armstrong, como num pênalti, e o camisa 9 fuzilou para deixar a Irlanda do Norte em vantagem. Daí em diante, mesmo após a expulsão do lateral-esquerdo Donaghy aos 18 minutos por um empurrão em Camacho, a defesa aguentou firme, garantindo a classificação num improvável primeiro lugar do grupo.

O resultado eliminou a Iugoslávia e mandou a Espanha para um grupo impossível da segunda fase contra Alemanha Ocidental e Inglaterra. Enquanto isso, os norte-irlandeses – cujos jogadores tinham liberdade para beber cerveja e se divertir nas discotecas espanholas – tinham pela frente a perigosa Áustria e uma França recheada de talento, mas que ainda devia uma atuação consistente naquele Mundial. O Grupo D, sediado no estádio Vicente Calderón, em Madri, foi aberto no dia 28 de junho com a vitória francesa por 1 a 0 sobre os austríacos, gol de Bernard Genghini.

Já no dia 1º de julho, os britânicos enfrentariam a Áustria com dois desfalques: Donaghy, cumprindo suspensão, seria substituído por Sammy Nelson, enquanto Pat Jennings, lesionado na coxa, dava lugar a Jim Platt no gol. E sairiam na frente no primeiro tempo, quando Armstrong avançou pela direita e cruzou na medida para a cabeçada de Hamilton. Na etapa final, cansados, cederam terreno aos austríacos, que empataram num bonito gol de letra do zagueiro Pezzey e viraram numa bomba de Hintermayer em cobrança de falta. Mas ainda conseguiram, num último gás, chegar ao empate novamente, numa bola que Jimmy Nicholl foi buscar na linha de fundo, antes do goleiro Koncilia, e cruzou para Hamilton novamente cabecear, agora com o gol vazio.

Na última partida do grupo, em 4 de julho, os irlandeses tinham chance de classificação em caso de vitória simples, mas do outro lado estava uma França que finalmente desencantaria naquele Mundial. Só depois de os Bleus abrirem 3 a 0, com gols de Giresse e Rocheteau (dois), viria o tento de honra dos britânicos: Whiteside gingou na frente de Amoros na ponta esquerda e cruzou. O goleiro Ettori pegou e largou, Hamilton não alcançou, mas Armstrong, o artilheiro da seleção no torneio, encheu o pé para descontar.

irlanda do norte x frança - copa 82

O baixinho Giresse ainda marcaria de cabeça para fechar o placar em 4 a 1, mas nem mesmo a goleada na despedida arranhou a boa impressão da Irlanda do Norte naquela Copa – ainda que a eliminação tivesse vindo para o mesmo adversário, com o mesmo número de gols sofridos e numa fase equivalente às quartas de final de 1958. Os comandados de Billy Bingham fizeram história na Espanha da mesma maneira que ele próprio e seus companheiros jogadores haviam feito na Suécia.

Quase lá: As eliminatórias para a Euro 1984

Após a ótima campanha no Mundial, os norte-irlandeses voltariam suas atenções para as Eliminatórias da Eurocopa de 1984, mas já sabendo de antemão que suas chances eram remotas: naquele Grupo 6, em que só uma seleção se classificaria, tinham a temível companhia da Alemanha Ocidental, vice-campeã na Espanha e então detentora do título europeu, além de reencontrarem a Áustria, após aquele 2 a 2 em Madri. Turquia e Albânia completavam o grupo, cotadas para nada mais que surpreender em casa os outros três concorrentes e tirar deles pontos importantes na briga.

VEJA TAMBÉM: Há 30 anos, o Everton faturava sua última liga e encerrava período de grandes glórias

Para complicar ainda mais, os austríacos largaram muito bem, com três vitórias em Viena, fazendo o dever de casa contra a Albânia (5 a 0), a própria Irlanda do Norte (2 a 0, com dois gols de Walter Schachner) e a Turquia (4 a 0). Sobrou para o time de Billy Bingham tentar a recuperação recebendo a Alemanha Ocidental no Windsor Park, em 17 de novembro de 1982, numa noite de chuva intensa, vento forte e campo pesado. Depois de terem uma boa chance num chute de Whiteside que assustou Schumacher, os britânicos abriram o placar aos 11 minutos, numa jogada do ponta-esquerda Ian Stewart, que dançou na frente de Kaltz e bateu forte e cruzado de pé direito, da entrada da área, bem no canto do arqueiro alemão.

Mais tarde, Jim Platt precisou mostrar serviço espalmando um chute de Littbarski, e Briegel ficou no quase em uma cabeçada. Do outro lado, Schumacher também teve de ir buscar uma bomba de Mal Donaghy, quase da intermediária, e um tiro cruzado rasteiro de Noel Brotherston. No fim do jogo, quando os alemães já partiam para uma pressão mais intensa, Littbarski teve um gol corretamente anulado por impedimento e Platt outra vez apareceu bem defendendo um chute de Kaltz. Ao apito final, a torcida da casa explodiu em euforia e comemoração ruidosa: era a primeira vitória de sua seleção sobre os germânicos na história.

Na partida seguinte, porém, tudo se inverteu quando o time precisou de um bocado de sorte para segurar um empate sem gols diante da Albânia em Tirana. Quando os jogos retornaram a partir de março do ano seguinte, após a pausa de inverno, a Irlanda do Norte reagiu com três vitórias seguidas em Belfast. Primeiro bateram a Turquia por 2 a 1, num jogo mais fácil do que o placar indica: com menos de 20 minutos, já venciam por dois gols de vantagem, depois que Martin O’Neill abriu o placar logo aos cinco em um chute desviado na defesa, e o zagueirão John McClelland aproveitou o rebote de uma cabeçada de Brotherston no travessão aos 17 para ampliar. Os turcos descontaram na etapa final, mas ficaram nisso.

A segunda vitória da série veio em 27 de abril, um apertado 1 a 0 diante de uma Albânia que, após ser goleada pela Áustria na estreia, aos poucos se tornava uma equipe bastante dura de ser batida. O gol foi marcado por Ian Stewart, aparando um chute cruzado de Sammy McIlroy aos nove minutos da etapa final. Com o resultado, os britânicos alcançavam os austríacos na liderança do grupo com sete pontos, mas em um jogo a mais, enquanto os alemães vinham logo atrás com cinco.

Em junho, a Áustria retomou a liderança isolada ao bater a Albânia em Tirana por 2 a 1. O que conferiu para os norte-irlandeses um caráter ainda mais decisivo à partida diante dos austríacos em Belfast, marcada para 21 de setembro. Com Pat Jennings completando seu centésimo jogo defendendo a seleção, o time de Billy Bingham realizou uma exibição histórica, em meio a uma atmosfera espetacular no Windsor Park. Apertou os visitantes desde os primeiros minutos com um jogo veloz, aguerrido e de muita presença de área. Teve uma chance salva em cima da linha e obrigou Koncilia a fazer alguns milagres (e contar com a sorte em outros lances).

Até abrir o placar, aos 28 minutos, com Billy Hamilton concluindo na raça um bate e rebate na pequena área, após cobrança de escanteio. Logo depois, Jennings mostrou que estava com a elasticidade em dia, ao defender uma cobrança de falta de Heribert Weber. Na etapa final, o zagueiro austríaco Kienast cometeu um erro fatal aos 22 minutos, chutando em cima de Whiteside quando tentava uma inversão na saída de bola. O garoto prodígio irlandês não perdoou. Apanhou a bola e, cara a cara com o goleiro Koncilia, tocou para as redes.

Mas ainda haveria momentos de tensão no fim: aos 38, Gasselich completou, sozinho na pequena área, um cruzamento de Willfurth e descontou. Minutos depois, a Áustria quase chegaria ao empate, evitado graças a Jennings, antes de McClelland completar afastando na pequena área. Mas a Irlanda do Norte sairia do sufoco e garantiria a vitória aos 44, resgatada por uma bomba de falta do capitão Martin O’Neill, que entrou bem no canto do gol de Koncilia. Após o encerramento, Jennings seria saudado pela torcida, completando uma noite memorável em Belfast.

Um novo anticlímax veio no jogo seguinte, três semanas depois, contra a Turquia em Ancara. Os donos da casa, que só haviam vencido uma partida (Albânia, em casa) em seus últimos 16 jogos internacionais, abriram o placar logo no começo, com um gol de cabeça de Fatih Terim. A Irlanda do Norte acertou a trave numa cobrança de falta de Martin O’Neill, o travessão num chute de fora da área de Ian Stewart e perdeu ainda pelo menos duas chances claras na pequena área com Billy Hamilton e, de novo, Martin O’Neill. Deixou dois pontos preciosos na capital turca, especialmente em vista do que viria a seguir: o confronto com uma renascida Alemanha Ocidental em Hamburgo.

Quando o confronto chegou, em 16 de novembro, alemães, austríacos e norte-irlandeses estavam empatados na liderança do grupo com nove pontos, mas os germânicos ainda fariam mais uma partida depois daquela rodada, que também marcava a visita da Áustria (encerrando sua participação) à Turquia. Para o time de Billy Bingham, era jogo de vida ou morte. E havia os desfalques importantes de John O’Neill na zaga (substituído pelo estreante Gerry McElhinney, do Bolton) e de Sammy McIlroy no meio-campo (jogaria o quase estreante Paul Ramsey, do Leicester).

Mesmo assim, a defesa britânica se comportou muito bem no primeiro tempo, especialmente Pat Jennings, demonstrando segurança e tranquilidade excepcionais ao defender um chute de longe de Norbert Meier e uma cabeçada de Herbert Waas. Na etapa final, a Irlanda do Norte começou a assustar mais e logo chegou ao gol. Ian Stewart desceu em velocidade numa grande jogada individual pela ponta esquerda, chutou e Schumacher rebateu para fora da área. Ramsey apanhou a sobra e bateu para o gol, mas no meio do caminho a bola encontrou Whiteside, que finalizou cara a cara com o goleiro, inapelável.

Todo o restante do segundo tempo foi de pressão dos alemães, com a defesa britânica rebatendo como podia e Jennings fazendo defesas gigantescas quando acionado. E mesmo quando ele pareceu batido, perto do fim do jogo, surgiu McElhinney salvando a finalização de Waas em cima da linha. Os irlandeses ainda desperdiçaram uma chance de matar o jogo em contra-ataque com Billy Hamilton, mas o placar acabou sendo o suficiente para uma vitória eternizada na história do futebol do país.

Ironicamente, a Alemanha ainda tinha grandes chances de classificação, por ter o melhor saldo de gols. Já que a Áustria também havia perdido para a Turquia, bastava uma vitória simples diante da Albânia em Saarbrucken para carimbar o passaporte para a França. Aos irlandeses, restava agarrar-se às esperanças de um resultado bem pouco provável – empate ou vitória dos albaneses.

Só que os sinais começaram bastante favoráveis à Irlanda do Norte quando Tomori surpreendentemente abriu o placar para a Albânia, aos 22 minutos de jogo. Os alemães reagiram e empataram logo no minuto seguinte, com Rummenigge. Mas a brava defesa albanesa resistia o quanto podia por boa parte do jogo. Só não foi possível impedir a cabeçada do zagueiro Gerd Strack, a dez minutos do fim, dando a vitória e a classificação dramática aos germânicos, no saldo de gols.

Outro título derradeiro no Campeonato Britânico

campeã britânica 1984 - elenco

Se não conquistou a vaga na fase final da Eurocopa – o que só aconteceria pela primeira vez em 2016 – a seleção da Irlanda do Norte teve como consolo uma nova campanha vitoriosa no Campeonato Britânico. A edição, que marcava os 100 anos da competição, acabou sendo a última, já que ingleses e escoceses decidiram não participar mais por três motivos básicos: o calendário hiperlotado, o desinteresse pelo torneio e os então agravados problemas com o hooliganismo.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias do Brighton na outra vez em que o clube frequentou a elite inglesa

Aquela edição teve início ainda em dezembro de 1983, com a vitória da Irlanda do Norte sobre a Escócia por 2 a 0 no Windsor Park, com gols de Whiteside e McIlroy. Os escoceses se reabilitaram batendo Gales por 2 a 1 em Glasgow no segundo jogo, em fevereiro de 1984. A Inglaterra só estreou em abril, derrotando a Irlanda do Norte em Wembley por 1 a 0, gol de Tony Woodcock, mas sua derrota para os galeses quase um mês depois (1 a 0 em Wrexham, gol de Mark Hughes) embolou completamente a classificação.

Com as quatro seleções registrando uma vitória e uma derrota cada, elas foram para a última rodada com os jogos separados por quatro dias: em 22 de maio, Gales recebia a Irlanda do Norte no Vetch Field, em Swansea, enquanto no dia 26 Escócia e Inglaterra se enfrentariam no Hampden Park. Os galeses abriram o placar com Mark Hughes no início do segundo tempo, mas Gerry Armstrong empatou de cabeça aos 28 minutos, deixando os norte-irlandeses na expectativa por um empate no confronto entre escoceses e ingleses, o resultado necessário para o título.

E ele veio, com dois gols na primeira etapa: Mark McGhee abriu a contagem para a Escócia aos 12 minutos, mas Tony Woodcock igualou aos 35. No segundo tempo, embora as duas equipes pressionassem pela vitória, o resultado permaneceu, entregando de bandeja o título aos irlandeses pelo saldo de gols, critério que só passara a ser adotado no torneio a partir de 1979. Curiosamente, a taça era de posse transitória, mas há mais de 30 anos fica no mesmo lugar: como não houve outra edição do campeonato desde então, ela repousa até hoje na sala de troféus da federação da Irlanda do Norte.

Mais uma vez na Copa do Mundo

Cinco dias depois de conquistar o título britânico, a Irlanda do Norte partiu para tentar repetir o feito de disputar mais uma Copa do Mundo. Incluída no Grupo 3 europeu, valendo duas vagas diretas ao Mundial do México, a seleção teria como principais concorrentes a velha conhecida Inglaterra e a perigosa Romênia, que vinha em ascensão após se classificar para a Eurocopa de 1984. A Turquia voltaria a aparecer pelo caminho, e a Finlândia seria o primeiro adversário, ainda em maio, antes mesmo da disputa do torneio europeu de seleções – como já havia acontecido na estreia na fase classificatória para a Espanha, quatro anos antes.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias que fizeram a temporada 1985/86 especial para o Campeonato Inglês

O início, no entanto, não foi animador: derrota por 1 a 0 para os finlandeses em Pori, com um gol de Ari Valvee no começo da etapa final. A recuperação aconteceria logo no jogo seguinte, o crucial confronto com a Romênia em Belfast. Aos 34 minutos, após um lançamento para a área, Gino Iorgulescu encobriria o próprio goleiro Silviu Lung para abrir o placar a favor dos britânicos. Mas dois minutos depois, Ionel Augustin seria lançado em velocidade, Pat Jennings sairia do gol para interceptar, mas a bola sobraria para Gheorghe Hagi, a grande promessa do futebol romeno, marcar num toque de cobertura, que McElhinney ainda tentaria salvar sobre a linha, sem sucesso.

romênia x irlanda do norte 1985

Na etapa final, os irlandeses voltariam a estar em vantagem quando Whiteside recebeu lançamento na área, no rebote de uma cobrança de falta, e tocou por entre as pernas de Lung para marcar o segundo gol. E o terceiro, aos 29 minutos, seria um golaço: depois do cruzamento pela esquerda, a bola foi aparada de cabeça para a bomba de sem-pulo de Martin O’Neill. Perto do fim do jogo, Ion Geolgau descontou em um rebote de Pat Jennings, fechando o placar em 3 a 2.

Depois de vencer por 3 a 0 um amistoso contra Israel, no qual Billy Bingham lançou vários estreantes, a seleção deu o troco na Finlândia em Belfast, mas com sofrimento, derrotando os escandinavos por 2 a 1 de virada no dia 14 de novembro. Mika Lipponen abriu o placar aos 22 minutos, mas o zagueiro John O’Neill empatou um minuto antes do intervalo em cabeçada após cobrança de escanteio. Na etapa final, Gerry Armstrong marcou de pênalti logo aos seis minutos para garantir os dois pontos. Infelizmente, para os norte-irlandeses, o jogo também seria o último de Martin O’Neill pela seleção: o meia seria forçado a encerrar a carreira por problemas no joelho em fevereiro de 1985, pouco antes de completar 33 anos.

A delighted Northern Ireland goalkeeper Pat Jennings acknowledges the crowd after the World Cup Qualifying match at Wembley Stadium, 13th November 1985. Jennings had played a vital role in the match that ended in a 0-0 draw which ensured Northern Ireland's qualification for the 1986 World Cup Finals. (Photo by Keith Hailey/Popperfoto/Getty Images)

Sem ele, a próxima missão seria tentar conter o ataque da Inglaterra, que vinha de duas goleadas (5 a 0 sobre a Finlândia em Wembley e acachapantes 8 a 0 diante da Turquia em Istambul), na visita dos comandados de Bobby Robson ao Windsor Park. Não seria cumprida com êxito, no entanto: a 13 minutos do fim, Mark Hateley partiu num contra-ataque e bateu rasteiro da entrada da área para marcar o único gol do jogo. Em 1º de maio, a equipe se recuperaria batendo a Turquia em casa por 2 a 0, com dois gols de cabeça de Norman Whiteside, enquanto romenos e ingleses paravam num 0 a 0 em Bucareste.

Quando os irlandeses voltaram a campo, em setembro de 1985, a situação do grupo estava bastante embolada. Dividiam a segunda colocação com Romênia e Finlândia (as três com seis pontos, mas os finlandeses com dois jogos a mais), enquanto a Inglaterra liderava invicta com oito pontos em cinco jogos, e a Turquia segurava a lanterna, perdendo todas as suas quatro partidas. No dia 11 daquele mês, porém, somariam seu primeiro ponto justamente diante da Irlanda do Norte, num 0 a 0 amarrado em Istambul.

No dia 23, a Finlândia encerrou sua participação subindo para o segundo posto ao derrotar a Turquia em Tampere por 1 a 0. Restava à Irlanda do Norte seus dois jogos mais difíceis: primeiro um confronto direto com a Romênia em Bucareste e em seguida a visita à Inglaterra em Wembley. Seria preciso uma boa dose de heroísmo. E ele veio personificado em Pat Jennings. No estádio 23 de Agosto, na capital romena, os norte-irlandeses conquistaram um resultado enorme, vencendo por 1 a 0 a seleção capitaneada por um jovem Gheorghe Hagi (20 anos), graças a um gol marcado pelo atacante Jimmy Quinn (um dos novatos lançados recentemente pelo técnico Billy Bingham), após passe de Sammy McIlroy.

Mas o grande nome do jogo foi o veterano camisa 1, que já contava 40 anos de idade e 22 de seleção, numa carreira que incluía nada menos que seis Eliminatórias de Mundiais. No primeiro tempo, ele já havia salvado um chute forte de Hagi da entrada da área e outra finalização quase à queima-roupa de Dorin Mateut. Já no segundo tempo, quando a partida se transformou praticamente num ataque contra defesa, com os romenos constantemente plantados na área britânica, o goleirão realizou uma sequência impressionante de defesas, contando ainda com o auxílio de seus companheiros de setor – o lateral Jimmy Nicholl salvaria duas chances em cima da linha – para garantir a vitória fundamental.

Na última rodada, a seleção precisaria de pelo menos um empate em Wembley diante dos rivais ingleses – classificados antecipadamente, após golearem a Turquia por 5 a 0 em Londres – para não depender de um tropeço da Romênia, que visitava os turcos em Izmir (e venceria com tranquilidade por 3 a 1). Para isso, contou com outra grande atuação de Jennings, que foi buscar no ângulo um chutaço de Glenn Hoddle no primeiro tempo e espalmou uma cabeçada de Kerry Dixon na etapa final, garantindo o empate sem gols que valeu a vaga em mais uma Copa do Mundo.

A despedida no México

A despedida de Martin O’Neill obrigou Billy Bingham a repensar a estrutura da equipe do meio-campo para o ataque. Durante as Eliminatórias, algumas alternativas foram testadas, até prevalecer a utilizada nos dois últimos jogos, cruciais para a classificação. O 4-4-2 tradicional, cuja única peculiaridade era a presença de meias de lado com características de armadores (caso do próprio O’Neill e de Whiteside), deu lugar a algo semelhante ao 4-2-3-1 muito adotado no futebol atual.

VEJA TAMBÉM: Como o futebol internacional era transmitido para o Brasil antes das TVs a cabo

No meio, o experiente Dave McCreery retornava à titularidade para desempenhar a função de “carregador de piano”, liberando Sammy McIlroy para organizar o setor. Pelos flancos, jogavam dois pontas autênticos: o novato Steve Penney, do Brighton, e Ian Stewart. Na frente, Norman Whiteside era puxado para ser o elemento de ligação entre o meio e o ataque, enquanto a posição de referência de área era disputada pelo veterano Billy Hamilton e os novatos Jimmy Quinn (Blackburn) e Colin Clarke (Bournemouth), este revelado já nos amistosos de preparação. Gerry Armstrong, herói de 1982, mas sem o mesmo gás de antes, virava uma experiente opção de banco.

irlanda do norte - copa 86 camisa branca

A nova formação também ajudou a fortalecer a defesa. A Irlanda do Norte ficou seis partidas seguidas sem sofrer gols, quatro delas pelas Eliminatórias (entre elas, os jogos contra Romênia e Inglaterra fora de casa), além de dois amistosos de peso, contra a Espanha em Palma de Mallorca e a França no Parque dos Príncipes, em Paris, ambos empatados em 0 a 0. Além da excelente forma de Pat Jennings, outro destaque ficava com o novato Alan McDonald, do Queens Park Rangers, que aparecia bem no miolo de zaga, no lugar de John McClelland.

O sorteio para a Copa de 1986 colocou a seleção num grupo ainda mais difícil do que o de 1982: em Guadalajara, além de enfrentar o Brasil de Telê Santana, a Irlanda do Norte teria ainda uma Espanha seca pela revanche de Valencia e a Argélia, que havia impressionado quatro anos antes. Mas os bons resultados nos amistosos de preparação – além do 0 a 0 com a França em Paris, houve o empate em 1 a 1 em Belfast contra a sensação Dinamarca e uma vitória por 2 a 1 sobre o bom time do Marrocos, também em casa – e a mudança no regulamento do Mundial, que agora permitia a classificação de alguns terceiros colocados, alimentavam a expectativa de outra boa campanha.

E a participação no Mundial mexicano começou muito bem: um gol de falta marcado logo aos cinco minutos de jogo por Norman Whiteside, num tiro forte que desviou na barreira da Argélia, colocou os britânicos no comando das ações. A equipe dominou toda a primeira etapa, especialmente depois que os argelinos perderam seu astro Rabah Madjer, e criaram chances para ampliar a vantagem, mas o segundo gol não veio. O castigo chegou no segundo tempo, quando os africanos se reorganizaram, cresceram na partida e chegaram ao empate também num gol de falta, em jogada ensaiada, marcado por Djamel Zidane.

argelia

O segundo jogo contra a Espanha, em 7 de junho (quatro dias depois da estreia), começaria de modo oposto. Logo no primeiro minuto, um passe magistral do meia Michel encontraria o atacante Emilio Butragueño na entrada da área para abrir o placar para os ibéricos. E aos 18 minutos, numa falha grotesca da defesa pelo lado direito, o mesmo Butragueño tomou a bola e serviu o centroavante Julio Salinas, que atirou forte da meia-lua para vencer Jennings e marcar o segundo gol. Roteiro bem diferente daquele de quatro anos antes.

Mais grotesco ainda seria o lance do gol norte-irlandês, no começo da etapa final: o goleiro Zubizarreta rebateu mal uma bola vadia e ainda escorregou ao receber o recuo de cabeça igualmente mal feito pelo líbero Ricardo Gallego. Colin Clarke, que acompanhava o lance, aproveitou a pixotada dupla e descontou. A Irlanda do Norte cresceu no jogo em busca do empate, mas os espanhóis assustavam no contragolpe e tiveram até a chance de ampliar o placar. A derrota colocava os britânicos na difícil obrigação de conseguirem pelo menos um empate contra o Brasil, na última rodada, para tentar a vaga nas oitavas como um dos melhores terceiros colocados.

Buscando pontuar, Billy Bingham fechou um pouco mais o time, recuando de vez Whiteside para o meio-campo, formando um 4-5-1. A defesa foi mantida como a dos jogos anteriores, com Jimmy Nicholl e Mal Donaghy nas laterais, Alan McDonald e John O’Neill no miolo de zaga, Dave McCreery na contenção e Sammy McIlroy na organização do meio-campo. Colin Clarke, que havia ganhado a posição de Billy Hamilton no comando do ataque após o jogo contra a Argélia, também continuava entre os titulares. Mas nas pontas, David Campbell, do Nottingham Forest, substituía Steve Penney pela direita, enquanto Ian Stewart retomava a posição perdida antes da estreia para o polivalente Nigel Worthington, do Sheffield Wednesday, do lado esquerdo.

Muito presa em seu próprio campo, a Irlanda do Norte acabou enredada por uma seleção brasileira que fez sua melhor partida naquela primeira fase. Criou algumas boas chances (uma cabeçada de Whiteside, um chute de Donaghy que desviou em Júlio César, uma bomba de McIlroy da entrada da área), mas o Brasil dominou a partida do começo ao fim, abrindo o placar logo aos 15 minutos, quando Careca arrematou com violência um cruzamento de Müller pela direita.

Pat Jennings, que comemorava seu 41º aniversário naquele dia, brilhou em vários lances durante a partida: um chute de Müller, outro de Branco e uma finalização cara a cara de Junior no primeiro tempo, um voleio de Careca, um chute rasteiro e outro pelo alto em dois lances seguidos de Casagrande e outra chance cara a cara com Branco na etapa final. Mas não pôde deter o improvável petardo de longa distância de Josimar, aos 42 minutos de jogo, nem o chute de Careca, após magistral tabelinha com Zico devolvendo de calcanhar para o centroavante, fechando o placar a três minutos do fim.

O fim de uma era

A eliminação na Copa de 1986 significou a despedida – até agora – da Irlanda do Norte dos Mundiais e também o fim da linha para uma geração inteira na seleção. Além de Pat Jennings, o lateral Jimmy Nicholl, o zagueiro John O’Neill e os atacantes Gerry Armstrong e Billy Hamilton também se retiraram ali. Pouco tempo depois seria a vez dos meias Sammy McIlroy e Ian Stewart.

VEJA TAMBÉM: Os 80 anos de Roberto Pinto, o sobrinho de Jair, um dos meias mais refinados de sua época

Norman Whiteside, o jovem talento talhado para comandar a equipe dentro de campo em busca de novos momentos de brilho internacional, começou a sofrer com problemas crônicos de joelho e também com o alcoolismo, além de rumorosos desentendimentos com o novo técnico do Manchester United, Alex Ferguson. Vestiria a camisa da seleção pela última vez em 1989 e encerraria a carreira dois anos depois, tão precoce quanto começara, apenas aos 26 anos.

Billy Bingham ainda continuaria por um bom tempo no cargo de treinador da seleção. Mas sofrendo com a ausência de vários veteranos experientes e aparentemente insubstituíveis – fazia falta, principalmente, um goleiro confiável para o lugar de Pat Jennings –, não conseguiria repetir as campanhas históricas do começo da década. Nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1988, o time somaria apenas três pontos e marcaria só dois gols nas seis partidas contra Inglaterra, Iugoslávia e Turquia. Já na fase de classificação para a Copa do Mundo de 1990, só venceria os dois jogos contra a fraca seleção de Malta, terminando atrás de Espanha, Irlanda e Hungria.

A queda brusca de patamar provocaria até resultados vexatórios, como o empate de 1 a 1 em Belfast com a novata seleção das Ilhas Faroe, pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1992. Mas Bingham seguiria como treinador até o fim de 1993, encerrando sua passagem de 13 anos após a fase de classificação para o Mundial dos Estados Unidos. Seu último jogo, diante da vizinha República da Irlanda em Belfast, foi cercado de tensão sectária. Mesmo já eliminados, os norte-irlandeses entraram em campo com o claro objetivo de atrapalhar as pretensões dos rivais. Mas também não tiveram sucesso: o empate em 1 a 1, aliado à vitória da Espanha sobre a Dinamarca em Sevilha, classificou a República da Irlanda para o Mundial de 1994.

Billy Bingham foi substituído no cargo por Bryan Hamilton, ex-meia do Ipswich que vinha de dirigir o Wigan, mas ele não obteve sucesso na tentativa de levar a seleção à Eurocopa de 1996 nem à Copa do Mundo de 1998. A partir de então, outros quatro treinadores – entre eles, ex-jogadores daquela geração histórica, como Sammy McIlroy e Nigel Worthington – também fracassaram no intento. Somente em 2016, após cinco anos sob o comando de Michael O’Neill, os norte-irlandeses conseguiram enfim retornar a uma grande competição, disputando pela primeira vez uma Eurocopa, na qual chegaram às oitavas de final.

irlanda do norte 1980-86