Deixar a primeira divisão estadual é difícil a qualquer clube. Mas, em São Paulo, cair para as divisões de acesso costuma ser o inferno na Terra. A Série A-2 não fica devendo a diversas competições espalhadas pelo país. Possui equipes fortes, clubes tradicionais, um aporte financeiro considerável. Porém, a torneira do dinheiro começa a cessar e as perspectivas de participar simultaneamente de competições nacionais se tornam escassas. Pior, o gargalo é fino para retornar a elite. E não são poucas as agremiações históricas que entram em espiral, que passam anos patinando na segundona. Que sentem as consequências das más gestões e se afundam em dívidas. Por incrível que pareça, o caminho à “Bezinha”, a temida quarta divisão, é bem mais curto que a volta à primeira. Pois a Inter de Limeira passou por tudo isso e, 14 anos depois do descenso, passando pela quarta divisão neste período, retorna ao topo do Paulistão. Uma epopeia encerrada de maneira épica, com um acesso digno de sua história.

A Internacional sempre será lembrada por 1986. A campanha fantástica em que o time treinado por Pepe desbancou o Palmeiras na final e se tornou o primeiro clube do interior a conquistar o Campeonato Paulista. Além do grande feito, o Leão da Paulista possui uma história respeitável no futebol nacional, que inclui sete participações no Brasileirão e outras 24 na elite do estadual. A virada do século, porém, logo guardaria suas penúrias ao clube de Limeira. Rebaixado no Paulistão de 2003, retornou já em 2004. O caminho sem volta começaria a partir de 2005, quando novamente a equipe foi degolada. Então, o efeito “bola de neve” começou.

Se os problemas financeiros se arrastavam desde a década de 1990, o descenso agravava o entrave. A Inter convivia com mudanças na gestão, parcerias e terceirizações no futebol. Faltava dinheiro, as dívidas aumentavam. O número de sócios minguou. E as consequências no futebol acabam se tornando óbvias. O time passou três anos na A-2, até rumar à A-3. Em 2009, a segunda queda consecutiva fez o pesadelo da “Bezinha” se tornar realidade. Não seria o primeiro clube tradicional a encarar o desafio. Mas sabia que o caminho era longo, até mesmo pelas questões de econômicas.

O natural é se reformular na quarta divisão paulista, o alicerce do futebol nacional. A própria estrutura da competição exige isso, realizada no segundo semestre e aceitando apenas jogadores sub-23 a partir daquela edição. A Inter não pode reclamar de sua sorte, ao conquistar o acesso de imediato, em uma edição na qual seis equipes foram promovidas. Seu purgatório aconteceu realmente no retorno à Série A-3. Foram infindáveis sete temporadas seguidas na terceira divisão. Após uma campanha de meio de tabela em 2011, a Inter se classificou à fase final nas quatro temporadas seguintes. Em todas elas, não conseguiu terminar entre os dois primeiros colocados de seu quadrangular, deixando escapar o acesso. Uma angústia que seguia paralela à tentativa de botar os pés no chão e manter as contas no azul.

Os jogadores da Inter comemoram o acesso (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)

Em 2016, a Inter temeu seriamente o retorno à Bezinha. Naquele ano, para reformular o número de participantes nas divisões do Paulistão, seis times seriam rebaixados na Série A-3. O Leão flertou com o descenso durante toda a campanha e se safou apenas na última rodada, ao derrotar o Primavera. Terminou dois pontos acima do Z-6. A mudança de ares só começou a tomar forma em 2017. Naquele ano, a equipe fez a segunda melhor campanha na fase de classificação da A-3. Derrotou o Desportivo Brasil no início dos mata-matas e, durante as semifinais, garantiu o acesso diante do Monte Azul. Seria ainda vice-campeã da Copa Federação, garantindo uma vaga na Copa do Brasil de 2018.

Em seu reinício na Série A-2, a Inter fez uma campanha modesta, tentando se readequar à realidade e a enfrentar os desafios de seu orçamento. Terminou no 11° lugar, mais próxima do rebaixamento do que das semifinais. A glória acabou reservada ao Guarani, retornando à primeira divisão depois de cinco anos na segundona estadual. E os desafios ao Leão seriam grandes em 2019. A segunda divisão estadual reuniu alguns clubes de relevo, como a Portuguesa Santista, o XV de Piracicaba, o Juventus, o Santo André, o Taubaté e a Portuguesa. O novo regulamento passou a prever que oito times avançariam aos mata-matas, quatro a mais que no ano anterior. A Internacional foi a sétima na fase de classificação, seguindo em frente. E, apesar do favoritismo da Portuguesa Santista nas quartas de final, a vitória por 2 a 0 no Estádio Major José Levy Sobrinho abriu o caminho, complementada pelo empate por 2 a 2 no litoral.

Por fim, o duelo do acesso guardaria justamente um clássico. A Inter precisaria encarar o XV de Piracicaba, seu rival histórico. Com participações recentes na primeira divisão, os piracicabanos chegavam ao jogo do acesso pelo segundo ano consecutivo, após sucumbirem ao Guarani em 2018. E o primeiro jogo destas semifinais, em Limeira, já foi completamente tenso. Uma chuva pesada determinou o cenário do embate, muito pegado e com poucas chances de gol. Os anfitriões sequer puderam reclamar do empate sem gols. O Nhô Quim acertou a trave uma vez e a arbitragem anulou equivocadamente um gol dos visitantes. Se quisesse a vaga automática, o Leão da Paulista teria que buscar a vitória em Piracicaba. Novo empate forçaria os pênaltis.

Dono da quinta melhor campanha na fase de classificação, o XV tinha o direito de decidir em casa. E uma das missões mais complicadas do interior paulista é encarar o Barão de Serra Negra. Quase 15 mil compareceram às arquibancadas para empurrar o Nhô Quim. Durante o primeiro tempo, os anfitriões foram para cima e abriram o placar com Gilberto Alemão, cobrando falta. Não que a Inter estivesse entregue. O Leão não demorou a dar o troco e, depois de forçar o goleiro Luiz Fernando a realizar grandes defesas, Jean Pablo empatou aos 31. Só que, do outro lado, o XV precisou de um mísero minuto para se refazer do susto. Kadu Barone recolocou o time em vantagem aos 32. A torcida da casa ainda lamentaria não ter feito o terceiro antes do intervalo, com Ronaldo estalando o travessão.

A obrigação durante o segundo tempo seria da Inter. O ritmo da partida diminuiu e a tensão tomou conta da atmosfera, com mais lances pegados dentro de campo. Tentando pressionar, os visitantes ainda se expunham aos contra-ataques e por muito pouco o XV não matou a partida. Um erro fatal, ao deixar o Leão vivo e arcar com as consequências já nos acréscimos. Quando o relógio apontava 46 minutos, Luiz Fernando salvou o chute de Tcharlles, mas ainda assim Élvis aproveitou o rebote e deu o empate à equipe de Limeira. A torcida no Barão de Serra Negra, que já começava a festejar, teria que enfrentar a aflição dos pênaltis. E a disputa na marca da cal ampliou um pouco mais toda a dramaticidade do clássico.

O goleiro Rafael Pin foi herói nos pênaltis (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)

Nas duas primeiras séries de cobranças, dois gols para cada lado. Os goleiros começaram a aparecer na sequência. Rafael Pin defendeu o chute de Bruninho e Luiz Fernando barrou Tcharlles. Depois, novos acertos aos dois rivais. E na quinta cobrança, depois que Cássio Gabriel carimbou o travessão, o rodado França isolou na hora de garantir o acesso da Inter. O erro forçou as alternadas. A sorte do Leão era contar com Rafael Pin. O goleiro se confirmou como herói ao espalmar o chute de Fraga. Por fim, coube a Oliveira confirmar o acesso, garantindo a vitória dos visitantes por 4 a 3 nas penalidades. Na volta para casa, uma multidão saiu às ruas de Limeira para receber os atletas.

Rafael Pin é um personagem especial. O goleiro faz parte do elenco desde 2017 e, mais do que ajudar no acesso da equipe na Série A-3, ele se tornou protagonista na semifinal da Copa Paulista. Contra o mesmo XV de Piracicaba, também nos pênaltis, garantiu a classificação para a decisão e a vaga na Copa do Brasil. Dois anos depois, o filme se repete com um final ainda mais feliz ao Leão. Já no meio-campo, o volante Nata merece menção. Nascido em Limeira, ele fazia parte do time que caiu em 2005. Foi titular em Piracicaba e, substituído durante o segundo tempo, passou o restante do jogo ajoelhado, rezando para que o milagre acontecesse. Deu certo. Entre as figurinhas carimbadas do elenco, há ainda o volante França, capitão da equipe, e o meia Chumbinho, que havia passado os últimos dez anos no futebol europeu.

Já no banco de reservas, a Inter de Limeira dá exemplo pela continuidade. Seu treinador é o experiente João Vallim, de 62 anos. Antes de chegar a Limeira, o veterano já tinha conquistado seis acessos no futebol paulista. Assumiu o time em 2016, evitando a ameaça do rebaixamento à Bezinha, e logo na temporada seguinte conseguiu levar o time de volta à Série A-2. Alcançou a final da Copa Paulista e, respaldado pelo trabalho, foi mantido no cargo mesmo com a campanha mediana em 2018. Confiança que rende seus frutos, completando o ciclo do Leão em sua volta à primeira divisão. Curiosamente, durante a comemoração, o comandante chegou a ser mordido na barriga por um cachorro da polícia militar. Susto que não atrapalhou o júbilo.

Após 14 anos, a Inter de Limeira terá o gosto de disputar o Paulistão. Se os estaduais valem pouco aos “grandes”, eles ainda podem representar demais aos clubes tradicionais do interior. E antes de pensar na próxima temporada, o Leão tem a chance de conquistar o título da Série A-2 – o que dá uma vaga na Copa do Brasil de 2020. Fará uma final de peso contra o Santo André, que superou o Água Santa na outra semifinal e confirmou o retorno à elite um ano depois de seu rebaixamento. As perspectivas são muito boas ao Leão. A primeira divisão do Campeonato Paulista dá novo aporte financeiro e também encurta o caminho à Série D. Com competência e um bom planejamento, é possível recuperar parte da grandeza vivida no passado.