A pausa para a Copa América aconteceu em um momento oportuno ao Cruzeiro. A equipe de Mano Menezes atravessava uma fase claudicante, acumulando nove partidas sem vitórias. Teria algumas semanas para repensar os seus rumos, antes de encarar um jogo pesado contra o Atlético Mineiro nas quartas de final da Copa do Brasil. E, que o Galo também não vivesse uma fase exatamente primorosa, poucos imaginavam uma vitória tão contundente da Raposa. Se os clássicos são naturalmente equilibrados, desta vez os cruzeirenses não tomaram conhecimento de seus rivais. Foi uma atuação impressionantemente eficiente dos celestes no Mineirão. Muito seguros na defesa e precisos no ataque, graças à inspiração de Pedro Rocha, definiram o triunfo por 3 a 0, que aproxima o time das semifinais da competição.

Uma expressão boleira que ficou na moda durante os últimos anos é o tal “saber sofrer”. Segundo o jargão, sabe sofrer a equipe que fica se resguardando na defesa e aguarda o momento certo para atacar, garantindo a vitória simples. Os times de Mano Menezes são, por essência, sábios em sofrer. E quem mais sofre é a torcida cruzeirense, com um elenco que tem potencial para impor o seu jogo, mas que tantas vezes acaba se limitando ao pragmatismo. O clássico desta quinta, porém, não trouxe um pingo de sofrimento à Raposa. A postura defensiva da equipe, na verdade, gerou conforto pela maneira como anulou o Atlético. Se não foi uma atuação vistosa dos celestes, ela guardou o mais puro deleite pelos belos gols e pela forma como os vencedores puniram os erros dos rivais.

Mano Menezes foi muito inteligente em sua formação. O Cruzeiro entrou em campo sem Fred, mas com um time mais leve. Não havia necessariamente um homem de referência, com Pedro Rocha e Thiago Neves flutuando diante das linhas de quatro. O Atlético, uma equipe que geralmente explora a velocidade, não funcionou contra a marcação recuada dos cruzeirenses. Até mesmo os jogadores ofensivos celestes fecharam muito bem os espaços. E o talento individual pesou para decidir, explorando as falhas alvinegras.

Os primeiros minutos do jogo foram mais estudados. O Atlético Mineiro tentou se impor no campo de ataque, mas o duelo permanecia travado. E o cenário se abriria à vontade do Cruzeiro aos 12 minutos, graças ao gol espetacular de Pedro Rocha. No primeiro lance de perigo do time, o atacante abriu espaço na intermediária e resolveu soltar o pé. Acertou um chute fantástico, que encobriu Victor e caiu fatalmente no alto da meta. Um senhor golaço, anotado pelo antigo carrasco atleticano na final da Copa do Brasil de 2016.

O Atlético Mineiro seguia postado mais à frente e tocava a bola, aguardando uma brecha. O Cruzeiro se defendia à perfeição, embora não encaixasse seus ataques. Tentava a ligação direta e teve uma falta frontal com Thiago Neves, sem grande sucesso. O placar seria ampliado aos 25, entre o erro do Galo e a esperteza da Raposa. Quando Réver deu um péssimo passe a José Welison, Pedro Rocha se antecipou para bater a carteira. Tinha o campo aberto. Então, o atacante apresentou vários predicados. Avançou em velocidade, teve calma para encarar Victor, driblou o goleiro e, ao perceber a chegada de Thiago Neves no meio da área, apenas rolou ao companheiro. Com a meta vazia, o veterano não perdoou. Mas os méritos eram mesmo da jogadaça de Pedro Rocha.

Diante da diferença no placar, o Atlético mal dava sinais de reação. Sua criação não existia e o time sequer conseguia arriscar chutes de longe. Alerrandro, o escolhido para comandar o ataque, estava isolado demais e não contava com a aproximação dos companheiros. Cazares pouco aparecia. E o Cruzeiro fez uma atuação aplicadíssima em relação à cartilha de Mano Menezes. Não passou qualquer apuro, bloqueou os espaços e atacou os erros. Thiago Neves ainda daria mais um susto antes do intervalo, após uma saída de bola errada de Victor.

O Atlético voltou com Otero para o segundo tempo, no lugar de Luan. Os alvinegros recomeçaram o jogo tentando espremer o Cruzeiro. Mas a Raposa seguia muito confiante em suas qualidades. E veria o caminho ainda mais aberto aos nove minutos, quando Robinho anotou o terceiro gol. Marquinhos Gabriel roubou a bola de Elias no campo de ataque e acionou o meia. Após cortar a marcação, o primeiro chute de direita foi bloqueado no meio do caminho. Não teve problema. A sobra ficou com o próprio Robinho e, com Victor caído, ele esbanjou categoria. Matou no peito e mandou no outro canto, de canhota. Qualidade pura que contrastava com o semblante perdido do arqueiro atleticano.

O Atlético precisava de um gol para diminuir a dificuldade no jogo de volta. Os lances de perigo começaram a acontecer, entre cruzamentos e chutes de média distância. Mas nada que ameaçasse Fábio tanto assim. Que fosse um time superior ao primeiro tempo, o Galo seguia distante de competir com a firmeza do Cruzeiro. Mesmo nas bolas alçadas, a defesa manteve a segurança. E, depois da entrada de Fred, houve até a impressão de que os cruzeirenses poderiam anotar o quarto se não fossem tão displicentes nos contragolpes. O placar, de qualquer maneira, já estava de bom tamanho. Rendeu uma vitória saborosa à torcida celeste e até mesmo gritos de “olé” nas arquibancadas do Mineirão.

Resta o jogo de volta ao Atlético. Mesmo assim, parece muito difícil que o Galo consiga tirar tamanha diferença, seja pela maneira como Mano Menezes posta o seu time, seja pela qualidade individual que o Cruzeiro tem à sua disposição. Neste primeiro clássico, tudo conspirou a favor da Raposa. Foi um resultado especialmente saboroso, a um time que atingiu o ponto máximo de sua eficiência e puniu duramente os deslizes dos rivais.