O filme se repete. Como uma série de terror que não tem fim, o Flamengo viverá sua “Hora do Pesadelo V” na rodada final da fase de grupos da Copa Libertadores. Pela quinta vez desde 2010, o clube chegará ao último compromisso precisando decidir sua classificação. E espera não repetir o desfecho frustrante das três últimas oportunidades em que isso aconteceu, ficando pelo caminho. Os rubro-negros poderiam ter fugido do suspense derradeiro. Para tanto, precisavam apenas arrancar um empate contra a LDU Quito no Estádio Casa Blanca. O “apenas”, porém, se torna uma palavra fora de contexto diante da atuação paupérrima do time de Abel Braga. Com uma dose de sorte os flamenguistas saíram à frente no placar, mas a virada se tornou inescapável com tamanha inoperância. Ao final, a vitória dos Albos por 2 a 1 os mantêm no páreo e joga o Fla em uma fogueira ardente, precisando definir seu destino contra o Peñarol em Montevidéu. O cenário aterrorizante para ser rodado o novo longa de 90 minutos.

Desde os primeiros minutos no Equador, o Flamengo soube que teria uma partida difícil pela frente. A LDU dominava a posse de bola e empurrava os rubro-negros contra o seu campo de defesa. Os equatorianos impuseram uma pressão constante, ainda que a defesa carioca conseguisse se safar, diante dos cruzamentos e da falta de acerto dos Albos. E o Fla nem pode reclamar da sorte. Mesmo que o time não fizesse muito no ataque, conseguiu encontrar as redes logo em sua primeira oportunidade. Aos 18 minutos, Bruno Henrique abriu o placar. Cruzamento de Pará na direita, encontrando o atacante livre no meio da área. A cabeçada ainda bateu no braço do flamenguista, mas nada que alterasse a decisão da arbitragem.

Não demorou para a LDU responder e começar a expor os problemas defensivos do Flamengo. Os espaços passaram a surgir. Aos 22 minutos, os Albos tiveram uma chance imensa de arrancar o empate e desperdiçaram. Jhojan Julio recebeu uma bola limpa na marca do pênalti, mas exagerou na força e mandou longe da meta de Diego Alves. Diante da desvantagem, os equatorianos partiam para cima. Restava apenas acertar a conclusão das jogadas. Mais uma vez, o time de Abel Braga demonstrava sua debilidade, enclausurado demais na defesa e com dificuldades em manter a bola no pé. Pouquíssimo, a um elenco tão caro e individualmente superior aos oponentes.

Os avisos da LDU eram frequentes. José Quintero apareceu duas vezes no ataque, sem sucesso. Aos 31, exigiu uma ótima defesa de Diego Alves em chute de longe, antes de cabecear uma bola por cima do travessão. O Flamengo ainda daria uma resposta nos minutos anteriores ao intervalo, próximo do segundo gol. Bruno Henrique recebeu em boas condições, mas bateu em cima do goleiro Adrián Gabbarini. Depois, seria Éverton Ribeiro a ficar no quase, em arremate da entrada da área que resvalou no pé da trave. Foi um breve respiro, mentiroso em relação ao que foi o primeiro tempo. E que gerou uma acomodação fatal nos acréscimos. Aos 47, aconteceu o empate. Carlos Rodríguez lançou de muito longe, a defesa rubro-negra assistiu e Juan Anangonó ficou de frente para o gol. Não titubeou contra Diego Alves, que demorou a sair, mandando por baixo do goleiro. Um placar bem mais justo, diante do que ocorrera na etapa inicial.

Abel Braga mudou o time para o segundo tempo. Diego entrou no lugar de Arrascaeta, para (teoricamente) melhorar a saída de bola e o toque de bola da equipe. De fato, o Flamengo se posicionou um pouco mais à frente por um par de minutos. Não que isso tenha rendido tanto. O setor ofensivo parecia desconectado, em especial Gabigol, deslocado pela direita. E, com o passar dos minutos, a altitude de Quito começou a cobrar seu preço. A LDU continuava sendo mais perigosa, confiando no jogo aéreo e no vigor físico. Ao menos os rubro-negros iam adiando o baque, especialmente pela atuação de Cuéllar, se desdobrando na cabeça de área. Era o exército de um homem só.

Um salseiro na área, por fim, determinaria a angústia do Flamengo. A virada da LDU se consumou aos 27 minutos. Os equatorianos tentaram de todas as formas e o desespero era visível entre os rubro-negros para afastar o perigo. Não deu quando Luis Chicaiza soltou uma pancada da entrada da área. Diego Alves, que havia saído mal instantes antes, parecia desatento e aceitou o chute no centro da meta, embora atrapalhado pelo congestionamento à sua frente. Aí, mesmo sem o Maracanã para pesar sobre a cabeça, o Fla precisou lidar com sua costumeira agonia em Libertadores. Faltava oxigênio não só para correr, como também para pensar.

O Flamengo tentou buscar o empate nos minutos finais, na base da correria. Até conseguiu encaixar alguns ataques rápidos, mas pecou demais nas finalizações. Bruno Henrique e Vitinho consagraram o goleiro Gabbarini, sem dificultar ao argentino nos arremates. Pior, Abel Braga precisou queimar sua última substituição colocando César no lugar de Diego Alves, que se lesionou. Nos instantes finais, a LDU teve duas enormes oportunidades de sacramentar o resultado e falhou. Nada que ameaçasse seu resultado, diante da incipiência dos rubro-negros. O ranger de dentes até levou César a tentar uma cabeçada no ataque. Pouco a um time que jogou nada.

A situação do Flamengo é bastante perigosa. O time lidera o grupo com nove pontos, mas precisará disputar uma decisão em Montevidéu. O Peñarol tem os mesmos nove pontos e também busca confirmar a classificação, após ser derrotado pelo San José nesta quarta. Será um jogo muito tenso, no qual o empate ao menos beneficia os rubro-negros. A LDU, por sua vez, segue no páreo. Soma sete pontos e pegará o eliminado San José na rodada final, no próprio Estádio Casa Blanca. Certamente será uma disputa alucinante. Disputa esta na qual os flamenguistas esperavam não se inserir, mas terão que se submeter outra vez, trazendo à tona seu histórico de pesadelos na Libertadores.