Nos jogos deste domingo pela 26ª rodada do Campeonato Brasileiro, os jogos foram precedidos de um minuto de silêncio. Como em tantas outras vezes, o nome do pranteado ficou esquecido – e quando não ficou esquecido, a informação passou em branco. Neste caso, não deveria. Porque o jornalista mineiro Marcos de Castro, falecido neste domingo aos 84 anos, no Rio de Janeiro, foi responsável por um livro que todo amante brasileiro de futebol (e do futebol brasileiro) deveria conhecer – além de ter aberto no jornalismo caminho seguido por dois filhos.

Marcos começou a carreira em 1958. E nem esteve tão ligado assim ao futebol em toda a duração dela, com passagens por incontáveis veículos (de jornais – Jornal do BrasilJornal da TardeO GloboO Dia – a revistas – Veja, Realidade, Veja Rio -, passando pelo projeto da Enciclopédia Bloch e pela TV Globo). Uns o conheciam mais pela devotada atenção ao uso da Língua Portuguesa: erros de jornalistas renderam até um de seus livros, “A imprensa e o caos na ortografia: com um pequeno dicionário de batatadas da imprensa” (Rio de Janeiro, 1998, Editora Record). Outros o acompanhavam pelo trabalho de autor e tradutor de algumas publicações ligadas à religião – aqui se destaca “Dom Hélder: Misticismo e Santidade”, biografia do arcebispo de Olinda, de polêmica atuação ligada ao combate do governo militar.

Todavia, teve três dos momentos mais marcantes de sua trajetória ligados ao futebol. O primeiro deles, em 1963: ganhou o Prêmio Esso de Informação Esportiva – na época, o mais prestigioso laurel da imprensa brasileira ligada a esportes – pela série de reportagens “Futebol: do sonho à realidade”, publicada no Jornal do Brasil, feita em parceria com Dácio de Almeida, abordando toda a trajetória de um jogador de futebol, entre a quimera que o levava às escolinhas e as dores e delícias da realidade do profissional de alto nível. O segundo momento veio já em 1964: mais um Prêmio Esso de Informação Esportiva para ele e a editoria de Esportes do “JB”, graças à alentada cobertura das fases decisivas do Campeonato Carioca daquele ano, vencido pelo Fluminense.

Mas seria em dezembro de 1965 que viria a mais conhecida contribuição de Marcos de Castro ao jornalismo esportivo brasileiro. Junto a João Máximo – colega de “JB”, também testemunha ocular de boa parte dos caminhos e descaminhos futebolísticos, muito respeitado por novatos e tarimbados -, Marcos lançou “Gigantes do Futebol Brasileiro”, publicado naquele ano pela Editora Civilização Brasileira. Havia ali biografias, sucintas e informativas, de 13 craques que o Brasil tinha até aquele momento, de Friedenreich a Pelé. Duas ausências foram criticadas: Ademir de Menezes, lamentada pelos leitores, e Didi, amistosamente criticada por João Saldanha, colega de ambos no Jornal do Brasil: “Dois jovens jornalistas acabam de escrever a história dos maiores jogadores de futebol do Brasil. Pena que não viram Didi jogar”.

De lá para cá, “Gigantes do Futebol Brasileiro” virou item básico na biblioteca de qualquer acompanhante mais regular do futebol brasileiro. Pelo menos, dos sortudos que compraram a primeira edição, rapidamente esgotada. Pelas décadas seguintes, não faltaram pedidos de reedição. Até que uma reflexão rapidíssima deu a Marcos a ideia da reedição, conforme o próprio Marcos citou ao programa “Redação SporTV”, em 2011: “(…) Um dia (…) olhei para a estante e vi o livro envelhecido. Achei que podia merecer uma nova edição. Então, levei para Luciana Villas-Boas, executiva da editora Record, que se entusiasmou pela ideia. Depois, levei o João Máximo e tivemos uma longa conversa. Acertamos novas figuras”.

E em 2011 mesmo, a edição revista e atualizada foi lançada pelos mesmos autores, e pela mesma Civilização Brasileira (àquela altura, e agora, pertencente ao Grupo Editorial Record). Da edição original, caía apenas o perfil de Jair Rosa Pinto, por desacertos com a viúva do atacante. De resto, estavam os outros 12 nomes originais. As omissões de Ademir de Menezes e Didi eram consertadas, com um capítulo para cada um. E os craques brasileiros pós-1965 estavam representados em seis nomes: Gérson, Rivellino, Falcão, Zico, Romário e Ronaldo. Embora a edição de 2011 já não seja mais frequente nas livrarias, ainda é facilmente encontrada nos sebos virtuais da vida.

Por essas reportagens marcantes e pela monumental importância de “Gigantes do Futebol Brasileiro”, sim, Marcos de Castro é um nome que fará falta à imprensa brasileira (não só a esportiva). Pelo menos, dos quatro filhos, seu legado é continuado por dois, ambos jornalistas como o pai. Emanuel Mello Castro, que fez e faz longa carreira dentro do esporte na TV Globo (Emanuel é hoje diretor de projetos para novas mídias na Central Globo de Esportes). E Lúcio de Castro, com passagens por vários jornais, revistas e televisões (com destaque para os comentários no “Bate-Bola”, da ESPN) antes de fundar a própria agência, a Sportlight. Ambos são a primeira mostra da eficiência das lições deixadas por Marcos de Castro.


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