A Volkswagen Arena já presenciava uma goleada histórica àquela altura da partida. Pela 26ª rodada da Bundesliga, o Wolfsburg recebia o Bayern de Munique, em confronto direto pelas primeiras colocações, e dava uma contundente prova de força diante de sua torcida. O placar sinalizava uma impiedosa goleada por 4 a 1, mas os Lobos queriam mais. Os Lobos podiam mais. E o apogeu do time de Felix Magath aconteceu aos 32 do segundo tempo, num instante que se tornou atemporal. Repetido inúmeras vezes ao longo dos últimos dez anos, nunca perdeu sua imensa capacidade de maravilhar quem assiste ao golaço.

Grafite recebeu a bola na ponta esquerda. Era um bom contragolpe ao Wolfsburg, mas o Bayern já se recompunha com quatro jogadores. A partir de então, eis que o artilheiro inicia o lance mais fantástico de sua carreira. Tentando marcar o brasileiro, Andreas Ottl começa a caminhar para trás. Vai ziguezagueando diante da condução do adversário, até recuar para dentro da área. Depois de fazer o defensor trançar as pernas, Grafite foi ainda mais ágil ao dar um corte seco em Christian Lell, que já se aproximava às suas costas. E, de frente para o goleiro Michael Rensing, o matador não se contentou em batê-lo, mas também quis driblá-lo. Pois ali viria o requinte de crueldade. A pincelada que tornou completa a obra de arte.

Grafite tinha a meta aberta à sua frente, mas Breno e Philipp Lahm fechavam o seu caminho. Sua solução? Um toque de calcanhar tão requintado quanto ousado. Afinal, o camisa 23 escolheu um dos movimentos mais inesperados para se executar ali. Ao contrário do que acontece geralmente, o calcanhar bateu na bola à frente do pé de apoio, não atrás. Uma jogada surpreendente, que saiu à perfeição. Breno, Lahm, Ottl: todos foram pegos no contrapé. A bola mansa entrava para acariciar as redes. E o futebol seria um tanto quanto ingrato se aquele gol antológico não rendesse a Salva de Prata ao Wolfsburg semanas depois.

“Nem sabia o que fazer na comemoração! Ajoelhei, agradeci a Deus… Foi um dos gols mais bonitos da história da Bundesliga. Foi marcante”, relembrou Grafite, em entrevista à Trivela. O Wolfsburg ainda dependeria de mais seis vitórias para consumar a conquista do campeonato, outras delas igualmente notáveis. No entanto, é difícil dizer que aquele não foi o gol do título ou que aquela goleada sobre o Bayern não seria a maior da campanha. Há dez anos, os Lobos faturaram seu inédito (e, ainda hoje, único) troféu da Bundesliga. Uma campanha memorável que o artilheiro, eleito o melhor jogador daquela temporada, nos ajudou a reconstruir.

A montagem do elenco

Fundado em 1945, como um clube ligado aos funcionários da Volkswagen, o Wolfsburg ganhou projeção no futebol alemão a partir da década de 1990. Sua estreia na primeira divisão aconteceu em 1997 e, durante os primeiros anos, a empresa chegou a realizar alguns investimentos mais pesados. Andrés D’Alessandro se tornou a maior aposta dos Lobos no começo dos anos 2000, sem causar o impacto esperado em um clube limitado ao meio da tabela. A equipe chegou mesmo a flertar com o rebaixamento entre 2006 e 2007, até que os donos realizassem mudanças mais significativas. Um nome fundamental nesta nova era vinha do Bayern de Munique: Felix Magath.

Apesar de todos os rótulos que Magath costuma carregar, seu talento é inegável. O veterano vinha de um ótimo trabalho com o Bayern, em que teve a missão de substituir o multicampeão Ottmar Hitzfeld. À frente dos bávaros, conquistou duas dobradinhas nacionais e conduziu um processo de renovação que seguiria rendendo frutos na Allianz Arena. O comandante deixou a equipe em janeiro de 2007, seis meses antes de assumir o Wolfsburg. E ganharia superpoderes na Volkswagen Arena. Seria o técnico, como também acumularia o cargo de diretor de futebol.

Com dinheiro em caixa, Magath começou a formar uma nova equipe ao Wolfsburg. Ainda mantinha alguns jogadores que já estavam no grupo, com menção especial a Marcelinho Paraíba, que voltara à Alemanha após o sucesso registrado no Hertha Berlim. Apesar disso, a espinha dorsal do elenco campeão seria formada a partir da temporada 2007/08. Grafite se tornou justamente o negócio mais caro, atraído do Le Mans por €7,5 milhões. Josué era outro brasileiro a se juntar ao plantel, vindo do São Paulo. Mas boa parte dos novatos chegavam de clubes menores do país ou de ligas do Leste Europeu. Entre estes aparecia Edin Dzeko, então com 21 anos, despontando no Teplice e na seleção da Bósnia, assim como o goleiro Diego Benaglio, cria da base do Stuttgart que atuava no Nacional da Ilha da Madeira.

“A partir de 2007, com a chegada do Magath, o time começou um novo projeto para expandir e mostrar que também poderia ser um grande campeão, entrando com o objetivo de também jogar Copa da Uefa e a Champions League”, relembrou Grafite. “O Marcelinho foi superimportante para nós naquele ano, era o principal jogador da equipe e ajudou na minha adaptação e na do Josué ao futebol alemão. Ele foi importante também no aspecto da língua e de ajuda no dia a dia. Além disso, tinha longa história no futebol alemão”.

Logo no primeiro ano sob as ordens de Felix Magath, o Wolfsburg apresentou seu potencial. Apesar das oscilações durante o primeiro turno, pegou embalo na metade final da campanha e arrancou para registrar sua melhor campanha na história da Bundesliga. Com vitórias essenciais sobre Stuttgart e Borussia Dortmund nas duas últimas rodadas, os Lobos alcançaram a quinta colocação, suficiente para se classificarem à Copa da Uefa. Marcelinho Paraíba foi o grande nome naquela temporada. Ainda assim, Grafite já reivindicou seu lugar como artilheiro. Anotou 11 gols no total, contribuindo principalmente na reta final. Foram dois gols e quatro assistências nas últimas cinco partidas.

O goleador, afinal, seguia os passos de outros atacantes brasileiros que se deram bem na Bundesliga. Seu encaixe na competição foi rápido. “O futebol alemão é parecido com meu estilo de jogo, por força física e posição tática. O fato de jogarmos com dois atacantes me beneficiou bastante. Costumávamos treinar um contra um. Lá, treinava bastante para jogar contra um oponente, pois sabíamos que se driblássemos um zagueiro e um defensor, praticamente estava na cara do gol. Ao longo dos anos, fui me adaptando. Já ouvia muito que, como eu sempre levei vantagem pela condição física contra meus adversários, eu me sairia muito bem no futebol alemão”, analisou o brasileiro.

Fato é que, além de contar com a aclimatação de seus novos jogadores, o Wolfsburg investiu ainda mais em seu elenco para a temporada 2008/09. Marcelinho Paraíba se despediu da torcida e resolveu retornar ao Brasil, assinando com o Flamengo. Em compensação, os Lobos foram atrás de reforços pontuais no mercado. Campeões do mundo com a Itália, Andrea Barzagli e Cristian Zaccardo vinham em negócio junto ao Palermo. Rebaixado com o Nuremberg, Zvjezdan Misimovic era outro nome de peso. E, após um ano de empréstimo, os alviverdes asseguraram a compra em definitivo de Christian Gentner, revelado pelo Stuttgart.

Uma base sólida

Uma das marcas do Wolfsburg de Felix Magath foi a qualidade nos diferentes setores. O treinador montou uma equipe balanceada, a partir de uma espinha dorsal formada por jogadores mais experientes. “O nosso diferencial naquele ano foi o coletivo. Éramos uma equipe muito forte. Marcávamos bem. A sintonia no meio-campo também foi fundamental. O time saía forte no contra-ataque”, indica Grafite.

O goleiro Benaglio despontava como ídolo do Wolfsburg, titular da equipe. No miolo de zaga, Andrea Barzagli atuou em todos os minutos da campanha. Seus parceiros se revezavam, com mais espaço a Jan Simunek e Alexander Madlung por ali. Já nas laterais, Sascha Riether e Marcel Schäfer eram jogadores com nível de seleção. E a marcação se reforçava na faixa central, com um trio de volantes geralmente utilizado no 4-3-1-2 de Magath. Josué, Christian Gentner e Makoto Hasebe garantiam a segurança na cabeça de área, além de acelerarem a saída de jogo.

“O sistema defensivo era forte porque todos defendiam e todos atacavam. A sintonia no meio-campo era grande, com Josué, Gentner e Hasebe. Destaco muito o Gentner nessa campanha, ele dava um equilíbrio muito grande à equipe”, ressalta Grafite. “O Barzagli também chegou e logo se impôs. Era outro atleta muito forte, parecido comigo com o empenho, e se destacava também pelo posicionamento, pela força nos jogos, pela liderança no setor defensivo. Foi fundamental na nossa campanha”.

Josué, mais do que peça-chave no meio-campo, também exercia uma liderança ampla em seu segundo ano na Volkswagen Arena. Magath empossou o volante como capitão dos Lobos, o que também beneficiou Grafite: “O Josué era o nosso motorzinho no meio-campo. Dava sustentação ao setor defensivo. O apelido dele em uma rádio era ‘marcador quente’, que chegava forte e tinha condição técnica de sair jogando, de chegar na frente com a bola. O fato de ele ser o capitão da equipe foi muito importante até para mim. Ele era referência no meio-campo”.

De qualquer maneira, o Wolfsburg tinha três ases principais naquela Bundesliga. A parceria entre Dzeko e Grafite costuma ser bastante exaltada. Eram dois atacantes que se combinavam perfeitamente, não só pela presença física mais à frente, mas também pela qualidade técnica acima da média para a posição. Logo atrás, tinham o benefício de contar com um armador excepcional. Misimovic por vezes é esquecido, mas vivia um momento brilhante e foi o grande garçom do time.

Juntos, Grafite e Dzeko anotaram 54 gols naquela campanha. Ambos pareciam se entender por telepatia. Tornaram-se a dupla mais prolífica da história da Bundesliga, superando a marca máxima combinada entre Gerd Müller e Uli Hoeness no esquadrão do Bayern de Munique dos anos 1970. Enquanto isso, Misimovic contribuiu com 20 assistências.

“O Misimovic pode ser citado em todos os aspectos quando falamos daquela temporada, tinha um entrosamento muito grande também”, aponta o veterano. Sobre Dzeko, Grafite avaliou em outra entrevista recente, ao Fox Sports: “O fato de ambos estarem buscando um lugar ao sol no futebol alemão foi fundamental para o nosso sucesso. Eu tinha 28 anos, ele chegou na mesma época, com 20 anos, artilheiro do Campeonato Bósnio. Era um jogador muito jovem que foi crescendo com o passar dos anos, junto com o Wolfsburg. Registramos um número difícil de ser batido por dois atacantes da mesma equipe. Para mim, é uma honra fazer parte da história da Bundesliga, principalmente ao lado dele, porque são números extraordinários que alcançamos”.

O comandante

À beira do campo, Felix Magath representava outro diferencial. O treinador é reconhecido pelo seu gênio forte e por seus regimes fechados, que nem sempre agradam os jogadores. Entretanto, a visão de quem conviveu de perto com o comandante ajuda a quebrar os estereótipos. Na Volkswagen Arena, o veterano chegou ao ápice de sua carreira não apenas por conquistar um título fora das previsões, mas também por ser o mentor daquele time em vários aspectos.

“Trabalhar com Magath foi muito benéfico e muito bom para o time, especialmente para mim. Aprendi muita coisa do estilo de jogo alemão e da cultura alemã. Depois que o conheci, fui pesquisar e estudar mais sobre sua história. Ele é o cara que marcou o gol da vitória no maior título da história do Hamburgo, na Champions League”, ressalta Grafite. Não era qualquer gol, afinal, e sim uma pintura contra a Juventus na decisão de 1983. Além do mais, o antigo meia conquistou a Euro 1980 com a seleção, além de integrar os elencos vice-campeões do mundo em 1982 e 1986. Conhecimento de causa nunca faltou.

“Trabalhar no dia a dia com o Magath não é fácil. Ele valorizava a condição física, treinava bastante a condição técnica, os passes, fundamentos, controle de bola, finalização. Parte física era primordial. Me recordo que chegava em casa e não queria sair, e minha esposa até reclamava. Mas era fundamental para o sucesso que tivemos. A condição física foi vital para conquistar a Bundesliga”, pontua o artilheiro.

Cabe dizer que, assim como aconteceu na sua primeira temporada à frente do Wolfsburg, os resultados do time com Magath evoluíram principalmente durante o segundo turno da Bundesliga. O elenco conseguia chegar à sua melhor forma justamente nos momentos derradeiros da campanha. E poucas equipes foram mais arrasadoras que os Lobos na reta final da temporada 2008/09. A arrancada não só garantiu o título, como também deixou memórias pela voracidade do futebol apresentado.

Grafite, aliás, mantém uma boa relação com o antigo treinador: “Magath sempre foi sincero, sempre se preocupou comigo, e eu gosto muito dele. Recentemente, eu estive na Alemanha e pude ouvir do próprio que fui um dos jogadores mais profissionais que trabalharam com ele, pelo meu empenho. Fui ‘o brasileiro mais alemão que ele conhecia’. Ouvi isso dele, que eu era um jogador sempre motivado, que fazia o melhor para todos. Fico muito feliz pelo reconhecimento dele”.

A arrancada

Não seria de imediato que o Wolfsburg deixou impressões tão boas na Bundesliga 2008/09. O time oscilou bastante durante o primeiro turno da competição. Os Lobos conquistaram apenas duas vitórias durante as primeiras sete rodadas – ainda que tenham anotado 3 a 0 sobre o Hamburgo, então líder da competição, na Volkswagen Arena. Ao longo da primeira metade da campanha, a equipe de Magath se manteve na parte de cima da tabela, mas sem força suficiente para entrar na zona de classificação à Copa da Uefa. Embora o time fizesse o seu dever de casa, com sete vitórias e um empate como mandante, não chegou a vencer um jogo sequer fora – batido inclusive pelo Bayern, por 4 a 2. O Wolfsburg entrou na pausa de inverno ocupando a modesta nona colocação, com 26 pontos, nove a menos que o líder Hoffenheim.

“O primeiro turno realmente não foi muito bom e o time sofreu com algumas lesões. Eu mesmo quebrei um dedo da mão, tive lesão no joelho e uma lesão na cabeça, fiquei dois meses parado. Voltei para o Brasil de férias e o Magath me liberou no mês de dezembro. A equipe ainda estava em construção nessa época. Chegaram os jogadores que não eram titulares e, no segundo turno, conseguimos ter uma sequência”, reconta Grafite.

A estreia no segundo turno não seria tão auspiciosa ao Wolfsburg, que só empatou com o Colônia. Em compensação, o time começou a atropelar seus adversários na sequência. Derrotou Bochum, Eintracht Frankfurt (no primeiro triunfo como visitante) e o Hertha Berlim, que ocupava provisoriamente a primeira colocação. O resultado mais emblemático nesta reação, ainda assim, ocorreu na visita ao Volksparkstadion. Em uma edição equilibrada do campeonato, o Hamburgo era justamente quem tomou a ponta antes de se reencontrar com os Lobos.

Aquele seria um resultado vital não só ao time do Wolfsburg, mas também a Grafite. Voltando de contusão, o artilheiro atuou por apenas 49 minutos. Foi o suficiente para balançar as redes duas vezes, abrindo caminho à vitória por 3 a 1, que contou com um gol de Dzeko. “Mesmo que tenha ficado fora pelas lesões, vi que seria um bom ano para mim. Algumas atuações me deram moral”, afirmou o brasileiro. A partir dali, o camisa 23 acumularia 16 gols e seis assistências, uma marca assombrosa para as 13 rodadas finais.

Impondo-se, o Wolfsburg começou a escalar na tabela. Derrotou o Schalke 04 por 4 a 3, com tripleta de Grafite. O atacante deixou o seu também nos 3 a 0 sobre o Arminia Bielefeld, que assegurou a terceira colocação. Até que chegasse o histórico 4 de abril de 2009 – a tal 26ª rodada, contra o Bayern, na Volkswagen Arena. Os Lobos tinham 48 pontos naquele momento, emparelhados com Bayern e Hamburgo. A liderança estava com o Hertha Berlim, que somava 49. Tudo pareceu conspirar a favor dos alviverdes naquela tarde.

No mesmo horário em que o Hertha Berlim deixava a liderança escapar, derrotado pelo Borussia Dortmund, o Wolfsburg encarava o Bayern. O time de Felix Magath beirou a perfeição. Gentner abriu o placar no final do primeiro tempo, mas Luca Toni conseguiu empatar antes do intervalo. Já no segundo tempo, os Lobos voltaram com sangue nos olhos. Em especial, sua insaciável dupla de ataque. Dzeko anotou dois gols antes dos 21 minutos, apresentando o seu oportunismo. Grafite apareceu para deixar o seu primeiro aos 29, ao se livrar de Breno e chutar cruzado. Mas nada se compara ao golaço que aconteceu três minutos depois. O lance que valerá o reconhecimento ao atacante por muitos e muitos anos entre os alemães. Fechava o passeio dos anfitriões por 5 a 1.

“O jogo contra o Bayern é icônico. É o clássico da nossa campanha. Toda equipe da Alemanha, quando vai jogar contra o Bayern, movimenta toda a cidade. É o maior clube alemão, o campeão, e aquela era a semana do meu aniversário de 30 anos. Foi uma semana diferente. Um jogo memorável. Um marco. A partir daquele momento, assumimos a liderança, e eu, a artilharia”, relembra Grafite. “O Magath sempre nos deixou com os pés no chão. Nunca nos deixou achar que seríamos campeões. Ele falava em terminar bem a competição. A partir desse jogo, tivemos uma sequência de vitórias em casa”.

A consagração

Graças à goleada, o Wolfsburg assumiu a liderança da Bundesliga pelo saldo de gols, com os mesmos 51 pontos que o Hamburgo. E restavam mais oito compromissos, nos quais não poderiam relaxar. As vitórias sobre Borussia Mönchengladbach e Bayer Leverkusen foram seguidas pela derrota contra o Energie Cottbus – que, mesmo ameaçado pelo rebaixamento, rompeu a série de 10 triunfos consecutivos dos alviverdes. A recuperação veio com goleada sobre o Hoffenheim, mas os Lobos voltariam a tropeçar logo depois. Contra um Stuttgart que dava sinais de ascensão, acabaram superados por 4 a 1 na Mercedes-Benz Arena.

Àquela altura, restando mais três partidas, o Wolfsburg sentia o bafo da concorrência no cangote, mesmo mantendo a liderança. Tinha 60 pontos, à frente do Bayern graças a dois gols no saldo. Hertha Berlim (59) e Stuttgart (58) alimentavam suas esperanças. E até Dortmund (55) ou Hamburgo (55) não podiam ser totalmente descartados. Os bávaros, aliás, apostavam no tal “fato novo” para tentar salvar a lavoura. Jürgen Klinsmann chegou ao clube cheio de cartaz após o sucesso na seleção alemã, mas foi demitido a cinco rodadas do fim, após a derrota para o Schalke na Allianz Arena. Seu substituto? Jupp Heynckes, que já parecia aposentado naquele momento.

Dos últimos três compromissos do Wolfsburg, dois aconteciam na Volkswagen Arena. Em seu estádio, o time nutriu o máximo de confiança. “A Volkswagen Arena foi um diferencial. As outras equipes não colocavam muita fé contra nós. Aquele 2009 foi um ano diferenciado. Os adversários se abriam no setor defensivo e davam espaços. Por isso, foi um ano bom também em jogos fora de casa”, afirma o artilheiro. Neste sprint, os Lobos começaram batendo o Dortmund por 3 a 0, mesmo placar que o Bayern aplicou contra o Leverkusen. Já na penúltima rodada, dentro da HDI-Arena, os alviverdes golearam o Hannover 96 por 5 a 0. Dzeko fez três e Grafite mais dois, enquanto o Bayern não passava de um empate contra o Hoffenheim.

Assim, a definição do título ainda iria para a última rodada. Mas, com sete gols de vantagem no saldo e dois pontos à frente, um empate seria praticamente definitivo ao Wolfsburg. De novo, o time não economizou: aplicou 5 a 1 para cima do Werder Bremen. A conquista era incontestável. Grafite, com mais dois gols, chegou aos 28 e também confirmou sua artilharia. Em 23 de maio de 2009, a inédita Salva de Prata era dos alviverdes, provocando uma belíssima festa na Volkswagen Arena.

“Quando nós fomos campeões, a cidade parou. Eram mais de 100 mil pessoas, andamos em carro aberto para celebrar com os torcedores. Estive lá no mês passado, Wolfsburg não mudou nada, os torcedores continuam lá. Fui venerado na celebração dos 10 anos dessa conquista. Fico muito feliz em fazer parte da história do clube e dessa cidade”, conta Grafite. “Depois que saí em 2011, só voltei neste ano, para fazer um documentário sobre a cidade e sobre o título. Foi muito bom. Recebi muito carinho e fiquei muito contente por estar lá novamente. Foi a comemoração do título com os diretores, prefeito, moradores da cidade… Foi maravilhoso”.

O Wolfsburg encerrou a Bundesliga 2008/09 com 69 pontos, dois a mais que o Bayern de Munique. Teve o melhor ataque da competição, com 80 gols, e a terceira melhor defesa, com 41 tentos sofridos. Grafite (28 gols) e Dzeko (26) ocuparam o topo da lista de artilheiros, enquanto Misimovic (20 assistências) foi o melhor garçom. E há um recorde que prevalece: com 16 vitórias e um empate na Volkswagen Arena, aquele time dos Lobos tem o melhor aproveitamento como mandante na história da Bundesliga. Apenas o Schalke de 1971/72 e o Bayern de 1972/73 possuem um desempenho semelhante. Nem mesmo as últimas campanhas dominantes dos bávaros atingiram tal nível.

Imortalizado com o título, o Wolfsburg não manteria a toada na temporada seguinte. Magath aceitou uma proposta do Schalke 04 ainda no início de maio e deixou o clube logo após a conquista. Os Lobos não tiveram o mesmo rendimento sob as ordens de Armin Veh e chegaram a demitir seu treinador em janeiro. Caíram logo na fase de grupos da Champions e terminaram na modesta oitava colocação na Bundesliga, graças a uma arrancada no final. E, diante do risco de rebaixamento em 2010/11, a debandada se intensificou, com a saída de boa parte dos destaques. Grafite seria um desses. O declínio da equipe, no fim das contas, parece ressaltar o tamanho da façanha do Wolfsburg naquela temporada de 2008/09. É um orgulho que ninguém tira do clube e de seus protagonistas, em glória que o tempo sempre tratará de preservar. A excelência daquela caminhada é irrefutável.

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