Enfim, a federação argentina confirmou aquilo que já era prenunciado nos últimos dias: Edgardo Bauza não é mais técnico da seleção. O anúncio saiu da boca de Claudio Tapia, presidente da AFA, nesta segunda. O dirigente se reuniu com o representante do treinador e acertou os trâmites do encerramento do vínculo. Em oito partidas à frente da Albiceleste, Bauza venceu apenas três. Conquistou 11 pontos em 24 possíveis nas Eliminatórias, enquanto sofreu um gol a mais do que marcou. A gota d´água veio na última Data Fifa, com a vitória suada sobre o Chile por 1 a 0 e o baile da Bolívia em La Paz, em triunfo de La Verde por 2 a 0.

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Em nenhum momento Bauza pareceu o técnico certo para assumir a Argentina. Todavia, surgiu como a opção mais razoável entre as escassas após a Copa América Centenário, em meio a uma escolha também com conotações políticas à AFA. Que o seu currículo por clubes tenha grandes títulos, primordialmente as Libertadores erguidas na LDU Quito e no San Lorenzo, a seleção se sugeria como muito areia para o seu caminhão. Não é um treinador com grande inventividade, referendado mais pelo estilo pragmático de seus times, prezando pela força na marcação e pela velocidade nos contra-ataques. Preferiu se agarrar aos seus dogmas do que aproveitar as possibilidades que o elenco oferecia.

Com tantos jogadores talentosos do meio para frente, Bauza fez pouquíssimo. Insistiu em formações ineficientes e em medalhões que não vinham rendendo. Já nas raras vitórias, dependeu demais dos gols e das assistências de Lionel Messi – com participação direta em todos os tentos contra Uruguai, Colômbia e Chile. Na avaliação geral, pesaram muito mais os tropeços: os empates contra Venezuela e Peru, a derrota em casa para o Paraguai, o show do Brasil na visita a Belo Horizonte. A falta de fôlego na visita à Bolívia não foi causada apenas pela altitude, mas também pelo ambiente sufocante.

Porém, seria injusto colocar o insucesso da Argentina apenas nas costas de Bauza. A bagunça é generalizada. A AFA vive um momento dificílimo de disputa política, com a crise interna afetando a própria estrutura – com direito a atrasos salariais e outros problemas graves. O treinador apenas aceitou capitanear a nau sem rumo, após mais uma derrota na final da Copa América e sob a incerteza se Messi retornaria ao elenco, em sua “despedida” fugaz. O time desorganizado e sem fome de bola acabou apenas refletindo a realidade caótica de seu entorno. Pior para o comandante, incapaz de fazer diferente.

Agora, a Argentina vai atrás de um salvador da pátria. Assim como aconteceu depois da Copa América, os favoritos são claros: Diego Simeone e Jorge Sampaoli. Claudio Tapia viajará à Espanha nos próximos dias ao lado de Marcelo Tinelli e, juntos, conversarão com Messi para saber a opinião do capitão sobre o substituto. Ao que tudo indica, também aproveitarão a estadia no país para falar com os treinadores de Atlético de Madrid e Sevilla. Resta saber se mudarão de posição, largando a relativa estabilidade em seus clubes para desarmar a bomba na seleção. Os atrativos não são muito grandes, especialmente diante da suspensão do camisa 10.

Caso ambos recusem a oferta, fica difícil pensar em outro nome forte o suficiente. Entre os treinadores locais, o mais referendado é Marcelo Gallardo. Contudo, o comandante do River Plate já adiantou que não deixará Núñez até o final do ano. E a urgência não permite tanta abertura a um novo técnico em dedicação parcial. Mais do que um homem que solucione os problemas do time, a AFA precisa de uma resposta. De alguém que chegue dando uma injeção de ânimo à Albiceleste, o que claramente faltou em boa parte de suas exibições sob as ordens de Bauza.

Neste momento, filosofia de jogo é o que menos importa. Pensar nas discrepâncias de métodos entre Sampaoli e Simeone, ou qualquer outro que se aponte para o cargo, tem pouca validade. A necessidade é trazer alguém bom o suficiente para fazer o time capengando nas Eliminatórias se classificar à Copa do Mundo. Por isso mesmo, a excelência dos dois principais nomes está à frente de suas ideias na avaliação da AFA. Se nenhum deles vier, talvez os próprios jogadores precisem mexer com seus brios. Qualidade não falta, embora organização coletiva também seja fundamental. O Brasil de Tite (e de Felipão, rumo a 2002) serve de exemplo.