Por Leandro Stein

Quando o Real Madrid segurou o empate contra o Borussia Dortmund e confirmou a classificação à final de Liga dos Campeões de 1997/98, sua primeira decisão em 17 anos, uma caixa de champanhe esperava os merengues no vestiário do Westfalenstadion. O presente havia sido deixado ali por um representante da Uefa, para que comemorassem o feito. Ao se deparar com a cortesia luxuosa, Fernando Hierro não teve dúvidas: chutou a caixa. Com um rompante de fúria, dispensou qualquer sensação de missão cumprida. Um dos líderes do elenco escancarava a todos os companheiros que o objetivo era maior. A honra estava em erguer La Séptima, a taça que os madridistas perseguiram por 32 anos. E que, enfim, veio na decisão diante da Juventus, com o inigualável gol de Mijatovic. Aí sim, se esbaldaram em champanhe – gentileza oferecida por Marcello Lippi aos seus adversários.

VEJA TAMBÉM: O Atlético até esboçou o milagre, mas não deu: o Real Madrid está na final pela 15ª vez

O Real Madrid conquistou o seu sexto título na antiga Copa dos Campeões em 1966. A geração do pentacampeonato europeu tinha ficado para trás. O capitão Paco Gento era o único remanescente, presente também no penta nacional, que marcou a renovação do elenco, sem mais lendas como Di Stéfano e Puskás. Ainda sob as ordens de Miguel Múñoz, que substituíra Manuel Fleitas Solich de supetão na reta final do título de 1960 e se firmou como um dos maiores técnicos da história merengue, os espanhóis derrotaram o Partizan Belgrado na decisão em Bruxelas. Desde então, uma longa seca atingiu o Bernabéu. Foram 15 campanhas no torneio continental sem que o sucesso tão costumeiro em Chamartín se repetisse.

No final da década de 1960, o Real Madrid chegou a uma semifinal, eliminado pelo Manchester United em seu primeiro sucesso europeu. Em 1973, seria a vez de sucumbir na mesma fase para outro timaço, o Ajax, no último de seus três títulos seguidos. Filme que se repetiu ainda em 1976, durante o tricampeonato do Bayern de Munique. A semifinal parecia uma barreira intransponível quando o timaço do Hamburgo foi o algoz em 1980, até que os merengues finalmente a superassem na temporada seguinte. Passaram pela Internazionale, mas não pelo poderoso Liverpool, na decisão em Paris. E o gosto amargo persistiria em cada uma das cinco campanhas com a famosa Quinta del Buitre, pentacampeã espanhola. Inclusive, caíram três vezes consecutivas nas semifinais – para Bayern, PSV e Milan, com direito a goleada dos rossoneri por 5 a 0 em 1989.

E a sede do Real Madrid por sua grande obsessão aumentou no início da década de 1990. Foram quatro edições de ausência, vendo o Barcelona ganhar projeção continental com o seu primeiro título. O Milan, por sua vez, atingia a quinta conquista, só uma a menos que os madrilenos. Assim, a cobrança se tornou ainda maior. O que não surtiu efeito em 1995/96. Apesar da classificação em seu grupo, os merengues caíram nas quartas de final. O carrasco? Justamente a Juventus, que caminharia dali para a glória, se estabelecendo como uma potência continental.

septima2

Diante do cenário, o Real Madrid voltou à Champions em 1997/98 com sangue nos olhos. A diretoria investiu bastante e trouxe reforços de peso a partir de 1996. Predrag Mijatovic, Clarence Seedorf, Roberto Carlos, Bodo Illgner, Fernando Morientes, Christian Panucci e Christian Karembeu estavam entre os nomes que engrossavam as fileiras madridistas. Todos os sete titulares na decisão que se realizaria na Amsterdam Arena, em maio de 1998. A eles se juntariam no 11 inicial os veteranos de zaga Manolo Sanchís e Fernando Hierro; o monstruoso Fernando Redondo; e o então prodígio Raúl, já fazendo maravilhas com o 7 nas costas. No banco, ainda apareciam outras contratações renomadas, como Davor Suker e Sávio. Já à beira do campo, Jupp Heynckes assumiu a missão após a saída de Fabio Capello, que conquistara La Liga em 1997, mas acabou demitido pelo presidente Lorenzo Sanz.

VEJA TAMBÉM: Devidamente questionado, Benzema justificou a confiança de Zidane em míseros centímetros

Ao longo da campanha na Champions, o Real Madrid superou bem os seus desafios. Na fase de grupos, liderou com sobras a chave que também contava com Porto, Olympiacos e Rosenborg, sofrendo apenas uma derrota. Eliminou o Bayer Levekusen nas quartas de final, passando por cima dos alemães no Bernabéu. E conquistou o seu grande feito nas semifinais, ao derrubar o Borussia Dortmund, então dono da taça. Morientes e Karembeu fizeram os gols no primeiro jogo, que permitiram a tranquilidade do empate na visita ao Westfalenstadion. Mas, como Hierro bem demonstrou diante da caixa de champanhe, nada daquilo valeria sem o empenho em Amsterdã, no reencontro com a Juventus de Marcello Lippi.

Desta maneira, a carga de expectativas sobre o jogo de 20 de maio seria imensa. Apenas os madridistas de 40 anos ou mais se lembravam do gosto de conquistar a principal taça continental. Quem tinha menos que isso, no máximo, experimentara o bicampeonato da Copa da Uefa em meados da década de 1980. Ninguém aliviava a cobrança. Especialmente a imprensa. “Levantar a Séptima ou morrer”, dizia a forte manchete do jornal ABC, distribuído pelo país durante a manhã da final. E os jogadores, em todas as entrevistas, davam declarações reconhecendo a responsabilidade de reencontrar a história.

A Juventus era favoritíssima na Amsterdam Arena. Acostumada às grandes campanhas continentais naquele momento, tinha uma equipe muito bem moldada por Lippi. Para alguns, até mais forte que a de dois anos antes, especialmente pelo acréscimo de Zinedine Zidane, o fantasista que complementava Alessandro Del Piero e oferecia o toque de classe ao time essencialmente físico. No entanto, o que se viu foi um Real Madrid cheio de atitude e consciência. Após um início favorável à Velha Senhora, os merengues logo passaram a anular a magia de Zizou, com Redondo e Hierro sólidos na marcação. Já Del Piero parava em grande atuação de Sanchís.

Passando a ditar o ritmo pouco a pouco, depois de conter a pressão italiana, o Real Madrid viu o jogo ficar em suas mãos. Mijatovic e Raúl incomodavam a defesa bianconera através da movimentação constante. Mas o gol sairia apenas em meados da segunda etapa. Em uma bola espirrada após chute de Roberto Carlos, Mijatovic foi mais esperto que os seus marcadores e se antecipou no lance. Deixou Angelo Peruzzi no chão, antes de fuzilar para as redes. Por fim, a Juve tentou recobrar o prejuízo, mas não passou por Illgner.

septima1

Ao apito final, uma festa que combinava não apenas a alegria, mas também o alívio pelo peso nas costas que se dissipava. Simbolicamente, Sanchís ergueu a taça. O capitão de 33 anos era o remanescente da Quinta del Buitre, formado na própria casa, e filho de Manuel Sanchís Martínez, lateral esquerdo na conquista anterior da Copa dos Campeões, em 1966. O presidente Lorenzo Sanz declarou que poderia morrer feliz. Já em Madri, a loucura branca tomou as ruas. Mais de 200 mil pessoas saíram para os festejos, ocupando principalmente a Praça de Cibeles, principal ponto de encontro dos torcedores na capital espanhola.

VEJA TAMBÉM: Com grandes defesas, Navas foi gigante quando o Real Madrid precisou

“O Real Madrid voltou. Esta foi a conclusão após a final. A partir da Séptima, passaram a nos olhar de outra maneira em campo. Neste dia, o madridismo descansou, se sentiu em paz. Por isso, temos tanto carinho”, afirmou Hierro, 16 anos depois, ao jornal El Mundo. “Antes da partida, recebemos umas 20 mensagens – por medo, por respeito, porque era um grande dia. Ninguém conseguiu dormir. Conversamos a madrugada inteira. Tinha nove anos de clube e, quando cruzava com um veterano, ele me perguntava quantas copas eu tinha. Por isso entendi Manolo Sanchís, que subiu num banco dentro do vestiário e gritou: ‘Agora posso jogar na cara do meu pai!’. Até então, era uma obsessão que durara 32 anos. Muita gente crê que os galácticos fizeram tudo, mas eles só ganharam a Novena”.

E, de fato, a imagem do Real Madrid continental se transformou naquele 20 de maio. Os merengues voltaram a levantar a taça em 2000 e, já com as primeiras contratações estrelares de Florentino Pérez, em 2002. O clube ainda passaria um jejum de 12 anos até recuperar a glória até 2014, mas, hegemonia do Barcelona à parte, o sentimento era bastante diferente do vivido em Amsterdã. Por isso que, para o madridismo, encarar a Juventus na final é mais que uma questão de ser campeão. É o reencontro com um capítulo fundamental de sua história. A honra.