Acreditar que a torcida única será a solução cabal ao problema de violência no futebol é um tanto quanto ingênuo. Ela pode atenuar os embates nas imediações de um estádio, mas não evita necessariamente que as pessoas se digladiem em outro lugar e nem mesmo garante o bom comportamento dos presentes nas arquibancadas. O grande trunfo da torcida única é permitir ao poder público lavar as mãos diante do que poderia ser enfrentado com prevenção. E, nos últimos dias, a imbecilidade da torcida única gerou um novo tipo de público nos estádios: os ignorantes que acreditam que, de fato, a torcida é única.

O Palmeiras x Flamengo deste domingo é um exemplo recente e escancarado, mas que não deve ser tomado como isolado. É vergonhoso (para não dizer outra coisa) ver “torcedores” querendo fazer o papel de autoridade e monitorar qual o time de coração de quem está nas arquibancadas. Se os indivíduos não estiverem se esgoelando ou vestindo a camisa do mandante, eles correm o risco de serem expulsos de um lugar ao qual pagaram para estar, privados de seus direitos.

O conceito de torcida única, ao que parece, quer impor também uma forma única de torcer. Pois foi exatamente o que aconteceu com o ex-jogador Diego Lima neste domingo, dentro do Allianz Parque. Por não vestir a camisa do Palmeiras e por estar contido vendo a partida, ele e seu amigo Ronaldo Souza foram acuados por alguns babacas. Os idiotas travestidos de palmeirenses intimidaram os rapazes e exigiram seus celulares, como se fosse uma prova suficiente de seu amor pelo clube. De fato, Diego é palmeirense.

Sem se curvarem, os dois torcedores foram tratados como “mulambos”, tomaram chutes, receberam cusparadas e precisaram se esconder para escapar de uma agressão ainda maior. Diego classificou a experiência como “muito humilhante”, em entrevista concedida à Folha de S. Paulo. Ronaldo, por sua vez, acredita que o fato de ser negro influenciou a postura dos agressores. Diego, se não usava o uniforme do seu Palmeiras, vestia um casaco do projeto social que participa para ajudar famílias carentes.

Não foi o único entrave. Obviamente, alguns flamenguistas também foram expulsos – flagrados repetidamente pela transmissão de TV, no que também é algo condenável. E houve o caso peculiar, e não menos desprezível, que aconteceu com o senhor Edílson, como reportado pelo Globo Esporte. O idoso resolveu fazer um protesto lendo um livro no estádio e, da mesma maneira, terminou hostilizado e expulso dali, conduzido pelos próprios funcionários do Allianz Parque para fora do portão. Sem entrar em detalhes políticos do que ainda não está totalmente esclarecido, é como afirmou Felipe Andreoli na apresentação do Globo Esporte: a intolerância à manifestação pacífica foi um “retrato da nossa sociedade”.

Esse tipo de situação, ou as agressões ocorridas no último Flamengo x Botafogo, levam a repensar o estádio como um espaço público. As responsabilidades cada vez mais são ignoradas. Ao se adotar a torcida única, nega-se o que deveria ser um direito aos torcedores visitantes. Mas não só isso. Desprotege-se também qualquer um que pareça minimamente alheio a este espaço.

Não vou entrar na discussão do erro de quem realmente se infiltrou, já que cada um certamente tinha consciência do risco assumido. Num jogo com atritos prévios, o problema estava claro, embora isso não signifique tal nível de agressividade. Afinal, é inaceitável que torcedores se sintam no direito de julgar quem deve e quem não deve comparecer às arquibancadas. É a responsabilidade negada pelas autoridades duas vezes. Primeiro, da polícia, por preferir uma só torcida. Depois, da própria segurança interna, ao não proteger a integridade física e os próprios direitos de consumidor de quem deseja ir ao estádio sem vestir a camisa do clube.

Diego e Ronaldo estavam em seu direito. Não tiveram o direito defendido pelos seguranças, que assistiram às hostilidades, quando deveriam intervir. Seu Edílson estava em seu direito. Não teve o seu direito defendido pelos seguranças, que preferiram conduzi-lo para fora. Teria o mesmo direito negado qualquer turista que desejasse estar presente no Allianz Parque? Alguém de outro estado ou de outro país que quisesse ver o jogo entre os dois melhores times do Brasileirão? É uma situação hipotética (e nem tanto) que levaria a intolerância a outra fronteira. Algo básico em qualquer estádio do mundo, mas que vira celeuma nessa realidade paralela.

É utópico acreditar que um estádio com “torcida única” terá 100% de torcedores de um só clube – da mesma forma como isso é corriqueiro em qualquer jogo, mesmo com torcida dividida, onde também há “infiltrados” à paisana. A diferença é que a torcida única parece autorizar uma paranoia que suprime o direito de outras pessoas. Que dá uma sensação de superpoder a quem se acha dono daquele espaço. Que reforça a imbecilidade que habita na ideia de reprimir o diferente.

Torcida única nunca vai ser torcida única. Ela cria outros tipos de problemas, mesmo que mais pontuais, e não resolve todos os entraves – como a própria torcida do Palmeiras escancarou ao quebrar cadeiras do estádio. E, que fique claro, isso não tem nada a ver com um clube específico. O papel do Palmeiras, agora, é reagir. Precisa identificar e punir os responsáveis pelas agressões, da mesma forma como seria de bom grado apoiar e acolher os agredidos.

De certa maneira, na outra extremidade da história, tal situação lembra a ideia estapafúrdia do Athletico Paranaense ao criar a “torcida humana”. Os próprios torcedores precisavam organizar os visitantes nas arquibancadas, para reservar um espaço a eles e evitar incômodos. É legal ver setores com torcida mista. Mas é preciso ter noção que isso é específico. As arquibancadas também são feitas de oposição, isso é natural, e não significa necessariamente conflito.

Entre os dois extremos da “torcida humana” e da “torcida única”, autoridades e dirigentes não demonstram a mínima capacidade de compreender tal pluralidade e de agir para garantir um ambiente saudável. Óbvio que a educação dos torcedores conta, mas não é isso que faz os atritos desaparecerem. É preciso um entendimento sobre o que é feita a arquibancada, que fuja dessas soluções prontas. Com prevenção e colaboração, é possível chegar a um denominador comum que não tolha o básico.

Aplicar torcida única é saber que você não vai ter controle 100% de quem entra no estádio e que os pontos “mistos” podem gerar conflito. Cria uma necessidade de outra prevenção e outro monitoramento. A solução? Deixar de lavar as mãos e perceber como ter torcida visitante em qualquer jogo é do futebol. É de direito. Enquanto tal cuidado não acontece, perdem os torcedores como um todo. O estádio amplifica a voz de uma sociedade intolerante, sem o básico de educação e de respeito.