O Santos deu um show no Pacaembu neste domingo. Exibindo um futebol ofensivo e veloz, o Peixe explorou todas as fragilidades do Vasco. O time de Jorge Sampaoli viveu uma de suas melhores atuações no ano, com muitas jogadas pelas pontas e arremates a rodo. Ao final, a vitória por 3 a 0 até esconde a superioridade dos santistas, que ainda acertaram três bolas na trave e criaram um caminhão de chances para golear. Mas qual o assunto depois da partida? A ascensão ao topo da tabela, o futebol endiabrado de Rodrygo ou a intensidade exibida durante os 90 minutos? Não. A crise vascaína ou os desafios de Luxemburgo quando assumir a equipe? Também não. É o infeliz (para dizer o mínimo) prêmio dado pela Rede Globo a Sidão, apontado como “o melhor em campo”.

A vitória do Santos, afinal, também contou com a tarde desencontrada do goleiro. Sidão falhou clamorosamente no primeiro gol, quando saiu jogando errado e permitiu que Pituca acertasse um belo chute de longa distância. Depois disso, a confiança do veterano ruiu. Deu sorte de não tomar outros dois gols na sequência do primeiro tempo, em que ficou perdido no meio do caminho, após saídas avoadas. E, depois de um desnecessário chapéu, também ficou exposto ao quarto gol na etapa complementar. Sidão foi o pior em campo, evidentemente frustrado pela coleção de erros ao longo da tarde. E, de maneira lamentável, terminou submetido a uma humilhação.

A Globo realiza uma eleição entre internautas para escolher o melhor em campo. A internet resolveu votar em massa no vascaíno – até aí, algo compreensível, diante da galhofa inerente às redes sociais, embora alguns “influenciadores” tenham se prestado a um papel bastante questionável. Sidão ganhou o pleito e o próprio anúncio disso na transmissão foi constrangedor. No entanto, a Globo não se contentou com isso. Resolveu entregar um troféu ao arqueiro na saída de campo.

O que a Globo fez no gramado do Pacaembu é inclassificável. Humilhou um jogador profissional, que teve um péssimo dia e já sofreria com a revolta de muitos vascaínos. Além do mais, constrangeu a repórter, obrigada a dar o “prêmio” e ainda a frisar isso durante a entrevista. Seria entendível se a reação de Sidão fosse bem mais intempestiva. Pelo contrário, foi educado e admitiu a atuação terrível. Com os olhos marejados e o rosto abatido, aceitou o objeto. Depois, manteve seu profissionalismo ao continuar falando com a imprensa. Mais emblemático é que tudo tenha ocorrido num Dia das Mães. O arqueiro perdeu sua mãe no final da adolescência e sofreu com depressão após a morte. Neste domingo, carregava o nome de Vera Lúcia nas costas.

As limitações de Sidão são conhecidas e isso não entra em questão. O goleiro saiu pela porta dos fundos no São Paulo, passou parcos meses no Goiás e chegou ao Vasco já criticado. Diante de tudo o que enfrenta, há uma clara crise de confiança. Erra mesmo em uma de suas virtudes, o jogo com os pés. E o mínimo que deveria ser feito era respeitar o trabalho de quem provavelmente anda se empenhando nos treinos para se reerguer, apesar dos fantasmas que povoam sua cabeça. É um caso parecido ao ocorrido com Alex Muralha, mas com requintes de sadismo tratados em forma de “premiação”.

A Globo errou ao manter uma votação aberta. Não é a primeira vez que a “zoeira” vence tal pleito. Mas existia a necessidade de entregar o prêmio? Existia a necessidade de expor a equipe de jornalismo a um trabalho desses? Existia a necessidade de achincalhar Sidão? Que se divulgasse o resultado e, bola pra frente, se esquecesse o troféu, consertando o sistema de votos para os próximos jogos. Mas não. A humilhação seguiu em frente e ganhou traços de cinismo, com o constrangimento de Sidão gerando cliques em um vídeo no site da empresa. O ápice da falta de respeito.

Conforme a apuração do jornalista Mauricio Stycer, no UOL, “o narrador Luis Roberto e os comentaristas Walter Casagrande e Roger Flores foram contra a entrega do troféu ao goleiro vascaíno. Entenderam que seria um constrangimento ao profissional. Mas a direção de Esporte da emissora exigiu que a repórter Julia Guimarães fizesse a entrega a Sidão”. Ainda segundo o blog, a justificativa da Globo é que o “Craque do Jogo” integra o pacote comercial das transmissões do Brasileiro. Em suas redes sociais, Casagrande e Roger pediram desculpas ao goleiro, bem como elogiaram sua educação diante da ridicularização.

A Globo, por sua vez, publicou uma nota no GE.com três horas após o ocorrido. Declarou que a votação será alterada, também determinada pelos comentaristas. “Sem deixar de reconhecer a opinião do público, a mudança no formato tem o objetivo de premiar os jogadores que tiveram atuação de destaque em cada partida”, escreveu a emissora. “O Grupo Globo aproveita para pedir desculpas a Sidão pela situação de constrangimento ao fim do jogo no Pacaembu. O goleiro é um profissional de alto nível no futebol brasileiro que estava em seu ambiente de trabalho depois de uma jornada difícil. Reconhecemos que a entrega do troféu não foi adequada na ocasião e agradecemos a educação de Sidão no momento de tensão”.

Criticar a atitude da Globo, cabe frisar, nada tem a ver com condenar uma crítica ponderada (como o próprio Sidão fez, a ele mesmo) ou uma possível brincadeira. O problema acontece quando se transforma a galhofa em uma falta de respeito sem tamanho. No caso, uma desmoralização transformada em seriedade e referendada por uma empresa de jornalismo – de jornalismo, embora insista em tratar o esporte como entretenimento.

A Globo tem um longo histórico de vezes em que errou a mão nesta relação. Basta lembrar da vez em que Herrera se recusou a “pedir música no Fantástico” pela maneira como seus gols perdidos eram tratados na rede nacional, ou de quando a mensagem do “amigo internauta” lida durante a transmissão deixou Galvão Bueno em uma saia justa. É saudável ter uma dose de humor, ninguém nega isso. Porém, os excessos do entretenimento prejudicam bastante a informação. Neste caso, com a brincadeira transfigurada em um prêmio teoricamente sério. E o que se nota é a Globo um tanto quanto perdida na forma como trata seu negócio.

Pegando emprestado o termo usado pelo colega Mairon Rodrigues, a premiação da Globo a Sidão é algo que “idiotiza” o futebol, como um todo. Primeiro, porque quebra a relação dos jogadores com a imprensa, em constante deterioração. Depois, porque ignora o trabalho realizado no dia a dia, cada vez mais negligenciado na cobertura. Principalmente, porque fere e se esquece do lado humano do futebolista. Além do mais, renega até mesmo o acerto dos outros. A boa atuação do Santos e o destaque de Rodrygo ficaram em segundo plano, para deixar em evidência uma “zoeira”. Sidão, infelizmente, pagou o preço. É de se imaginar que muita gente, que votou nele sem pensar nas consequências, tenha sentido pena pela cena patética promovida pela emissora. Mas também há outros que se aproveitarão da condição fragilizada para agredir verbalmente o atleta.

Quando se cobra que o futebol seja tratado de uma maneira séria e propositiva, a atitude da Globo descaracteriza esse princípio. Desconsidera o trabalho de muitos jornalistas competentes que compõem o quadro da empresa, como a própria repórter Júlia Guimarães. Mas ninguém é mais vítima nisso tudo que Sidão, com uma pressão a mais para lidar enquanto tenta se recuperar em São Januário. Ao menos, a Globo reconheceu o erro, embora fosse claríssimo que não precisava cometê-lo. Seria válido, também, se os jogadores do Vasco se manifestassem de alguma maneira, assim como os demais colegas de profissão. É o tipo de situação que não pode passar incólume.

Fica o exemplo do Santos, vencedor da noite por também se solidarizar com o adversário. Grande gesto.