O Campeonato Tailandês, por motivos óbvios, não atrai muita atenção do público brasileiro. No entanto, o desfecho emocionante (e inesperado) desta temporada, ocorrido no último dia 26 de outubro, merece destaque. Campeão em cinco das últimas seis edições da Thai League, o Buriram United era o grande favorito ao tricampeonato consecutivo. Frequente na Liga dos Campeões da Ásia, o clube possui um alto poder de investimento e se manteve no topo da tabela durante a maior parte do campeonato. Ao longo do segundo turno, o Buriram liderou em 12 das 15 rodadas e chegou ao último compromisso com uma vantagem de dois pontos. Título certo? Não foi bem isso o que aconteceu. O Chiang Rai United se tornou a grande surpresa e, diante de uma épica reviravolta, terminou com a taça.

Sediado no extremo norte do país, o Chiang Rai nunca havia conquistado o título nacional. Fundado em 2009, o clube alcançou a primeira divisão em 2011, mas sempre fez campanhas medianas, sem passar do quarto lugar. Seu maior sucesso tinha acontecido nas copas, sobretudo pela “tríplice coroa” emendada em 2018 – com a FA Cup, a Copa da Liga e a Supercopa. Pois isso seria um prenúncio do que aconteceria nesta temporada, com um salto maior. Depois de um início um pouco oscilante, o Chiang Rai pegou embalo ao final do primeiro turno. Colocou-se entre as primeiras posições da Thai League e iniciou sua perseguição ao Buriram United, com direito à liderança esporádica e a uma goleada por 4 a 0 no confronto direto do segundo turno. A façanha, porém, acabaria mesmo restrita aos momentos finais.

Restando duas rodadas para o fim do Campeonato Tailandês, o Chiang Rai ocupava a terceira colocação na tabela. Ganhou uma posição em sua penúltima partida, ao vencer seu compromisso e ver o Port (outro vivo na briga até então) perder o seu jogo. Já na última rodada, a luta acabava restrita a Buriram e Chiang Rai. Enquanto os multicampeões tinham 57 pontos, os desafiantes somavam 55, mas com a vantagem no confronto direto. Seria justamente este o fator que definiria o campeão.

O Chiang Rai precisava vencer fora de casa o Suphanburi, ameaçado de rebaixamento. Os vice-líderes começaram perdendo, mas empataram antes do intervalo e transformaram a virada em goleada durante o segundo tempo. Com tentos de Bill (aquele) e William Henrique, os visitantes fizeram sua parte ao ganhar por 5 a 2. O problema do Chiang Rai era secar o Buriram. Mesmo fora de casa, os multicampeões pareciam não encarar grandes problemas: pegavam o Chiang Mai FC, lanterna da Thai League, sem mais chances de salvação. O gol do holandês Nacer Bazarite, no início do segundo tempo, encaminhava o tricampeonato.

Entretanto, o milagre aconteceu nos minutos finais da partida em Chiang Mai. Aos 42 do segundo tempo, o atacante brasileiro Caíque (emprestado pelo próprio Chiang Rai ao Chiang Mai) empatou o jogo contra o Buriram por 1 a 1. Neste momento, o resultado era suficiente aos azarões, com os dois times chegando aos 58 pontos, mas vantagem ao clube do extremo norte graças ao confronto direto.

Ainda assim, a torcida do Chiang Rai United passaria por um teste cardíaco no tempo restante: por tirar a camisa durante a comemoração de seu gol, Caíque tomou o segundo amarelo e foi expulso. Desta maneira, o lanterna Chiang Mai FC precisaria segurar a igualdade contra o poderoso Buriram United, que tinha um jogador a mais. O destino, ao menos, ofereceria um final inédito ao futebol tailandês. Apesar de toda a pressão do Buriram e da chuva de bolas alçadas na área, o placar se manteve até o fim. O Chiang Rai celebrou o título histórico, agradecido pelo tropeço dos concorrentes.

A conquista do Chiang Rai United teve alguns personagens brasileiros. Os supracitados Bill e William Henrique foram essenciais no ataque. Os brasileiros anotaram juntos 25 gols, quase metade dos 53 somados pela equipe. Já na defesa, o zagueiro Brinner não se ausentou em uma partida sequer e foi peça vital ao sistema. Por fim, o comandante da campanha também é um brasileiro: o treinador Aílton Silva. Num clube que vinha apostando em técnicos do Brasil nos últimos anos, com menção principal a Alexandre Gama (que levou quatro títulos nas copas entre 2017 e 2018), Aílton conseguiu elevar o patamar e escrever o capítulo mais glorioso da história do time.

Aos 53 anos, Aílton Silva possui um currículo extenso pelo Brasil. Trabalhou em diversos clubes do estado de São Paulo – incluindo Portuguesa, Santo André, São Caetano, Ferroviária, Mogi Mirim, Juventus e São José. Além disso, também dirigiu equipes do Nordeste em estaduais e competições nacionais, com menção principal à sua passagem recente pelo Confiança, no qual ficou a uma vitória do acesso à Série B em 2017. Após trabalhar nas divisões de acesso do Campeonato Espanhol em 2007, Aílton ganhou uma nova oportunidade no exterior em 2019 e foi para a Tailândia no início do ano. Meses depois, escreveu definitivamente seu nome no futebol local. Entre os elogios da imprensa asiática ao comandante, está a maneira como aproveitou jovens e explorou a versatilidade de seus jogadores, assim como o repertório ofensivo.

Em entrevista à Trivela, Aílton Silva falou sobre o feito do Chiang Rai United. Ele relatou a emoção da conquista, assim como conversou sobre outros assuntos – como a relação do futebol tailandês com os brasileiros e o desenvolvimento do esporte na região. Além do mais, também comentou a representatividade do troféu à província de Chiang Rai e trouxe detalhes culturais sobre a região. Abaixo, a conversa completa:

[Trivela] Qual a representatividade desse título para o Chiang Rai United, ainda mais pela maneira como aconteceu, ao desbancar a maior potência do país na rodada final?

Aílton Silva: O peso é muito grande. Somos um clube de médio porte, com um investimento bem abaixo dos clubes da capital. Estamos abaixo não só do Buriram, mas também do Bangkok United, do Muangthong United, que são as equipes que mais brigam pelas primeiras posições. Isso representa muito. Também pesa o fato de sair da capital, de mostrar ao país que os outros times também podem começar a investir para tentar acabar um pouco com essa hegemonia. Foi algo inédito, que pode representar uma mudança dentro do futebol local, para que outros sonhem com títulos e busquem a classificação para a Champions Asiática.

[Trivela] Como vocês do Chiang Rai United viveram esta rodada final, entre fazer a própria parte e acompanhar o resultado de outro jogo?

Aílton Silva: Sabíamos da dificuldade do nosso jogo, porque o adversário lutava contra o rebaixamento. Eles tinham que ganhar para não correr o risco do descenso. Fomos fazer nossa parte e, mesmo tomando o primeiro gol, conseguimos empatar no primeiro tempo. Ajustamos algumas coisas no intervalo e, no segundo tempo, conseguimos os gols. Isso foi dando a tranquilidade. Tentávamos manter o foco só no nosso jogo, mas sabíamos que, a partir do momento em que a vitória fosse consolidada, nosso pensamento seria só no Buriram. Foi o que aconteceu. Com trinta e poucos minutos, conseguimos fazer o quarto, depois o quinto, e aí passamos a acompanhar. Sabíamos o que acontecia conforme o pessoal do banco ia avisando, pelo celular.

Sabíamos que estava 1 a 0 para o Buriram, um resultado ainda favorável a eles, o que nos deixou muito apreensivos. Quando nosso jogo terminou, também descobrimos que o Chiangmai havia empatado, um resultado que já nos dava o título. E aí começa aquela ansiedade, de saber quanto tempo falta. Restavam mais seis minutos e sabíamos que o Caíque havia sido expulso. Você já imagina que o Buriram está amassando e que, se eles marcassem o segundo gol, nosso sonho ia para o espaço.

Foram seis minutos em que parecia ou que o mundo acabava, ou que o mundo começava. Era uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo. Se acontecesse algum gol do Buriram, tudo desabava. Felizmente, os jogadores que não estavam relacionados gritaram o fim do jogo do Buriram. Então, começou a comemoração da nossa torcida. Aí todo mundo explodiu de alegria. Realmente foi uma sensação muito diferente e, no final, muito boa. É para marcar para sempre.

[Trivela] Como foi a comemoração com a torcida? Como é o caráter regional ao redor do clube?

Aílton Silva: Temos uma relação muito boa. A torcida gosta muito de futebol em Chiang Rai, no extremo norte da Tailândia, praticamente uma das últimas cidades do país. Eles são apaixonados. Tínhamos uma média de cinco a seis mil pessoas por jogo, tirando algumas partidas maiores. Mas a média se mantinha e a torcida sempre me surpreendia fora de casa, porque comparecia em bom número mesmo em Bangkok ou mais longe. Eles sempre apoiaram. Foi um título também para o torcedor, que apoiou, que acreditou.

Como o clube ganhou todas as copas no ano passado, ficou aquela coisa de continuar ganhando, mas sabemos que é um jogo só, e que o torneio acaba se você não der sorte naquele dia. Agora, a Thai League tem 30 jogos, o investimento é maior, ninguém poupa. Era o campeonato mais difícil e que o clube nunca tinha vencido. Por onde a gente andava em dias de jogos, os torcedores acreditavam, falavam que seríamos campeões. É uma alegria dar esse título à cidade e ao torcedor que sempre acompanhou, que sempre nos empurrou, mesmo nos momentos mais difíceis. A relação com eles é a melhor possível.

[Trivela] Como é o envolvimento da torcida na região com o futebol, já que existe uma relação do público tailandês com a Premier League?

Aílton Silva: Eles acompanham muito o futebol inglês, mesmo em Chiang Rai. São apaixonados pela Premier League. O que fez bastante diferença foi a maneira como nós jogamos: como nós íamos para o jogo, para propor o jogo, para ser um time ofensivo, para tentar o gol. Em algumas partidas que empatamos em casa, mas perdíamos muitos gols, os comentários nas redes sociais discutiam o que a gente precisava para anotar as chances que criávamos, já que sempre buscávamos o resultado. As equipes vinham fechadas jogar contra a gente, se defendendo. Com essa proposta, fizemos com que o torcedor ficasse mais apaixonado. Como eles veem muito futebol inglês, que é de alto nível, acho que elevamos um pouco isso ao nosso redor. Nosso estilo ofensivo os levou para o estádio e os fez acreditar que, com todas as diferenças, era possível exibir um bom futebol. Isso despertou muito interesse no torcedor de Chiang Rai.

[Trivela] Você pode falar um pouco do ambiente no clube ao longo da campanha? Como foi trabalhar a motivação e lidar com o favorito da liga?

Aílton Silva: O que eu passava para os atletas era que precisávamos ficar sempre entre os três primeiros. Foram poucas as vezes em que a gente desgarrou um pouquinho. Depois que alcançamos as três primeiras posições, foram só quatro rodadas em que deixamos essa parte da tabela. Também falava a eles que precisávamos sempre somar pontos, porque lá no final podíamos brigar pelo título. E quando ganhamos do Port e do Buriram, que eram os times que ocupavam a parte de cima, bati muito na tecla de que teríamos vantagem no confronto direto. No segundo turno, tivemos só uma derrota fora de casa. De 15 jogos, conquistamos nove vitórias. Foi essa metade final que fez com que a gente realmente tivesse chances de superar o Buriram. A diferença entre os clubes é muito grande. Conseguimos cinco convocados à seleção, mas eles sempre colocam de oito a dez. O Buriram tem mesmo o time mais forte do país.

[Trivela] O Chiang Rai vem de três títulos nas copas nacionais em 2018 e vocês deram trabalho ao Sanfrecce Hiroshima nas preliminares da Champions Asiática nesta temporada. Como é esse projeto de crescimento? Como é o investimento do clube?

Aílton Silva: No ano passado, eles estavam com um investimento maior. Nesse ano, perderam um dos investidores, mas a ideia é retomar. O elenco na temporada passada tinha jogadores mais experientes, mais consagrados no país, e isso ajudou muito na conquista das copas. Acho que é o momento de retomar essa parceria, buscar um investidor maior. Com a fase de grupos da Champions Asiática, teremos que contar com pelo menos 18 jogadores com condições de atuar em bom nível. É difícil jogar quarta-feira na China, retornar ao país e ter que pegar um time grande no final de semana. Este é o momento para o Chiang Rai alinhar alguma coisa boa para manter esse nível.

Nesta temporada, se a gente conseguisse a classificação contra o Sanfrecce, não teria o mesmo desempenho na Thai League. Não tínhamos um elenco tão numeroso para atuar nas duas competições. São jogadores jovens sendo preparados. Se conseguíssemos a classificação, ia ser um problema muito sério. Fizemos um bom jogo em Hiroshima e levamos para os pênaltis, o que foi muito significativo, porque todo mundo no Japão achava que acabaríamos goleados. Mas a classificação não seria favorável, em termos de projeção no nacional e nas copas.

[Trivela] Durante os últimos anos, o Chiang Rai vem apostando em técnico brasileiros. Como é essa relação e como você pôde aproveitar o trabalho dos antecessores, principalmente o Alexandre Gama, que conquistou as copas em 2018?

Aílton Silva: Há uma identificação da diretoria e do presidente com treinadores brasileiros. Tem muita coisa que nós podemos levar, e eles acreditam nisso. Existem detalhes que os tailandeses preferem e que trabalham em certo padrão, mas ao mesmo tempo eles acreditam muito nessa vivência do futebol brasileiro, nessa experiência que temos, nos títulos mundiais que conquistamos, nos bons jogadores que fornecemos. Se eles apostarem em bons jogadores estrangeiros e em comissões técnicas, acredito que crescerão muito. Em relação ao clube, pegamos parte do elenco do ano passado, do trabalho que o Gama fez, mas também aconteceram mudanças. Perdemos jogadores por questões financeiras. O que foi legal é que esses remanescentes, que eram jovens, nesta temporada cresceram e se encontraram. Com o trabalho que fizemos, eles se desenvolveram. São jogadores que se tornaram titulares e até chegaram à seleção. Ver esses jovens despontarem mostra que a equipe é o grande sucesso do trabalho.

[Trivela] Qual foi sua ponte para chegar ao clube e quais as perspectivas de continuar?

Aílton Silva: Minha ida é uma situação legal de contar. Eu já tinha acertado no Brasil praticamente com dois clubes, um de São Paulo e um da Bahia, e aí me encontrei com o [José Alves] Borges, que é um dos treinadores mais conhecidos na Tailândia. Está há 16 anos lá, é um vencedor, já ganhou os principais títulos, tem uma história linda. Ele trabalhou nas categorias de base do São Paulo e tínhamos amizade lá de trás, então nos encontramos depois de muito tempo. Fomos conversando e eu falei como aqui no Brasil estava difícil. Se você vai bem no primeiro semestre, tem sequência no segundo, mas se não vai bem, fica patinando.

Aí, ele falou que estava sem graça de dizer algo para mim. Contou que acertou com o Chiang Rai e precisava de um auxiliar, mas eu era treinador principal, tinha currículo. Respondi que ia pensar, porque poderia abrir portas e conhecer um novo mercado na Ásia. No fim, a coisa acabou andando. Mas ele também falou que estava faz tempo na Tailândia e que talvez não continuasse. Se ele não continuasse, eu precisava assumir, porque ele não queria me tirar de um emprego para ficar logo depois desempregado. Não era justo para ele se isso acontecesse e eu precisava me comprometer.

Só que você nunca espera que isso aconteça já na primeira semana de fevereiro. Como funciona no futebol, isso geralmente ocorre em julho, em agosto, quando alguma coisa não se encaixa. Mas o desgaste começou logo depois de ganharmos a pré-temporada. O Borges teve um desgaste com a diretoria no jogo da Recopa e isso culminou na saída dele antes mesmo da partida contra o Yangon, na primeira fase classificatória da Champions Asiática. Com isso, os jogadores pediram para que eu ficasse porque já viam um pouco do trabalho, a diretoria me efetivou e a gente conseguiu dar essa sequência.

Sobre minha continuidade, vai depender. Meu contrato segue até 31 de dezembro, depende do que a gente acertar. Sabemos que o título traz destaque e chama atenção de outros países. Vou aguardar alguns dias, acabei de chegar ao Brasil, quero descansar e esperar para ver se acontece alguma coisa diferente. Aí vou analisar a situação no Chiang Rai, com a fase de grupos da Champions Asiática, que é um sonho para qualquer um.

[Trivela] Como foi sua adaptação ao novo país, principalmente dentro do seu trabalho? Como você se virou em relação à língua? Como foi o acesso aos jogadores?

Aílton Silva: A língua é totalmente diferente, muito difícil. A parte do inglês também é difícil, porque nem todos lá falam inglês, e mesmo assim existe uma diferença do próprio sotaque. Tem palavras que, se você não entender ou se eles não entenderem, não tem comunicação. Tivemos uma pessoa que foi fundamental, um diretor do clube que serviu de intérprete. Ele entende o português num nível bom, mesmo sem ser 100%. Eu fui me alinhando com ele para explicar o trabalho. Usava um pouco do inglês, mas a maior parte do tempo era tradução do português para o tailandês através dele. Isso fez com que tivéssemos uma facilidade para passar o que queríamos. A partir disso, eu me adaptei. O fato de trabalhar em vários clubes no Brasil também te dá essa facilidade de se adaptar a uma coisa ou outra. E foi isso que aconteceu. A adaptação foi rápida, os jogadores compraram a ideia, gostavam dos treinos. Passei pra eles a forma de trabalhar e eles compraram a ideia, isso fez com que o time deslanchasse.

[Trivela] Como você compara o nível do futebol tailandês com suas últimas experiências, principalmente nas divisões de acesso do Brasileirão? Com é o Chiang Rai comparado ao Confiança, seu trabalho anterior de maior projeção no Brasil? Quais as dificuldades?

Aílton Silva: Acho que o fator principal é a sequência no trabalho. Você começar o trabalho, ter meio e fim. Isso fez grande diferença. Os jogadores no Chiang Rai compraram a ideia. Você vai ter oscilações, como é normal no futebol, mas acho que isso fez grande diferença esse ano. No Confiança eu cheguei para apagar um incêndio, nos livramos do rebaixamento à Série D, nos classificamos entre os quatro e quase subimos, mas perdemos o acesso para o São Bento. E aí não teve o investimento que a gente imaginava para o estadual, os resultados não vieram. Não teve nem pressão por parte de torcida, a diretoria achava que tinha que trocar. Esse é o problema do Brasil. Lá fora também tem? Tem. Na própria Tailândia, dos 16 clubes, só três não trocaram de treinador. Mas no Brasil é um pouco pior. Ter uma sequência é o que faz a diferença, se você no dia a dia tem um bom trabalho.

[Trivela] E como você vê essa oportunidade para os treinadores brasileiros trabalharem no exterior? Quais as perspectivas de ir a algum mercado um pouco maior na Ásia?

Aílton Silva: O futebol brasileiro tem mais treinadores do que clubes. A gente sabe que, ainda no primeiro semestre, com os estaduais, existe um equilíbrio maior quanto ao desemprego. Agora, no segundo semestre, como os campeonatos nacionais afunilam, a Série C e a Série D acabam muito rápido, o número de desempregados aumenta. Temos que buscar, sim, o mercado estrangeiro. Temos condições e capacidade para isso. Quando vamos para esse mercado asiático, é fundamental ter um inglês bom, mas não é só isso. O futebol tem muito detalhe nas explicações, então você precisa ter alguém que consiga passar esses detalhes para os atletas. Esse fator também merece muita atenção.

[Trivela] E como é a abertura do futebol tailandês aos jogadores brasileiros? O Bill é o nome mais conhecido do seu elenco, que ainda conta com o Brinner e o William Henrique. Outros atacantes têm se destacado nos últimos anos, a exemplo do Diogo, que fez muitos gols pelo Buriram. A abertura tem aumentado por causa desses atletas?

Aílton Silva: O Diogo fez muito sucesso, foi para a Malásia agora. Os tailandeses são muito receptivos aos jogadores brasileiros. Apesar da distância grande e de não acompanharem o futebol brasileiro, sabem do histórico dos jogadores, principalmente os mais famosos. Mas não são bobos. Não adianta você querer levar um brasileiro que não esteja bem, que não tenha sequência de jogos, que seja um ex-atleta: isso não vai enganar. Eles dão essa abertura, mas querem jogadores brasileiros que somem – como aconteceu no Japão, na Coreia do Sul e agora na China. A Tailândia não tem esse poder de investimento, mas precisam de jogadores de qualidade para poder elevar o nível, e vejo isso acontecendo.

[Trivela] Como você adaptou sua vida e seus costumes? Chiang Rai não se encaixa ao clichê que vem à mente sobre a Tailândia, distante das praias, e há uma grande diferença entre o norte e o sul do país. Como foi lidar com isso e com a própria questão religiosa, que é mais presente por aí?

Aílton Silva: Você tem que ir preparado. A diferença é muito grande, a cidade é muito afastada da capital. Você tem que estar atento todos os dias aos costumes, a tudo aquilo que eles têm como comportamento. Precisa se adaptar à alimentação, existem regras quanto aos costumes. Como não é a primeira vez que saí para o exterior, e como também trabalhei em diferentes regiões do Brasil, minha adaptação foi fácil. Mas não acho que é qualquer um que chega e se adapta, as mudanças são grandes. Não são coisas simples. Temos a nossa religião, mas precisamos respeitar a deles. Estamos na casa deles, precisamos saber como procedem.

Nos dois últimos jogos da Thai League, eu tive que encurtar a preleção, porque havia a necessidade de passar em mais templos que o normal antes da partida. Eles costumam pedir proteção, assim como temos a nossa oração. O diretor pediu para fazer uma preleção mais curta, explicou o significado e a tradição, e nesses minutinhos eles acabaram indo a mais templos. Precisei ter essa flexibilidade. Na penúltima semana do campeonato, nós também fizemos uma visita a outra cidade. Fomos àquela caverna onde os meninos ficaram presos, depois fizemos duas rezas. Ao final do dia, chegamos muito cansados para o treino, fizemos uma movimentação, mas eu tive que mudar o trabalho. Conversei com eles, expliquei a importância do momento, aí tiramos a intensidade e eles tiveram contato com bola. São coisas que ou você se adapta para dar certo ou vai ter problemas, não tem jeito. Não tem como ficar no meio do caminho. Ou você aceita e faz, ou senão você vai ter problemas.

[Trivela] Há algum detalhe do futebol local que você absorveu no seu próprio trabalho?

Aílton Silva: Tudo eu tinha que explicar muito bem explicado. Não adiantava fazer uma coisa hoje e acrescentar outra amanhã, eles tinham dificuldades para lembrar. No Brasil, você agrega hoje ao que foi feito ontem, mas na Tailândia precisava explicar, mesmo que fosse a mesma coisa e eu parecesse repetitivo. Eu tinha que falar, senão eles iam tentar só de um jeito e o que foi feito no dia anterior não levariam em consideração ou não tentariam. Se fosse um treino pelas pontas num dia e por dentro no dia seguinte, precisava dizer para também jogarem pelas pontas de novo, senão não fariam. Foi uma coisa que aprendi e levarei para o resto da vida. Todo dia você fala para o atleta o que ele precisa fazer, dá a obrigação dele, e lembra as outras coisas que você fez. Isso permitiu que a gente desenvolvesse um bom futebol.

[Trivela] Como você vê o potencial do futebol na região?

Aílton Silva: Eu vejo que a seleção vai melhorar, e está fazendo uma boa campanha nas Eliminatórias, porque os jogadores chegam mais preparados dos clubes. Os brasileiros e os estrangeiros serão importantes para que eles possam crescer internamente. Eu tive contato com o treinador atual da seleção e ele veio me elogiar, me agradecer. Disse que os jogadores estavam chegando bem fisicamente, muito bem treinados e bem tecnicamente, para que ele ajeitasse taticamente à própria ideia. Isso foi muito legal.

Acho que é mais ou menos isso: se os jogadores estiverem bem nas ligas, a seleção vai ser forte. O jogador tailandês tem qualidade, muitos têm recursos técnicos. O que eu tenho colocado na cabeça deles é o lado de serem mais profissionais. De se alimentarem melhor e de descansarem mais, porque às vezes eu percebia que eles não davam muita importância a isso. Com essa consciência, de que são atletas e precisam estar bem para jogar em alto nível, acredito que, com os bons trabalhos e com a parte técnica, eles podem vir a brigar contra as principais seleções da Ásia.