O Bayer Leverkusen é um raro clube lembrado mais por suas decepções do que por seus títulos. Mas, acredite, a sala de troféus dos Aspirinas não é completamente vazia. A equipe conquistou até mesmo uma Copa da Uefa na temporada 1987/88, em tempos ainda mais prestigiosos do torneio europeu. Já sua única glória nacional aconteceu em 1992/93, na Copa da Alemanha. Neste sábado, quando enfrentará o Bayern de Munique também pela Pokal no Estádio Olímpico de Berlim, o Leverkusen tentará quebrar o incômodo jejum de 27 anos sem qualquer taça.

A Copa da Alemanha sempre proporcionou suas zebras e não seria diferente naquela temporada de 1992/93. No entanto, mesmo em sua primeira final, o Leverkusen não era o azarão da vez. O curioso oponente dos Aspirinas em Berlim era o Hertha, mas não a equipe principal, e sim o time B dos alviazuis. Os berlinenses disputavam a terceira divisão, amadora e regionalizada na época, e acabaram conquistando a classificação à Pokal através dela. Nos mata-matas, eliminaram adversários de peso como o VfB Leipzig (antigo Lokomotive), o Hannover 96, o Nuremberg e o Chemnitzer. Bayern de Munique, Werder Bremen e Borussia Dortmund haviam ficado pelo caminho daquele lado da chave.

Já o Leverkusen teve adversários ainda mais difíceis, como o Kaiserslautern e o Eintracht Frankfurt – seu oponente nas semifinais, na época em que também brigava pelo título da Bundesliga. E, por coincidência, os Aspirinas haviam despachado o próprio time principal do Hertha Berlim, que militava na segunda divisão. Nas oitavas, o Leverkusen derrotou o clube da capital por 1 a 0, cumprindo seu favoritismo. Eram anos de relativo destaque à equipe da Bayer, que não disputava necessariamente o título na Bundesliga, mas com frequência fazia campanhas para se classificar às copas europeias.

Dentro de campo, o Leverkusen contava com uma equipe forte. O goleiro era Rüdiger Vollborn, uma lenda que nunca vestiu outra camisa e, de tão emblemático, hoje em dia é quem cuida do arquivo do clube e também dirige o ônibus de visitação à BayArena. A defesa possuía a liderança do capitão Franco Foda, líbero com passagem pela seleção. Outro destaque era Christian Wörns, zagueiro que havia jogado a Euro 1992 pela Mannschaft e estaria depois em outras competições internacionais. Completando o quinteto defensivo, Martin Kree, Andreas Fischer e Markus Happe superaram os 150 jogos de Bundesliga pelos Aspirinas.

Já do meio para frente, o Leverkusen aproveitou bem a queda do Muro de Berlim para caçar talentos. Era uma clara estratégia do clube. O trio no meio-campo tinha Heiko Scholz, trazido do Dynamo Dresden; Pavel Hapal, jogador da seleção tcheca; e Ioan Lupescu, uma das principais figuras da Romênia na época, contratado do Dinamo Bucareste após a Copa de 1990. Na frente, uma dupla de ataque costumeira nas partidas da Alemanha Oriental: Andreas Thom havia acumulado títulos com o Dynamo Berlim, antes que a taça parasse nas mãos do Dynamo Dresden de Ulf Kirsten. Até mesmo o treinador vinha da Cortina de Ferro: o sérvio Dragoslav Stepanovic, que saía de um bom trabalho à frente do Eintracht Frankfurt. Após deixar as Águias com a eliminação nas semifinais, deveria chegar ao Leverkusen só na temporada seguinte, mas assumiu o cargo antes disso por causa de uma sequência de maus resultados dos Aspirinas na liga.

Como era de se imaginar, a maioria dos 76,3 mil presentes nas arquibancadas do Estádio Olímpico de Berlim torcia para o Hertha. Não era apenas uma questão de apoiar o time da cidade, mas também de aclamar uma das maiores zebras da história da Copa da Alemanha. E os jovens berlinenses fizeram jogo duro naquela ocasião. O empate sem gols perdurou até os 32 minutos do segundo tempo, quando uma cabeçada de Ulf Kirsten rendeu o suado triunfo por 1 a 0 ao Leverkusen. Talvez o mais importante dos 237 gols da lenda pelos Aspirinas. Maior goleador da história do clube, Kirsten seguiria na ativa até 2003. Foi três vezes artilheiro da Bundesliga (a primeira também em 1992/93), bem como da Recopa Europeia e da Copa da Uefa. Faltou apenas a Salva de Prata para reconhecer seu talento, com quatro vices.

“A atmosfera estava maravilhosa no estádio, com arquibancadas quase completamente lotadas, mas não era problema ter a torcida contra. Eles tinham um belo time, com vários jogadores interessantes. O Hertha sempre contou com ótimas categorias de base. Eles se defenderam bem, ainda que não tenham criado tantos perigos para nós. Recentemente vi esse gol, porque nem me lembrava bem. Fizemos uma grande festa, primeiro no hotel com nossas famílias, depois em Leverkusen. Milhares de torcedores nos esperavam. Naquele momento, talvez não tenhamos percebido o que fizemos”, relembraria Kirsten, nesta semana.

Um bom número de jogadores do Hertha acabou se profissionalizando e jogando na Bundesliga, a maioria com a própria camisa alviazul. O goleiro Christian Fiedler, bem como os gêmeos Oliver e Andreas Schmidt, passaram os melhores anos da carreira com os berlinenses e atuaram nas seleções de base. Já a principal revelação daquele Hertha, curiosamente, se transferiria ao Leverkusen em 1995: Carsten Ramelow, símbolo dos Aspirinas nas boas campanhas da virada do século e também frequente na seleção principal da Alemanha. Seria ele o capitão na final da Copa da Alemanha em 2001/02, a temporada do tri vice, com a vitória do Schalke 04 por 4 a 2 naquela ocasião. Kirsten anotou um dos gols. Já em 2008/09, o vice aconteceu contra o Werder Bremen, com Mesut Özil decidindo a partida no Olympiastadion. Como azarão desta vez, o Leverkusen tentará escrever outra história.