No lugar de um facão, foi um álbum de fotos a arma que Eric Murangwa usou para se defender do genocídio de Ruanda, cujo início completa 21 anos nesta segunda-feira. Quando cinco homens armados da milícia hutu, com o objetivo de exterminar todos os tutsis da face da terra e as lâminas na bainha, invadiram a sua casa, ele usou os retratos que guardava com orgulho para provar que era goleiro do Rayon Sports. Não seria a única que vez que o futebol salvaria a sua vida durante aqueles 100 dias de massacre que cobraram 800 mil vidas da etnia minoritária de Ruanda.

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Eric nasceu tutsi em 1975, no leste de Ruanda, e aos sete anos teve que se mudar para a capital Kigali por causa da repressão dos hutus. Já era adulto, em 1994, quando o avião carregando o presidente do país, Juvenal Habyarimana, e o de Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos hutus, foi derrubado. Foi suficiente para a explosão de décadas de tensão entre os dois grupos. Deu-se início à limpeza étnica da minoria tutsi, oprimida desde 1959, quando o rei Mwami Charles Mutura III foi assassinado em uma revolução popular.

Até então, eram os tutsis, camada mais rica da população, que governavam o país, incentivados pelos colonizadores belgas que assumiram o controle de Ruanda da mão dos alemães depois da Primeira Guerra Mundial, e reprimiam a maioria hutu. Depois da revolução e da independência, dezenas de milhares de tutsis foram exilados para países vizinhos. Durante anos, os refugiados organizaram-se para um dia retomarem o poder no seu país de origem. Em 1990, formaram um grupo rebelde chamado Frente Patriótica Ruandense (RPF) e invadiram Ruanda para lutar pelo poder. A guerra durou três anos, até um acordo de paz ser firmado em 1993.

O cessar-fogo durou apenas até 6 de abril de 1994, quando o avião dos presidentes foi derrubado. A Frente Patriótica Ruandense alegou que os próprios hutus abateram a aeronave para terem uma desculpa para começar o genocídio. Independente disso, entre o dia da queda, 6 de abril, à formação do Governo Nacional de Unidade de Ruanda, em 19 de julho, 800 mil tutsis foram mortos pelos hutus, a maioria vítima de golpes de facão. Milhares de mulheres tutsi viraram escravas sexuais. Três milhões de tutsi foram exilados. Imagens de pilhas de corpos, crianças chorando e pessoas passando fome em campos de refugiado giraram o mundo.

Mas não o sensibilizaram. Os Estados Unidos haviam acabado de executar uma missão na Somália, e a queda de um helicóptero jogou a opinião pública do país contra o presidente Bill Clinton. Ele chegou a afirmar que usaria o poder do seu exército apenas onde houvesse “interesses americanos”. Razões humanitárias não seriam suficientes. A atuação da ONU foi tão evasiva quanto. No segundo dia de genocídio, 10 membros da entidade foram mortos. Uma semana depois, tropas belgas da missão das Nações Unidas foram retirados, justamente no momento em que os tutsis mais precisavam de ajuda. Durante semanas, a ONU teve o cuidado de não chamar o massacre de genocídio. Apenas no final de junho, um enviado dela admitiu a realidade, e alguns dias depois uma resolução do Conselho de Segurança criou uma “zona humanitária segura”. Ano passado, no aniversário de 20 anos do conflito, o atual secretário-geral Ban Ki Moon afirmou que a ONU “sente vergonha” por ter negligenciado Ruanda.

A primeira vez que Eric, já com 19 anos, escapou da morte por causa do futebol foi logo no primeiro dia do genocídio, quando aqueles homens armados invadiram a sua casa. A salvação por um fio deu-lhe a certeza de que não era mais seguro morar ali. Buscou refúgio com um companheiro de equipe, com quem ficou por cerca de uma semana até descobrir que os grupos de extermínio estavam procurando-o para assassiná-lo. A alternativa foi apelar para um diretor do Rayon Sports.

Eric, na época de Rayan Sports
Eric, na época de Rayan Sports

O problema é que esse diretor era Jean-Marie Vianney Mudahinyuka, o Zuzu, líder de uma milícia responsável por várias mortes, torturas e estupros. No entanto, a paixão pelo Rayon falou mais alto, e Zuzu acolheu Eric na sua casa por alguns dias. Pela segunda vez, ele escapava da morte por causa do futebol. Os vizinhos do homem que acabou preso pelo seu papel nos genocídios reclamaram da presença do goleiro na região, e Eric teve que voltar para a casa do seu companheiro de time.

Mais uma vez, sua estadia não durou muito tempo. Foi encontrado por um trio de militantes hutus e se recusou a acompanhá-los. Apanhou com uma granada na cabeça, teve todo seu dinheiro roubado e estava prestes a ser capturado quando o primo do seu colega de equipe, um soldado do governo, interveio. A terceira vez. Após novamente olhar a morte nos olhos e sobreviver, recorreu a Zuzu, que prometeu levá-lo ao quartel-general da Cruz Vermelha em Kigali. Foi escoltado pelo carro do dirigente, mas não conseguiu entrar. Dormiu alguns dias na porta até ser eventualmente direcionado ao Hôtel des Mille Collines, que abrigou mais de 1,2 mil refugiados e foi retratado no filme Hotel Ruanda, indicado a Melhor Roteiro Original no Oscar de 2004.

Passou mais ou menos um mês no local até se reunir com amigos e descobrir que os membros mais próximos da sua família estavam vivos. Depois de dois meses de trabalhos humanitários no sul da capital, Eric voltou à Kigala, mas, apesar da situação estar mais tranquila, ainda havia milícias hutus tentando terminar o trabalho. Quando descobriu que seu nome constava em uma lista de extermínio, aproveitou um jogo contra a Tunísia, fora de casa, para desertar. Imigrou para Bélgica e em seguida para o Reino Unido, em 1997. A quarta vez.

Para devolver ao futebol o que ele lhe deu – a vida -, Eric abriu uma fundação chamada Futebol para a Esperança, Paz e União, com o objetivo de fomentar tolerância e conciliação em Ruanda. Como já está mais do que provado o poder que esse jogo de bola tem para minimizar diferenças, ele espera conseguir evitar outros genocídios no futuro. E então o futebol conseguiria salvar a vida de outros compatriotas, mas, desta vez, de forma preventiva.

Veja uma entrevista de Eric sobre o assunto. Basta clicar no pequeno “cc” para ver legendas em inglês: