A Premier League enfrenta um momento de incerteza sobre a conclusão de sua temporada. Diante dos esforços concentrados no Reino Unido ao combate do coronavírus, não há qualquer resposta sobre a continuidade das competições – e esta nem deve ser a prioridade quando o número de casos positivos da COVID-19 cresce no país, com mais de 9,5 mil infectados e 465 mortos até a noite desta quarta-feira.

A situação extrema provocada pela pandemia costuma ser comparada com as temporadas canceladas por causa das guerras mundiais. Como a Primeira Guerra Mundial começou em julho de 1914, o Campeonato Inglês de 1914/15 sequer teve sua primeira rodada. Já em 1939/40, foram apenas três rodadas disputadas, antes que a Segunda Guerra estourasse em setembro de 1939. Ainda assim, o caso mais parecido com o atual ocorreu na Football League de 1946/47, conforme o jornal The Guardian relembrou na última semana. A primeira edição da liga após a Segunda Guerra quase sofreu um rompimento abrupto, mas prolongou sua disputa até meados de junho de 1947 e coroou o Liverpool como campeão.

A ocasião tinha suas semelhanças e suas diferenças ao que acontece hoje em dia. Afinal, a tal “reclusão” também ocorreu por outras razões há 73 anos. O inverno de 1947 esteve entre os mais rigorosos do Reino Unido no Século XX. As temperaturas registraram mínimas que não se viam no país desde 1910, enquanto os britânicos enfrentaram 55 dias seguidos com neve em seu território. Num país que ainda lidava com os destroços da Segunda Guerra Mundial, o frio incessante interferiu diretamente na vida da população.

O governo ordenou uma paralisação industrial generalizada. Ferrovias e rodovias interromperam seus fluxos, a energia elétrica passou a ser racionada e muitos trabalhadores ficaram temporariamente sem emprego. Havia uma crise econômica e também de abastecimento. Por mais que o público estivesse ávido por futebol após os anos de guerra, as bilheterias também sentiram seu impacto natural. As tempestades de neve, além de adiarem diversas partidas, afastaram o público quando a bola rolava. Muitos proletários sem dinheiro deixaram de frequentar os estádios.

A situação passou a se normalizar a partir de março, com o fim do inverno. Para retomar suas atividades e acelerar a produção industrial na reconstrução do país devastado pela guerra, o Reino Unido ordenou que as máquinas operassem em sua capacidade máxima. Isso interferiu  na organização do Campeonato Inglês e na realização dos esportes de alto rendimento em geral. O governo britânico determinou que as competições esportivas cancelassem suas rodadas de meio de semana. A intenção era aumentar a produtividade e evitar a “distração” que as partidas causavam no proletariado.

Em 12 de março de 1947, o Ministério do Interior se reuniu com dirigentes das modalidades mais populares do Reino Unido: futebol, rúgbi union, rúgbi league e hóquei no gelo, além de corridas de carros, cavalos e cachorros. Apenas o críquete seria deixado de lado, já que seus espectadores em maioria não faziam parte da população em idade ativa no mercado de trabalho. Nesta conversa, ficou determinada a permissão das atividades apenas aos finais de semana.

Obviamente, nem todos concordaram com a interferência do governo. A rúgbi league argumentou que o percentual de público nos estádios não tinha grande representatividade na população, mas o pedido para seguir atuando no meio da semana foi negado. Também aconteceram protestos do público das corridas de cachorro em frente à sede do Ministério do Interior, sem qualquer sinal de compaixão dos governantes.

“O efeito moral sobre as pessoas poderia ser desastroso. A ideia toda é inacreditável. Acredito que a opinião contra o banimento dos esportes no meio da semana será tão forte que nunca entrará em vigor”, justificou na época Will Cearns, presidente do West Ham e também diretor do estádio de corridas de cachorro de Wimbledon. Todavia, o governo não cedeu e manteve a proibição ao longo da temporada.

A questão à Football League poderia parecer simples. Encaixar o Campeonato Inglês apenas aos finais de semana não é tão complicado, certo? O problema era a quantidade de partidas adiadas por conta do rigoroso inverno. Ainda no início de março, as nevascas seguiam castigando os campos e impossibilitando os jogos. Dois dias antes da reunião com o Ministério do Interior, em 10 de março, 17 dos 44 duelos pelas quatro primeiras divisões terminaram cancelados por influência do clima. Aquela era a sexta das sete rodadas consecutivas na primeira divisão que tiveram jogos remarcados.

Sem que as rodadas fossem suspensas por completo, havia inclusive uma distorção imensa na tabela do Campeonato Inglês. Enquanto o Blackpool tinha disputado 34 de seus compromissos na campanha, o Sheffield United só tinha realizado 26 partidas. “Muitos dos campos estão inundados, alguns seguem congelados e outros estão cobertos por quantidades variáveis de gelo, água e neve”, reportava o Guardian, na época. Em Anfield, por exemplo, não havia mais gramado – apenas uma mistura entre neve e barro. Chegaram a pintar linhas azuis no campo, para auxiliar as marcações, já que o branco da cal não era mais visível.

Para ajustar a competição ante a proibição dos duelos no meio da semana, também incluindo aí a reta final da Copa da Inglaterra, as soluções ao Campeonato Inglês em 1946/47 não diferiam tanto do que se pensa agora à Premier League 2019/20. A organização do campeonato precisou escolher entre abandonar a temporada por completo, jogar com portões fechados no meio da semana ou reajustar o torneio além do término previsto, alongando a disputa para o verão. A rodada final, estimada para o primeiro final de semana de maio, precisaria adentrar até junho.

Em tempos nos quais as receitas dos clubes dependiam basicamente das bilheterias, fechar os portões não entrava em cogitação, sobretudo pela queda dos ganhos durante o inverno. Cancelar o campeonato também parecia injusto com as equipes, enquanto a falta de um número regular de jogos disputados por cada clube impedia uma definição antecipada da liga. “Associado ao problema das partidas a se disputar, está a questão de cancelar a temporada ou conceder as promoções e os rebaixamentos apesar do número de jogos diferente”, escrevia o The Observer.

Desta maneira, nada mais lógico que ampliar a temporada até as vésperas do verão. Que os jogadores perdessem parte das férias, era a melhor forma de preencher os finais de semana e evitar que qualquer clube se sentisse prejudicado. Assim, por unanimidade, a solução de estender o Campeonato Inglês por mais algumas semanas terminou aprovada. A maioria dos clubes seguiria em atividade até o último final de semana de maio. Em junho, seriam ainda realizados dois compromissos atrasados do Sheffield United.

Curiosamente, se o Liverpool hoje torce por uma decisão favorável ao seu título encaminhado, na época os Reds protagonizaram uma reviravolta para conquistar seu quinto troféu na Football League – o primeiro em 24 anos, em seu segundo maior jejum na história do Campeonato Inglês, superado apenas pelo atual. A equipe era treinada por George Kay, que permaneceu 15 anos no comando técnico, de 1936 a 1951.

Já dentro de campo, um certo Bob Paisley estava à disposição na cabeça de área, com muita presença física. Ao seu lado, aparecia Phil Taylor, outro nome emblemático na proteção. Considerado um dos maiores ídolos da história do Liverpool, o ponta Billy Liddell disputava sua primeira temporada como titular e teve importância na conquista. E, providenciando os gols mais à frente, apareciam o talentoso interno Jack Balmer e o novato centroavante Albert Stubbins – outros dois nomes memoráveis ao clube. Recém-trazido do Newcastle na época, Stubbins é reconhecido não apenas por seus gols em Anfield, mas também por ser o único futebolista a figurar na capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Apesar dos personagens futuramente célebres, o Liverpool não constava entre os favoritos ao título inglês. Entretanto, realizou uma preparação especial àquela temporada – e um tanto quanto particular, dentro do contexto. Presidente dos Reds, William McConnell também era proprietário de uma empresa de distribuição de alimentos. Em 1945, ele foi enviado aos Estados Unidos pelo Ministério da Alimentação e percebeu como a indústria americana não sofreu qualquer baque por conta da Segunda Guerra, bem diferente do que ocorria no Reino Unido.

Para aproveitar a situação, McConnell enviou seus jogadores a uma turnê pela América do Norte durante a pré-temporada em 1946/47. Estavam lá não apenas para disputar amistosos, mas também para se alimentar bem, em tempos de racionamento de comida aos britânicos e após anos de subnutrição por causa dos conflitos. Entre carnes, vegetais, frutas, sorvetes, sucos e outros alimentos em abundância, os atletas voltaram em média seis quilos mais pesados. “Você pode conseguir qualquer prato que desejar para comer e naturalmente estamos tirando vantagem da oportunidade”, comentou o técnico George Kay, na época.

“O Liverpool chegou aos Estados Unidos para arrebentar nossos times e nossas vitaminas. Eles devoraram o que veio pela frente. Os britânicos ganharam todas as suas dez partidas e também deixaram os pratos limpos. Fora do programa de austeridade britânico, eles mergulharam com entusiasmo em nossos bifes, ovos, leite e outras comidas. Não apenas houve um ganho perceptível de força em campo, como também o elenco ganhou peso”, narrou o jornal The New York Times, ao final da tour. Quando o Campeonato Inglês começou, os Reds ainda levaram um tempo para engrenar e oscilaram até janeiro, mas estavam inteiros durante o inverno rigoroso e tiveram mais fôlego à maratona final.

No momento em que ocorreu a reunião com o Ministério do Interior, o Liverpool ocupava a segunda colocação no Campeonato Inglês. O Wolverhampton de Billy Wright aparecia quatro pontos acima, com uma partida a menos. Já o Blackpool de Stan Mortensen estava atrás dos Reds apenas no goal average (o critério de desempate da época), mas com três jogos a mais. Middlesbrough, Manchester United e Stoke City tentavam se aproximar mais abaixo.

O Liverpool levou certo tempo até embalar, também com frequentes problemas de lesão e rotação de seus jogadores. Venceu o Portsmouth na retomada da liga, mas empatou com o Derby County no final de março e, em dias seguidos no início de abril, empatou com o Preston North End e perdeu o confronto direto com o Blackpool. Os Tangerinas até chegaram a ocupar a liderança, mas o excesso de partidas a mais não permitiu sustentarem a condição por muito tempo. Enquanto isso, o Wolverhampton passou a encadear tropeços.

O crescimento do Liverpool se deu a partir de 7 de abril, com a vitória por 3 a 0 sobre o Preston – quando, anedoticamente, Bill Shankly perdeu um pênalti aos adversários. Nas últimas oito rodadas, os Reds conquistaram sete vitórias e empataram em apenas um duelo – mesmo realizando seus últimos quatro confrontos fora de casa. Stubbins atravessou uma fase particularmente inspirada e anotou oito gols nesta reta final. Entre suas grandes atuações, chegou a definir o triunfo por 1 a 0 no clássico contra o Manchester United, em Anfield.  “Nosso espírito de equipe durante aquelas últimas rodadas foi tão bom quanto qualquer outra coisa que eu tivesse experimentado. Não poderia ter existido uma atmosfera mais feliz em qualquer outro lugar”, relembrou Billy Liddell, ao ser homenageado anos depois em Anfield.

Ainda assim, a arrancada não seria suficiente para o Liverpool se desgarrar tanto da concorrência, em tempos nos quais as vitórias valiam apenas dois pontos. O Wolverhampton se recuperou em meados de abril. O Manchester United também melhorou seus resultados e entrou no páreo, o que tornou o triunfo dos Reds no confronto direto ainda mais importante. E o Stoke City, estrelado pelo lendário Stanley Matthews, ganhou ares de favorito quando venceu sete partidas seguidas do início de abril ao início de maio.

O problema do Stoke City veio em 10 de maio, após um amistoso entre Reino Unido e Resto da Europa no Hampden Park. A relação de Stanley Matthews com o técnico Bob McGrory não estava boa e, durante a pausa para o duelo internacional, os Potters venderam o melhor jogador do futebol inglês ao Blackpool. Durante seus últimos três compromissos, o Stoke não contaria com o ponta de 32 anos – que também não se juntou de imediato aos Tangerinas, já fora do páreo àquela altura da Football League.

Em 17 de maio, o Wolverhampton iniciou o final de semana na liderança, com 53 pontos. Liverpool e Stoke City somavam 52, enquanto o Manchester United também possuía 52, mas com uma partida a mais. Os Red Devils saltaram aos 54, com o triunfo por 3 a 0 sobre o Portsmouth. Os Wolves também foram a 54, ao empatarem com o Blackburn. Já Reds e Potters subiram a 53, sem passarem de um empate em seus respectivos confrontos na rodada.

Em 24 de maio, o Liverpool derrotou o Arsenal de virada por 2 a 1 em Highbury, assumindo a liderança provisória com 55 pontos. Dois dias depois, o Wolverhampton chegou a 56 pontos ao bater o Huddersfield. O Manchester United encerrou sua participação com 56 pontos, ao golear o Sheffield United por 6 a 2. Já o Stoke City alcançou os 55 graças à vitória sobre o Aston Villa. Neste momento, os Red Devils terminavam sua campanha sem mais chances de título. Enquanto isso, todos os outros concorrentes tinham um jogo por fazer, com direito ao confronto direto entre Wolverhampton e Liverpool no Estádio Molineux.

No topo da tabela de maneira praticamente ininterrupta desde o Natal, os Wolves dependiam apenas da vitória para comemorar o título. Mais de 50 mil torcedores encheram as arquibancadas do Molineux, num dia quente e ensolarado de primavera. Durante o primeiro turno, em dezembro, os líderes golearam por 5 a 1 em Anfield. No entanto, o Liverpool provou sua força naquele reencontro em 31 de maio. Ainda no primeiro tempo, Balmer abriu o placar e Stubbins aumentou a vantagem, puxando um contra-ataque fulminante desde o meio-campo. O Wolverhampton descontou na segunda etapa, com Jimmy Dunn, mas parou nas grandes defesas do goleiro Cyril Sidlow e não evitou a decepção. Com o triunfo por 2 a 1, o Liverpool ultrapassou os Lobos e assumiu a liderança com 57 pontos.

“Aquele dia era mais adequado para o críquete do que para o futebol. Estava extremamente quente e eu me lembro de comentar com Stubbins sobre o grande número de torcedores usando roupas de verão. Marcamos primeiro com Balmer e, depois que Stubbins ampliou, pensamos que o jogo estava no bolso. Os Lobos, no entanto, nunca foram uma equipe de desistir fácil. Stan Cullis [lendário técnico do Wolverhampton, em seu último jogo pela liga como atleta] foi uma grande inspiração, incentivando seus jogadores e fazendo-os lutar como se suas vidas estivessem em jogo. Jimmy Dunn descontou, mas foi tudo o que os Wolves conseguiram, em grande parte porque nossa defesa teve grande atuação”, rememorou Liddell.

De qualquer forma, o Liverpool precisou aguardar até 14 de junho para confirmar a taça. Dois pontos atrás, o Stoke City possuía um goal average superior e encerraria a campanha no último jogo atrasado do Sheffield United. As duas equipes mediram forças em Bramall Lane e um triunfo simples bastaria ao título inédito dos Potters. Stanley Matthews fez falta. Mesmo sem três titulares, o Sheffield (sexto colocado no campeonato) arrancou a inesperada vitória por 2 a 1. Aos 38 anos, o capitão Jack Pickering disputou seu único jogo na temporada e seria decisivo, ao definir o placar. Enquanto o Liverpool finalmente podia soltar o grito de campeão, o Stoke encerrou sua campanha na quarta colocação – ainda assim sua melhor classificação na história.

No mesmo 14 de junho, o Liverpool também entrou em campo, para enfrentar o Everton por uma copa local. O jogo em Anfield começou 15 minutos depois do pontapé inicial em Bramall Lane. Os Reds celebraram dois títulos no mesmo momento, também com o triunfo sobre os rivais por 2 a 1. “Embora nossos pensamentos estivessem mais no que acontecia com o Stoke, batemos o Everton. Os últimos dez minutos foram mera formalidade, diante das notícias nos auto-falantes de que o Sheffield havia vencido e a Football League era nossa. A torcida nem se importou com o que aconteceu no dérbi depois disso. Tudo o que queriam era o apito final, para que invadissem o campo e nos carregassem nos braços. Foi uma cena incrível”, contou Liddell.

A bola do jogo em Bramall Lane seria levada ao presidente Billy McConnell. Com um câncer terminal, o dirigente estava hospitalizado no dia da conquista e permaneceu cinco semanas em tratamento. Torcedor dos Reds desde a infância e parte da diretoria a partir de 1929, o ex-açougueiro deixaria o hospital pouco depois e realizaria seu sonhou: levou a taça da sede da Football League a Anfield, desfilando em carro aberto pela cidade. Já em agosto, aos 59 anos, McConnell faleceu. Centenas de torcedores compareceram ao seu funeral.

O Campeonato Inglês de 1947/48 voltaria a ser disputado com partidas no meio da semana. O Liverpool cairia bastante de rendimento e terminaria a campanha apenas no 11° lugar. Seriam 17 anos de jejum, com uma passagem considerável de oito temporadas pela segunda divisão, até que Bill Shankly reconduzisse os Reds ao topo da Inglaterra em 1964. A ansiedade daquele passado relembra o que acontece nessas últimas semanas. Ao menos, os Reds não precisarão de nenhuma reviravolta em campo para ficar com a taça. Contudo, o jogo precisa favorecê-los nos bastidores da Premier League.