Yosef Dagan não é um nome reconhecido de imediato pela maioria absoluta dos fãs de futebol. No entanto, certamente você já comemorou uma vitória ou lamentou uma derrota graças à grande contribuição do israelense ao esporte. Dagan pode não ter feito tanta fama por isso, mas foi o responsável por instituir a disputa por pênaltis como meio para desempatar uma partida – em história ainda com diferentes versões. Muita gente agradece ao veterano pela inovação. Aos 93 anos, Dagan faleceu neste domingo e merece ser recordado pelo legado.

Dagan atuou ao longo de sua carreira como funcionário da federação israelense. Passou por diferentes cargos na entidade, inclusive o de secretário-geral e o de técnico da seleção. “Yossi Dagan foi uma figura significativa no crescimento de nosso futebol e no desenvolvimento da federação. Por décadas, ele doou seu tempo, estabelecendo a marca internacional da associação”, declarou Rafham Kamar, atual chefe-executivo da federação israelense.

Até a década de 1960, os critérios de desempate no futebol eram problemáticos. As equipes costumavam disputar infindáveis prorrogações ou jogos-desempate para definir o classificado, caso a igualdade persistisse. Quando não havia tempo hábil, apelavam a outros métodos, como o “cara ou coroa” ou o “sorteio de papeizinhos”. Assim, já naquele momento, surgiam as primeiras ideias de uma disputa por pênaltis em diferentes partes do mundo – com suas variações. Há registros de inovações do tipo na Iugoslávia, na Itália, na Suíça e no Equador, embora a experiência mais famosa tenha ocorrido na Espanha. Em 1962, após sugestão de Rafael Ballester, o Troféu Ramón de Carranza terminou definido na marca da cal.

Dagan entra nessa história em 1965, quando convenceu o presidente da federação israelense a experimentar a disputa por pênaltis na Copa de Israel, com intuito de evitar jogos-desempate. Não está claro se o dirigente teve a ideia por si ou se haveria inspiração em algum outro torneio que já adotara o método. De qualquer maneira, seria em 1968, durante os Jogos Olímpicos da Cidade do México, que a iniciativa do israelense se expandiria.

Presente no torneio de futebol, Israel avançou na fase de grupos e enfrentou a Bulgária nas quartas de final. Os oponentes abriram o placar logo no início da partida, com Georgi Hristakiev, mas os israelenses buscaram o empate aos 44 do segundo tempo, com Yehoshua Feigenbaum, e forçaram a prorrogação. O empate por 1 a 1 prevaleceu e, sem tempo suficiente a um novo encontro, o sorteio seria realizado. Israel perdeu no papelzinho, os búlgaros terminaram com a prata posteriormente e um sentimento de injustiça tomou Dagan.

“Sabíamos que não era a maneira certa de decidir um jogo e eu já conhecia qual era uma forma mais justa de apontar o classificado. Esporte é sobre equidade e temos que dar aos dois times a chance de decidir o vencedor”, declarou Dagan ao escritor Ben Lyttleton, autor do livro ‘Twelve Yards: The Art and Psychology of the Perfect Penalty Kick’.

Ao lado de Michael Almog, o presidente da federação israelense, Yosef Dagan teria tomado a iniciativa de apresentar formalmente a sua sugestão da disputa por pênaltis à Fifa e à International Board. Em agosto de 1969, ao lado de Almog, ele assinou um artigo publicado na revista oficial Fifa News. “O sorteio é imoral e até mesmo cruel. É injusto ao time perdedor e não é honrável ao vencedor”, declarava. A classificação da Itália sobre a União Soviética na semifinal da Euro 1968, também através de sorteio, foi outro evento cabal para aumentar a pressão pela mudança no modelo de desempate.

Outro a reivindicar a paternidade dos pênaltis é o alemão Karl Wald. O árbitro igualmente não gostava dos sorteios e já realizaria a disputa por pênaltis em torneios que apitava, de base ou amadores. A partir da federação bávara, ele teria conseguido fazer os dirigentes de seu país levarem a ideia dos pênaltis às instâncias superiores. Até por seu artigo enviado à Fifa, todavia, a influência de Dagan parece bem mais preponderante. Amigo do árbitro malaio Koe Ewe Teik, membro da International Board, o israelense ainda teria o convencido a reforçar a sugestão à entidade que define as regras do jogo.

Fato é que, seja sugerida por Israel ou pela Alemanha, a adoção da ideia aconteceria em 27 de junho de 1970. A IFAB se reuniu na Escócia dias depois da final da Copa do Mundo e bateu o martelo. A primeira disputa por pênaltis da história ocorreu em pouco tempo, em agosto de 1970, na extinta Copa Watney – um torneio de pré-temporada que reunia clubes das quatro primeiras divisões do Campeonato Inglês. O Manchester United eliminou o Hull City na marca da cal. George Best foi o primeiro a executar uma cobrança, convertendo o chute, enquanto Denis Law se tornou o primeiro a perder. Por sorte, os Red Devils virariam a contenda.

Dagan receberia homenagens ainda em vida por seu pioneirismo. Em 1999, o israelense foi convidado de honra da Uefa e ganhou um prêmio por sua contribuição ao esporte. É o agradecimento que muitos aficionados pelo futebol também fazem ao veterano. É difícil encontrar alguém que não goste de apreciar a inovação de Dagan – logicamente, se não for o seu próprio time presente na disputa por pênaltis. A história da modalidade mudou graças ao dirigente.