Nascer em 29 de fevereiro é um privilégio. E, entre os futebolistas brasileiros que vieram ao mundo no “dia a mais” dos anos bissextos, o nome mais relevante é o de Manoel Maria. Ídolo do Santos e um dos grandes amigos de Pelé no clube, o ponta direita driblador teve uma carreira relativamente breve – muito por conta de um acidente de carro que quase tirou sua vida e interrompeu sua ascensão com apenas 22 anos. Em compensação, pôde disputar Jogos Olímpicos, ser cogitado à Copa de 1970 e terminar eleito como o melhor de sua posição na seleção do Século XX do futebol paraense. Um craque que merece essa homenagem bissexta, no dia em que completa 72 anos de idade – ou 18, se assim preferir.

Manoel Maria nasceu em Belém, em 29 de fevereiro de 1948, embora suas raízes boleiras estivessem fincadas em Santarém. Seu pai, Davi Natanael, foi um importante personagem do futebol na cidade do interior: não só fundou o São Raimundo, um dos principais clubes locais, como também jogou e treinou os alvinegros. Mais do que isso, também trabalhou como técnico do São Francisco, o maior rival. Foi campeão municipal por ambas as equipes e ainda presidiu a liga santarena de futebol.

Ainda na adolescência, Manoel Maria passou pelo União Esportiva, de Belém, e também defendeu as categorias de base do Remo. Mas, sem espaço com os remistas após fraturar um braço, mudou-se a Santarém, onde o histórico familiar pesou para vestir as cores do São Raimundo. Ganhou suas primeiras chances na equipe principal dos alvinegros e também passou a compor a seleção da cidade num torneio entre municípios do Pará. O jovem de 18 anos foi tão bem que atraiu o interesse da Tuna Luso e, no ano seguinte, fechou contrato com os cruzmaltinos, em negócio que o Remo até tentou atravessar.

A ascensão meteórica de Manoel Maria se seguiu na Tuna Luso. O ponta direita arisco e de muita qualidade nos dribles tornou-se um dos destaques da equipe. Eleito como a revelação do Campeonato Paraense de 1967, o jovem também fez seu nome com ótimas atuações em uma excursão pelo Amazonas. Anotou cinco gols na turnê invicta da Lusa, com cinco vitórias e três empates. Em alta, também figuraria na seleção do ano do futebol paraense, apontado de forma unânime pelos cronistas esportivos que participaram da votação. Era difícil encontrar alguém que não se encantasse com o futebol cheio de habilidade do garoto.

A projeção nacional de Manoel Maria dependeu de certo apadrinhamento – segundo o livro “Gigantes do Futebol Paraense”, de Ferreira da Costa. Por recomendação do presidente da federação paraense ao amigo João Havelange, então mandatário da CBD, o ponta seria convocado à preparação ao Torneio Pré-Olímpico de 1968, disputado na Colômbia. A politicagem pesou e seria natural ver com desconfiança o espaço dado ao paraense, num elenco restrito a jogadores de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, desde os jogos-treino, o garoto comeu a bola, atraindo o interesse de clubes como o Flamengo.

Manoel Maria confirmou-se no elenco que viajou à Colômbia para o Pré-Olímpico. Foi o primeiro atleta em atividade por um clube do Pará a disputar uma partida pela Seleção. E ele brilharia ainda mais ao longo da competição. Ganhou a titularidade, marcou um gol contra a Venezuela e se tornou uma importante válvula de escape no time que conquistou a classificação às Olimpíadas da Cidade do México. Não tinha sido ainda profissionalizado pela Tuna Luso e, desta forma, parecia uma pechincha.

“Manoel Maria é craque mesmo. Ganhei da Colômbia fazendo o jogo pelo lado dele e nas primeiras bolas que pegou, driblou sempre o lateral deles, que era o principal apoiador do time. Depois daquela, o colombiano não saiu mais da área”, derreteu-se o técnico Antoninho Fernandes. Convencer o treinador seria importante não apenas à carreira de Manoel Maria na seleção olímpica. Por tabela, o alto nível garantiu a ele uma chance no melhor clube do país: Antoninho também comandava o Santos na época e facilitou a contratação do jovem. O Peixe pagou 80 mil cruzeiros novos, metade deles destinados à Tuna e outra metade ao jogador. Aos 20 anos, buscaria seu espaço no mítico esquadrão de Pelé.

Manoel Maria começou sua trajetória no Santos em junho de 1968, durante uma excursão pela Europa. Já na estreia diante da torcida, contra o XV de Piracicaba, fez a torcida “pensar que tinha um novo Garrincha para aplaudir”, segundo a revista Placar. Só depois ficou claro que o novato ainda não estava tão pronto assim e muitas de suas fintas eram infrutíferas. Passaria, então, a desenvolver os seus fundamentos – como, por exemplo, os chutes com o pé esquerdo e as cobranças de escanteio.

Em outubro de 1968, Manoel Maria vestiu a camisa 7 da Seleção nos Jogos Olímpicos, mas uma expulsão logo na estreia da competição custou seu espaço – e o Brasil, eliminado logo na fase de grupos, também não teria vida longa. Já na volta à Vila Belmiro, o jovem de 20 anos ainda participou de uma conquista histórica dos alvinegros: o Robertão de 1968, atualmente considerado Campeonato Brasileiro. O paraense participou de três partidas na campanha, todas saindo do banco de reservas, no lugar do ponta Abel. E não demoraria a deslanchar, visto como o herdeiro de Dorval no lado direito do ataque.

Com o tempo, Manoel Maria se colocaria entre os melhores do país. O contato com grandes craques e o trabalho com Antoninho ajudaram o novato a se aprimorar. “Na Vila, ele foi deixando os defeitos de lado. Parou de jogar com a cabeça baixa, já sabe o que fazer com a bola quando chega à linha de fundo e aprendeu até a disputar a bola depois de perdê-la para o adversário”, descrevia a revista Placar, garantindo que o paraense “é considerado por muita gente como o melhor ponta-direita do Brasil de hoje, pelo seu futebol vistoso, de muitos dribles (às vezes dribles demais) e velocidade”.

O número de taças de Manoel Maria logo aumentou. Em 1969, conquistou a Recopa Sul-Americana, torneio contra Racing e Peñarol, outros antigos campeões da Libertadores. Depois, também faturou a Recopa Intercontinental, certame em moldes parecidos, contra a Internazionale. E ainda seria nome constante no título do Paulistão, mesmo na reserva durante a fase final. O ponta direita, aliás, vivenciou capítulos do Santos tão importantes quanto os troféus. Esteve presente no “jogo que parou a guerra” no Biafra e também no Maracanã durante o milésimo gol de Pelé.

Já o ápice da forma de Manoel Maria aconteceu durante os primeiros meses de 1970. O ponta arrebentou na Taça Cidade de São Paulo, competição que preencheu o calendário dos grandes paulistas entre março e abril. Com gols contra os principais rivais e ótimas atuações, o paraense de 22 anos acabou incluído na pré-convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo. E sua ida ao México pareceu bem possível, quando o botafoguense Rogério terminou cortado por lesão. O técnico Zagallo, porém, preferiu chamar Emerson Leão e moldá-lo como futuro dono da meta brasileira. Ciente de que não chegaria de última hora, Manoel Maria dizia focar sua carreira rumo ao Mundial de 1974.

Uma pena que não houve tempo para isso. Em outubro de 1970, Manoel Maria sofreu um grave acidente de carro. Derrapou seu automóvel, capotou e só parou depois de bater em um poste, bem como em uma caminhonete. Passou dias inconsciente, por conta de um traumatismo craniano. Fraturou três costelas, além de deslocar a clavícula e de lesionar a coluna. Durante a recuperação, o paraense precisou superar uma paralisia no lado esquerdo do corpo. Também lidava com uma paralisia no músculo do olho direito e com a falta de equilíbrio, que influenciavam diretamente seu estilo de jogo. No fim, sua volta aos gramados pôde ser considerada um milagre.

A reestreia de Manoel Maria pelo Santos aconteceu em agosto de 1971, durante um amistoso contra o Boca Juniors. Teve a honra de substituir Pelé. Aos 23 anos, o jovem não conseguiu retomar a carreira no mesmo nível, mas permaneceu por mais alguns meses no Santos. Fez parte do início da campanha vitoriosa no Paulistão de 1973, cujo título os santistas dividiram com a Portuguesa, após o célebre erro de contagem nos pênaltis. Entretanto, em litígio com a diretoria, rumaria à Portuguesa Santista ainda durante a campanha. O ponta veria de longe seus companheiros erguerem a taça, oficialmente a última da primeira passagem do paraense pela Vila Belmiro.

A partir de então, Manoel Maria virou andarilho da bola. Testou-se no Flamengo, mas não ficou. Passou pelo Racing, onde disputou apenas cinco jogos. Depois, defenderia o Paysandu. Esteve presente no tumultuado Re-Pa pelo Brasileirão de 1974, em que o presidente remista deu um soco no bandeirinha por conta de um gol validado. O clássico terminou com uma invasão de campo, seis torcedores baleados, outros tantos feridos e (por sorte) nenhum morto. Sem ficar por tanto tempo na Curuzu, o ponta também jogou por Coritiba, Colorado-PR, Noroeste e Corinthians de Presidente Prudente. Também teve uma rápida volta ao Santos em 1976 e ainda vestiu a camisa do New York Cosmos, em transferência facilitada por Pelé. Aposentou-se em 1977, aos 29 anos.

Se o acidente impediu a progressão de Manoel Maria, o atacante ao menos conseguiu registrar bons números pelo Santos, com 165 partidas e 34 gols. E a contribuição do paraense na Vila Belmiro iria além, a partir dos anos 1990. Trabalhando nas categorias de base do Peixe, virou um grande formador de talentos, sobretudo ao lapidar a geração de Diego e Robinho. Também dirigiu o primeiro time feminino santista, em 1997. Fundou sua própria escolinha de futebol, bem como depois atuou nas bases de Jabaquara e Portuguesa Santista. E, como se não bastasse, os filhos de Manoel Maria passaram pela base do Santos como treinadores. Dedicação que complementa a história nos gramados desse grande personagem.

* Agradecimento especial ao amigo Caio Brandão, de grandiosíssima valia com as fontes. Valeu!