Em novembro de 2003, a Uefa comemorou o seu cinquentenário elegendo os melhores jogadores de cada um de seus membros. Vários craques acabaram homenageados: Puskás, Cruyff, Fritz Walter, Fontaine, Bobby Moore, Eusébio, Yashin e tantos outros que aparecem em qualquer lista de maiores da história. Porém, entre os 52 nomes, um especial chama atenção. Enquanto a maioria absoluta marcou época em suas seleções (exceção feita àqueles que atuavam quando os seus países ainda não eram independentes), o eleito da Grécia disputou apenas dois jogos por sua equipe nacional. Vasilis Hatzipanagis, uma lenda marginal que jogava muita bola, mas que poucos sabem de sua existência.

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Hatzipanagis, na verdade, não nasceu na Grécia. O meio-campista era filho de refugiados políticos do país (pai cipriota e mãe turca), que se exilaram na União Soviética durante a Guerra Civil Grega no final da década de 1940. O garoto cresceu na cidade de Tashkent, atual Uzbequistão, e logo passou a brilhar com a camisa do Pakhtakor, clube que recebeu investimentos estruturais após o sucesso da URSS na Copa de 1966.  Estreou no time principal aos 17 anos, ajudando na conquista do acesso à primeira divisão soviética. Com o talento reconhecido como o segundo melhor jogador da liga em 1974 e 1975, o jovem disputou quatro partidas pela seleção olímpica. E só não era titular do time principal porque concorria na posição com Oleg Blokhin, vencedor da Bola de Ouro em 1975.

Naquela mesma época, no entanto, Hatzipanagis deixou a União Soviética. Em 1974, a Grécia restabeleceu a democracia, com a queda da monarquia e a saída da junta militar que governou o país durante um ano e meio. Era hora de voltar para casa e ajudar a construir a Terceira República Helênica. O problema estava no processo de repatriação, dificultado pela legislação soviética. Por isso, apesar do interesse do Olympiacos, o craque foi obrigado a se transferir a um time de Tessalônica, onde possuía laços familiares. Foi parar no Iraklis, clube mediano que não conquistava um título do Campeonato Grego desde a década de 1940. Tornou-se um deus para a fanática torcida. Um Hércules que enfrentaria muitos percalços ao longo da carreira.

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Logo em sua primeira temporada, Hatzipanagis deu uma taça ao time, conquistando a Copa da Grécia de 1976. Marcou dois gols no emocionante empate por 4 a 4 com o Olympiacos, que terminou com vitória dos tessalonicenses nos pênaltis. Acabou convocado para a seleção grega, disputando um amistoso contra a Polônia em maio daquele ano. Todavia, a Fifa proibiu o craque de defender o seu país. Segundo as regras vigentes na época, a participação pela seleção olímpica da União Soviética era suficiente para barrar a sua mudança.

Longe da seleção, Hatzipanagis também nunca pôde fazer sucesso em uma grande liga. O contrato que havia assinado com o Iraklis o tornava praticamente um escravo – segundo a federação grega, a cada ano, seu vínculo podia ser renovado pelos próximos dez. Em 1977, o jogador entrou na justiça contra o clube e ganhou a causa, mas os alviazuis venceram o apelo. Uma espécie de Bosman de seu tempo, que só livraria seus colegas do problema com a mudança da regra na década seguinte. Sem poder nem mesmo defender as potências locais, o camisa 10 passou a ser motivo de peregrinação no país. Torcedores saíam de todos os cantos para vê-lo no Estádio Kaftanzoglio, com camisas e cachecóis em seu nome.

As tentativas de sair, aliás, não foram poucas. Em 1977, enquanto fazia um tratamento em Londres, gerou o interesse do Arsenal – clube que tem forte presença entre a comunidade cipriota na cidade. Nada feito. Quatro anos depois, quando entrou em litígio com o Iraklis, rebaixado por ser acusado de vender seus resultados, o meia treinou por 18 meses no Stuttgart. Também sem sucesso na transferência. Assim se sucedeu também com propostas de Olympiacos, AEK, Lazio, Porto e Dynamo Moscou. A última tentativa foi feita pelo Panathinaikos, então administrado por Yiorgos Vardinogiannis, magnata da navegação. O empresário ofereceu cerca de £ 1,85 milhões ao Iraklis – que, naquele momento, superaria o que a Juventus pagou por Paolo Rossi como transferência mais cara da história. Diante de mais uma recusa, o craque se resignou a permanecer em Tessalônica até o final da carreira.

As raras aparições internacionais de Hatzipanagis aconteceram por copas europeias. Em 1977, o time caiu na primeira fase da Recopa diante do Apoel. Já entre 1989 e 1990, o Iraklis também foi eliminado na etapa inicial da Copa da Uefa, contra Sion e Valencia. A visita ao Mestalla, inclusive, marcou a aposentadoria do veterano. Sua maior aparição, entretanto, aconteceu em um simples amistoso. Em 1984, Hatzipanagis fez parte de uma seleção do mundo que enfrentou o New York Cosmos, em jogo beneficente organizado pela Unicef. O grego atuou ao lado de craques do calibre de Beckenbauer, Kempes, Keegan e Neeskens.

Assistindo aos vídeos de Hatzipanagis, é fácil entender a sua convocação. “Eu acredito no talento. Talento não é nada sem trabalho duro, mas você precisa de talento. Minha perna direita só servia para ficar em pé, mas a esquerda tinha muito talento. E eu trabalhei duro”, declarou à revista The Blizzard. A canhota fenomenal fazia o camisa 10 ser chamado de ‘Maradona da Grécia’. Além disso, era fã de George Best e comparado com Nureyev, um dos maiores bailarinos soviéticos do século. Baixinho, entortava os marcadores com suas fintas. Além disso, era exímio cobrador de faltas, com seis gols olímpicos no currículo.

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Hatzipanagis comenta sobre o seu passado, resignado: “Como é frustrante pensar que meu pai queria se mudar a Londres em 1963, mas minha mãe não deixou. Imagine a carreira que eu poderia ter se crescesse na Inglaterra? Quando eu parei de jogar, em 1991, todas as leis em prol dos jogadores começaram. Eu gostaria de ter nascido 15 anos depois. Com a liberdade de contrato que os jogadores têm agora, eu não ficaria na Grécia. Eu lamento por não ter feito carreira fora do país. Se eu pudesse jogar em uma liga menor, eu me destacaria mais. Se eu pudesse voltar no tempo, faria as coisas diferentes”.

A maior lacuna na vida do camisa 10, ainda assim, é outra. Ele lamenta muito o fato de não ter servido à seleção grega. “Não poder jogar pela Grécia foi uma grande injustiça. Todo grego diz isso, mesmo os que moram fora do país. Acho que a federação grega não lidou bem com a situação. O que eu poderia fazer? Sou inteiramente grego e esta é uma amargura. É como se tivessem cortado minha carreira. Sou grato à URSS e às pessoas de Tashkent, mas sou patriota. Tenho sangue grego em minhas veias. Por isso que qualquer grego diz que sou o jogador mais injustiçado. Eu queria muito jogar pela seleção e nunca pude”.

Em dezembro 1999, ao menos, a Grécia homenageou a Hatzipanagis. Preparou um amistoso festivo contra Gana e, aos 45 anos, o camisa 10 entrou em campo com a camisa azul. Teve o gosto de receber o reconhecimento que nunca pôde.

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