Até há algum tempo, o termo “homem da Renascença” costumava ser usado para designar aqueles que, pelos seus inúmeros talentos e interesses, destacavam-se em diversos ofícios. Em sua trajetória no futebol, nos primórdios do jogo no Brasil, Belfort Duarte foi jogador, capitão, técnico, dirigente, por vezes árbitro e até uma espécie de relações públicas. Em suma, foi símbolo. Na mesma data, esta terça-feira, comemoram-se 135 anos de seu nascimento e um século de sua morte, ele que foi e é um personagem histórico do America carioca e nome fundamental para colocar o clube entre as potências do futebol do Rio na década de 1910.

VEJA TAMBÉM: Os 90 anos do “Doutor” Rubens: De fenômeno de massa a relíquia esquecida

Nascido em São Luis (Maranhão) em 27 de novembro de 1883, João Evangelista Belfort Duarte era filho de família influente: seu pai fora o primeiro governador republicano daquele estado e, mais tarde, embaixador brasileiro em Londres. Nos primeiros anos do novo século, o jovem seguiu para São Paulo, onde estudou no prestigioso Mackenzie College e conheceu Gabriel de Carvalho, com quem jogou pelo time do educandário, um dos mais fortes do futebol paulistano, atuando inclusive no primeiro jogo oficial de futebol no Brasil, contra o Germânia, em 1902.

Mais tarde, diplomado em Engenharia, Belfort Duarte mudou-se para o Rio, então capital federal, onde logo arranjou um emprego na Light, a companhia de eletricidade da cidade, e também reencontrou Gabriel de Carvalho. O maranhense pretendia seguir jogando futebol e ingressar no Fluminense, então o clube mais poderoso do futebol carioca, mas o amigo conseguiu persuadi-lo a entrar para o clube que defendia, embora este enfrentasse sérias dificuldades.

A revolução no America

Belfort se associou ao America em dezembro de 1907, num momento crítico para o clube, que havia rompido com a Liga de Football do Rio de Janeiro – do qual havia sido um dos fundadores, dois anos antes. Sem dinheiro e sem estrutura, por pouco não foi dissolvido. Mas o novo sócio arregaçou as mangas e se pôs a trabalhar: na noite de Ano Novo, ele organizou uma reunião de confraternização, tendo também como objetivo uma discussão de ideias para reerguer o clube. Foi o que deu ao America um impulso decisivo para sobreviver.

VEJA TAMBÉM: O último brilho do America, semifinalista do Campeonato Brasileiro de 1986

Em retribuição, logo nos primeiros dias do ano seguinte, Belfort foi escolhido o capitão do time em Assembleia Geral na qual também foi eleito o presidente do clube para aquele ano. Um mês depois, o America era um dos clubes a assinarem a ata de fundação da Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA), a nova entidade que regularia o futebol carioca. E a revolução pela qual passava o clube tijucano não ficaria nisso: ele ganharia uma nova e indissociável identidade.

Pouca gente sabe, mas o America já foi alvinegro e rubro-negro. Da sua fundação, em 1904, até 1906, vestiu camisa inteiramente preta. No ano seguinte, por uma contingência, usou uma versão vermelha e preta com listras horizontais, semelhante à do Flamengo. A grande mudança se deu em 12 de abril de 1908. Foi nesse dia que se aprovou a sugestão de Belfort Duarte, por inspiração em seu velho Mackenzie, da mudança das cores do clube para vermelho e branco. Foi quando nasceu a clássica camisa rubra, que identificaria o clube dali por diante.

VEJA TAMBÉM: Os 70 anos de Edu, o craque franzino e indiscutível que virou lenda no America

A influência do jogador maranhense na história do clube não se encerra aí. Naqueles primeiros anos enquanto se reerguia, vagando pela Tijuca atrás de uma sede e um campo, o America chegou a se abrigar no porão da casa de Belfort. E só saiu de lá mais uma vez por intermédio decisivo do capitão, juntamente com o também sócio Luiz Carneiro de Mendonça, que acertaram a fusão com o Haddock Lobo, o qual entregou aos rubros o seu “ground” da Rua Campos Sales, 118 – onde até hoje se encontra a sede social do clube.

Resolver a questão do campo de jogo era um desejo antigo de Belfort: em 1908, ele chegou a propor a construção de um “ground” central na cidade, para que as equipes – especialmente as da Zona Norte, frequentemente subjugadas à influência dos clubes da Zona Sul – tivessem um local onde pudessem se enfrentar em igualdade de condições. A proposta não foi adiante, mas dali a pouco mais de 40 anos, nasceria, nos mesmos moldes, o Maracanã.

Um modelo de disciplina

Além do pioneirismo e da visão, Belfort Duarte também se destacava dentro de campo como um símbolo de disciplina. Era o primeiro a levantar o braço, antes mesmo da marcação do árbitro, para se acusar quando cometia uma infração. Seu conhecimento e sua devoção pela regra do jogo era tamanha que, em dado momento, insatisfeito com as interpretações díspares das leis, mandou buscar cópias do regulamento na Inglaterra e, com a ajuda da esposa, traduziu-as de próprio punho, no que seria a primeira versão das regras em língua portuguesa.

Era ainda um esportista gentil: foi por sua influência que pela primeira vez um time saudou a sua torcida e o adversário ao entrar em campo. Mas também não deixava de ser um jogador vibrante, que se empenhava até o fim pelas vitórias e chorava nas derrotas, bem como um líder exigente e enérgico quando preciso: não tolerava bebida e cigarro e, certa vez, em um amistoso, tirara de campo seu amigo Gabriel de Carvalho por ele ter se excedido em firulas desnecessárias.

VEJA TAMBÉM: Oto Glória, 100 anos: Estudioso, campeão em três continentes, nosso técnico “tipo exportação”

Dizia Mário Filho que Belfort era “o primeiro técnico – técnico mesmo – do futebol brasileiro. O time jogava como ele queria. Se alguém desobedecesse, estava barrado”. Os frutos desse rigor e dedicação foram colhidos em breve. O America passou a fazer campanhas mais consistentes e adquirir prestígio. Em agosto de 1911, fez seu primeiro jogo fora do Rio, a convite do Paulistano, campeão de São Paulo, no Velódromo. Em outubro do mesmo ano, tornou-se o primeiro time carioca a jogar em Belo Horizonte, onde venceu o Yale por 1 a 0.

O primeiro título

Para marcar a afirmação definitiva do America como um dos grandes clubes da cidade, só faltava mesmo o título. E ele viria em 1913, com Belfort Duarte na zaga, além de outros nomes que se tornariam históricos nos primeiros tempos do clube. Eram os casos do goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, do ponta-direita Guilherme Witte (o “homem de borracha”), do meia Gabriel de Carvalho (o amigo de Belfort) e do centroavante chileno Fernando Ojeda.

VEJA TAMBÉM: Taça dos Campeões de 1982: A heroica conquista nacional do America-RJ completa 35 anos

O campeonato começou com a participação de dez equipes, das quais três seriam eliminadas do returno. E o America largou arrasador, goleando o Americano do Rio (não confundir com o de Campos) por 9 a 1, o Mangueira por 5 a 0 e o São Cristóvão por 7 a 1. Em seguida, bateu o Fluminense nas Laranjeiras por 3 a 1 e arrancou uma difícil vitória por 1 a 0 sobre o Rio Cricket, clube “dos ingleses de Niterói”, em Campos Sales.

A primeira derrota veio na sexta partida, para o Botafogo em General Severiano (2 a 0). Mas o time se recuperou e fechou o turno vencendo o Bangu (3 a 0), o Paissandu (3 a 0) e o Flamengo (1 a 0), jogando sempre em Campos Sales. O campeonato foi então interrompido durante o mês de setembro devido à visita da seleção do Chile, que fez quatro partidas na cidade, uma delas contra o America, naquele que seria o primeiro jogo internacional da história do clube.

Na primeira partida do returno, o time voltou a vencer o Fluminense, agora em Campos Sales, por 5 a 4. Em seguida voltou a perder para o Botafogo, novamente em General Severiano (1 a 0), antes de ganhar os pontos do jogo com o Paissandu pelo não comparecimento do adversário. Na rodada seguinte, mais uma difícil vitória sobre o Rio Cricket, desta vez em Niterói (2 a 1), e em seguida, a terceira derrota, 1 a 0 para o Flamengo.

VEJA TAMBÉM: Há 80 anos, clubes cariocas chegaram à paz e unificaram o Estadual do Rio de Janeiro

Mesmo com o revés diante dos rubro-negros, o America chegou ao seu último jogo – uma partida adiada com o São Cristóvão – precisando apenas do empate para levantar a taça. Mas o time, muito desfalcado, perdeu por 1 a 0, terminando empatado em pontos com Flamengo e Botafogo. Dois dias depois, no entanto, soube-se que o clube cadete colocara em campo um jogador não inscrito na liga, fazendo-se passar por seu irmão (este sim inscrito). A questão foi para o conselho da liga, o qual decidiu, por 8 votos a 2, pela anulação do jogo, que foi remarcado.

A crise em meio à glória

Os desfalques na partida anulada se deveram a algo que o America voltaria a enfrentar muitas vezes ao longo de sua história: uma crise política e institucional que atingiria o elenco bem no meio de um bom momento do time. Acontece que o ano de 1913 já se desenhava turbulento em razão do processo sucessório da diretoria, e que tinha Belfort Duarte (então acumulando o cargo de tesoureiro) como um dos personagens centrais.

VEJA TAMBÉM: A única conquista de um dos bastiões do futebol carioca: Os 90 anos do título do São Cristóvão

A enorme influência do maranhense no clube incomodava e por muitas vezes conflitava o próprio presidente do clube, Alberto Carneiro de Mendonça, que renunciaria ao cargo em agosto. Em outubro, uma eleição é convocada e aponta Guilherme Medina como novo mandatário, mas ele também renuncia quase imediatamente, buscando uma conciliação entre as chapas, o que não ocorre. Um mês depois, em novo pleito, Medina é novamente eleito, o que provoca uma ruptura interna, com a saída de vários sócios, em especial a família Carneiro de Mendonça.

É nesse contexto de deserção, inclusive de jogadores (que também eram associados), que vem a derrota para o São Cristóvão. E com a anulação da partida, há uma pacificação temporária: pelos jornais, Belfort anuncia que deixará seu cargo de dirigente caso os desertores aceitem voltar para a partida decisiva. O grupo retorna e, com time completo, o America bate o São Cristóvão por 1 a 0, gol de Guilherme de Carvalho, e enfim comemora seu primeiro título.

VEJA TAMBÉM: Os 70 anos de Moça Bonita, a relíquia do Bangu encravada no coração do futebol carioca

Logo em seguida, no entanto, os dissidentes deixam o clube de modo definitivo. A perda mais sentida seria a de Marcos Carneiro de Mendonça, que se transferiria para o Fluminense, onde se sagraria tricampeão carioca ao fim da década e ainda entraria para a história como o goleiro da primeira partida oficial da Seleção Brasileira, em 1914. Além dele, também deixaram o America seu irmão Luiz Carneiro de Mendonça (que atuava na zaga ao lado de Belfort Duarte), o trio de médios Mendes, Jonatas e Lincoln e o ponta-esquerda Aleluia.

O fim da carreira e da vida

Para repor as perdas com a saída dos dissidentes, o America trouxe reforços de peso para o campeonato de 1914: chegaram o goleiro Casimiro do Amaral, da seleção paulista, o zagueiro chileno Héctor Parras, o médio-direito Badu, do Mangueira, e os irmãos uruguaios Augusto e Juan Carlos Bertoni. Mas o time não conseguiu superar o Flamengo – que levantou seu primeiro título carioca – e terminou com o vice-campeonato. Seria ainda o último campeonato completo com a presença de Belfort Duarte no centro da defesa americana.

VEJA TAMBÉM: Marinho, o ponta de futebol moleque e símbolo do Bangu, completa 60 anos

Em abril de 1915, antes do início da temporada regular, o America recebeu um combinado de jogadores alemães radicados em São Paulo para a disputa de um amistoso em benefício da Cruz Vermelha. Venceu com facilidade por 6 a 1. Mas, durante a partida, Belfort lesionou-se com gravidade e teve de deixar o campo. Em meio às infrutíferas tentativas de se recuperar, ainda disputou as primeiras partidas do campeonato daquele ano – a última delas diante do Flamengo, numa vitória rubro-negra por 4 a 2, pela quinta rodada, em 11 de julho.

Penduradas as chuteiras aos 31 anos, Belfort ainda participaria por algum tempo da vida do clube, mas aos poucos se afastaria. O America agora já era outro, e sua influência havia diminuído. Naquele ano de 1915 começaria o quadriênio de Fidelcino Leitão na presidência, no qual o clube registraria um notável crescimento em termos de organização e estrutura. E o segundo título carioca, em 1916, veio confirmar a colocação do clube entre os grandes da cidade.

VEJA TAMBÉM: O Olaria de 1971: A curta, porém intensa, “Era de Ouro do Alvianil da Rua Bariri”

O afastamento gradual de Belfort significou deixar até mesmo a capital federal. Mudou-se com a família para um sítio em Campo Belo, distrito de Resende, no estado do Rio. E lá morreria de forma trágica, numa triste ironia pelo que representou em vida: seria assassinado em meio a uma disputa de posse de terra, no dia de seu aniversário de 35 anos. Segundo sua filha, Belfort morreu vestindo a camisa do America. Entre outras homenagens, o clube decretou luto oficial de 30 dias, com bandeiras hasteadas a meio mastro.

Apaixonado pelo clube rubro, o maranhense acreditava ter como missão espalhar novos Americas pelo Brasil e chegou a visitar dezenas de cidades do país para incentivar a fundação de clubes inspirados nos tijucanos, sendo quase sempre bem-sucedido. Após sua morte, chegou a receber homenagens até de clubes com os quais nunca tivera relação: em 1932, o Coritiba recebeu o America para a inauguração de seu estádio na capital paranaense, que levava o nome de Belfort Duarte até ser rebatizado como Couto Pereira em 1977.

Mas talvez o maior reconhecimento de sua carreira e de sua defesa do jogo limpo foi a criação do Prêmio Belfort Duarte pelo Conselho Nacional do Desporto (CND), em 1946 (e vigente até 1981). O jogador que permanecesse dez anos sem ser expulso de campo, tendo completado pelo menos 200 jogos entre partidas nacionais e internacionais, recebia um diploma, uma medalha e uma carteirinha que lhe dava livre acesso a todos os estádios do país.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.