Por Leandro Vignoli*

Com o título do Bayern na Champions League, Alphonso Davies se tornou o primeiro jogador do Canadá a vencer a competição. Quase uma sutil ironia que Davies cresceu em Edmonton, a cidade onde brilhou Wayne Gretzky, talvez o maior jogador de hóquei de gelo na história, em um país em que o hóquei é mais que esporte nacional, mas encravado na cultura local. Davies nasceu em um campo de refugiados em Gana, de pais da Libéria que fugiram da guerra civil no país, antes da família se mudar para Edmonton (via um programa nacional de exílio e refugiados de guerra) e, aos 14 anos, se mudou para jogar pelos Vancouver Whitecaps. Oficialmente, o jogador do Bayern se tornou cidadão canadense apenas em 2017. 

A história de Davies não é necessariamente um projeto de futebol, mas o de um país. De acordo com relatório das Nações Unidas, em 2018, o Canadá foi o país que acolheu o maior número de refugiados do mundo (28 mil) e o segundo em número de cidadanias (18 mil, para pessoas de 162 países diferentes). Além disso, ao somar os vistos concedidos a residentes permanentes, somente em 2019 o Canadá admitiu no país um total de 341 mil imigrantes com direito ao trabalho. O Canadá tem uma população relativamente pequena (37 milhões de habitantes), e segundo o censo de 2016, 21.9% dela não nasceu no país. 

Alphonso Davies tem a história mais peculiar, pois envolve asilo político e questões humanitárias, todavia é um reflexo da relativa expansão do Canadá para outras nacionalidades. Dos 11 jogadores que começaram a partida em que o Canadá venceu os Estados Unidos, ano passado, pela primeira vez desde 1985, somente um nasceu no Canadá de pais também nascidos no Canadá: o meio-campista Samuel Piette, do Quebec. Todos os outros ou nasceram fora do país ou são da primeira geração, filhos de pais nascidos fora.

Três deles nasceram fora: Jonathan David nasceu no Brooklyn e cresceu no Haiti até os seis anos, Milan Borjan nasceu na Croácia, Scott Arfield nasceu na Escócia. Outros, foram os pais: Richie Laryea, os pais são de Gana; Steven Vitória, são do Açores; Derek Cornelius, o pai é do Barbados e a mãe, da Jamaica; Kamal Miller, a mãe é de Trinidad e Tobago; Mark-Anthony Kaye, a mãe da Jamaica; Jonathan Osorio, os pais são da Colômbia. Lucas Cavallini, que entrou no segundo tempo e fez um gol contra os EUA, o pai é nascido na Argentina.

E ainda vai além, se considerar todos os 23 convocados para aquele jogo, como figuras conhecidas na seleção como Amer Didic, Doneil Henry e Junior Hoilett, apenas quatro não eram ao menos de primeira geração. Ao somar outros 15 jogadores convocados para os amistosos contra o Barbados, em janeiro de 2020 (basicamente uma seleção reserva), o número é ainda maior. A seleção do Canadá é uma das mais multiculturais do mundo. 

A capital do mundo e uma ajudinha da diáspora

Arena de hóquei no gelo em Edmonton para o jogo entre Vancouver Canucks e Vegas Golden Knights, da NHL (Jeff Vinnick/Getty Images)

A quantidade de imigrantes no país alavancou desde a criação do Ato de Imigração de 1976, quando o Canadá adotou o modelo de quem poderia entrar, em vez de quem deveria ser barrado (que é adotado, por exemplo, pelos Estados Unidos). Existe um sistema de pontuação para os chamados “profissionais qualificados”, cuja a imigração é facilitada. O ato também mudou para um autonomia provincial, e não mais federal. Existem províncias onde as regras são facilitadas, como a Nova Escócia, todavia com o requisito de tempo mínimo de permanência. No Quebec, onde o primeiro idioma é francês, existe a exigência do idioma. 

Toronto, que é a quarta maior cidade da América do Norte (atrás de Cidade do México, Nova York e Los Angeles), com 2,7 milhões de habitantes, concentra 43% dos imigrantes do país. É uma cidade com diversos bairros étnicos, como Little Italy, Little Portugal, Chinatown, Greektown e Little Jamaica. É possível tomar café numa padaria da Guatemala, atravessar a rua e almoçar num restaurante da Etiópia. Produtos latinos e brasileiros são facilmente achados. 

A grande maioria dos jogadores da seleção vem de Toronto e região, como Osório (Toronto FC) e Cavallini (Vancouver Whitecaps), que cresceram juntos no subúrbio de Mississauga (uma espécie de Guarulhos, na região metropolitana da cidade, onde fica o aeroporto) e aos 18 anos tentaram a carreira no Nacional, do Uruguai. Osorio voltou após dois anos; Cavallini eventualmente fez carreira em pequenos clubes, como Juventud e Fênix (de Montevidéu) antes de se transferir pro México. Scarborough e Brampton (na grande Toronto), de enorme comunidade caribenha, revelou vários jogadores como Kamal Miller (Orlando SC), Hoillet (Cardiff City), Cyle Larin e Atiba Hutchinson (Besiktas) – e o maior artilheiro do país, Dwayne de Rosario, cujos os pais emigraram de Guiana.

Por um outro lado, o Canadá também passou a apostar na sua diáspora – ainda que não seja um modelo oficialmente reconhecido pela Federação Canadense. Quatro jogadores convocados para a histórica vitória contra os EUA, pela CONCACAF Nations League, nunca moraram no Canadá, incluindo o capitão Scott Arfield (Rangers), que nasceu, morou e jogou toda vida na Escócia, mas o pai é canadense (Arfield chegou a disputar torneios de base pela Escócia). 

A mesma situação do goleiro reserva Jayson Leutwiller (Blackburn Rovers), na Suíça, Juan Córdova (Huachipato), a vida toda no Chile, e o veterano David Wotherspoon (St. Johnstone), que foi convocado pela primeira vez e sempre jogou na Escócia. O goleiro titular Milan Borjan (Estrela Vermelha), o zagueiro Steven Vitória (Moreirense) e a jovem promessa Liam Millar (Liverpool) cresceram no Canadá mas nunca jogaram futebol profissional no país. A sensação Jonathan David, 20, recém contratado pelo Lille, também não.

É o caminho inverso de nomes como Owen Hargreaves, Jonathan De Guzman e Asmir Begovic, que passaram a infância no Canadá e jogaram uma Copa do Mundo por outros países –  Inglaterra, Holanda e Bósnia, respectivamente. 

A revolução Phonzie no país

Alphonso Davies jogando pelo Vancouver Whitecaps, em 2018 (Imago/Onefootball)

Claro que a presença de Alphonso Davies, o Phonzie, na final da Champions League, chama a atenção mais do que tudo, mas é significativamente importante para o futebol do país que ele tenha se desenvolvido no próprio Canadá. Antes, era muito comum os jogadores tentarem a carreira em centros maiores, por uma combinação de fatores, que vão do clima à falta de estrutura de treinos ao óbvio domínio cultural do hóquei (ainda que o Toronto Raptors tenha vencido a NBA em 2019, a grande paixão canadense, especialmente em cidades menores, é o hóquei).

Osório e Cavallini tentaram a sorte no Uruguai, o goleiro Milan Borjan teve uma bizarra trajetória no futebol argentino e, depois, na Sérvia. Steven Vitória fez toda a categoria de base no Porto, antes de (relativo) sucesso no Estoril. Samuel Piette (Montreal Impact) tentou a vida em Dusseldorf e no La Coruña, antes de voltar a cidade natal. Liam Millar, 20 anos, cujo o pai jogou no Charlton e o avô no Sunderland, chegou ao Fulham com 14 anos, antes de se transferir ao Liverpool, em 2019 (ele foi titular naquela insólita partida contra o Shrewsbury Town, pela Copa da Inglaterra, onde jogaram os reservas dos reservas).

Alphonso Davies, ao contrário, fez todo o trabalho de escolinha em Edmonton, onde a temperatura bate fácil nos -20, e de juvenil no Vancouver Whitecaps (Davies participou de várias pré-temporadas com a seleção do Canadá desde os 13 anos, ainda que não fosse oficialmente canadense). Até 2019, Edmonton nem ao menos um time profissional. 

De acordo com uma reportagem da Sportsnet, que transmite a Bundesliga no Canadá, Davies chegou a ser aconselhado a optar pelo atletismo (o estereótipo de racismo com o atleta que se destaca fisicamente), antes de ser avaliado pelo scout Marco Bossio, de uma academia local. Davies acabou por assinar com o Vancouver (onde morou com uma família “adotiva”), sem nunca ter de fato jogado um torneio contra outras equipes, e se tornou o segundo jogador mais jovem a atuar pela MLS (atrás apenas de, que grande ironia, Freddy Adu).

É interessante notar também que a transição de Davies de atacante para a lateral-esquerda não começou no Bayern, mas na seleção, com o técnico John Herdman. “Muita gente duvidou que ele não era um lateral e que ele não podia jogar na lateral pelo Canadá,” Herdman disse em entrevista à Sportsnet. “Acho que as pessoas estão começando a se dar conta que é uma posição muito mais influente no futebol moderna do que elas se davam conta”.

As principais análises sempre foram que Davies na lateral seria um desperdício, num país com tão raros talentos. Mas foi justamente a troca que potencializou não apenas o próprio talento (Davies nunca foi exatamente um exílio finalizador) como o de Jonathan David (um jogador mais móvel no ataque) e de Lucas Cavallini (o clássico trombador oportunista). Com 11 gols, David e Cavallini já estão no top 10 da história do país (David em 12 jogos, Cavallini em 17). O maior artilheiro, para se ter ideia, é Dwayne De Rosario, com 22 em 81 jogos.

A ascensão de Davies, somado o bom planejamento do Toronto FC (que disputou três finais da MLS recentemente, sendo campeão de uma), e a recém-inaugurada Canadian Premier League, são fatores a favor de evitar o êxodo de jovens com menos de 15 anos ao exterior. O zagueiro Dominick Zator (Cavalry FC), 25, por exemplo, foi o primeiro jogador da CPL convocado para a seleção (sem uma passagem anterior nos times sub-17). O atacante Tristan Borges, 21, do Valour FC, foi contratado pelo Leuven, da primeira divisão belga.

Jonathan David, que foi o artilheiro do campeonato belga pelo Gent, com 18 gols, cresceu na capital Ottawa, que ainda não tem um time profissional. Recentemente, ele foi objeto de um mini-documentário da TSN (ESPN canadense) chamado “Iceman” (o homem de gelo), uma referência ao país, a frieza na hora de marcar e também a sua personalidade, incrivelmente tímida (em dezembro de 2019, ele perdeu a mãe para o câncer). David é bilíngue, mas o seu primeiro idioma é o francês, o que explica a escolha pela Bélgica (e posteriormente o Lille). 

O fato de Alphonso Davies estar em destaque em todos os programas de TV, e dividindo espaço em sites e jornais com os playoffs da NHL e o Toronto Raptors (também nos playoffs) também não pode ser desconsiderado no apelo para novos adeptos. Quanto mais gente praticando o esporte, mais chance de aparecer um talento. Quanto mais talentos aparecem, mais chance de novos Alphonsos Davies serem vistos pelas grandes ligas. 

“Ótima geração canadense”

Alphonso Davies, da seleção do Canadá (Vaughn Ridley/Getty Images/Onefootball)

Cinco dos jogadores do Canadá que venceram os EUA, ano passado, jogam na Europa, incluindo Davies, 19 anos, e Jonathan David, 20. É uma seleção que vem, sobretudo, apostando em jovens: Liam Millar (Liverpool, 21), Liam Fraser (Toronto FC, 22), Derek Cornelius (Vancouver, 22), Noble Okello (Toronto FC, 20), Theo Bair (Vancouver, 20), Tristan Borges (Leuven, 21), Zohran Bassong (Cercle Brugge, 21).

Um possível futuro nome dessa lista é o de Lucas Dias, 17 anos, que nasceu em Toronto e foi formado na escolinha do Sporting na cidade, antes de se transferir para Lisboa. Ele foi campeão e artilheiro do Português sub-17 em 2018 e tem sido convocado pela seleção portuguesa, ainda que a mudança de nacionalidade seja possível em seleções principais.

Essa lista inclui também alguns notáveis flops no futebol europeu, como o de Ballou Tabla (21), que passou pelo Barcelona B, antes de voltar a Montreal; Dario Zanatta (23), uma jovem promessa do Hearts, de Edimburgo, hoje no Ayr United; e Alessandro Bustin (20), goleiro que passou toda infância na Juventus de Turim e hoje farda no Belluno, da quarta divisão.

Se isso tudo é suficiente para o Canadá se classificar para a sua primeira Copa do Mundo desde 1986 já é outra história. Para 2022, a seleção ainda precisa se qualificar para o hexagonal final que terá México, EUA, Costa Rica, Jamaica e Honduras, e para 2026, ainda que o Canadá seja um dos países sede, a classificação automática não está garantida.

As eliminatórias da CONCACAF para a Copa do Mundo de 2022 começam em outubro de 2020. Para chegar ao hexagonal, o Canadá precisa ser primeiro em um grupo com Suriname, Bermuda, Aruba e Ilhas Cayman e depois passar por um mata-mata contra o campeão de um dos outros cinco grupos. 

*Leandro Vignoli é jornalista etc, escreveu o livro À Sombra de Gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu (clique aqui e compre o seu)

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