As semifinais da Copa do Rei soam como um acontecimento histórico. De fato, durante as últimas décadas, raras vezes os três principais clubes do país (Atlético de Madrid, Barcelona e Real Madrid) se ausentaram juntos das fases mais agudas do torneio. Em 50 anos, esta será apenas a quinta vez em que a hecatombe ocorre ao trio de ferro. Ainda assim, o emparelhamento das semifinais atuais parece um “déjà vu” aos espanhóis. Afinal, esta edição possui semelhanças impressionantes com a então chamada Copa do Generalíssimo de 1969. Athletic Bilbao x Granada também foi uma das semis, enquanto a Real Sociedad pegou o Elche (e não o Mirandés) na chave paralela.

Os tempos eram outros, mas não que o jogo de forças na Espanha fosse tão diferente. O Real Madrid vinha de uma década hegemônica em 1960. O Atlético de Madrid também acumulava campanhas importantes e até poderia ser equiparado com o Barcelona – incapaz de superar os merengues na Liga, mas dono de algumas das copas recentes. Em 1968/69, o Real faturou o Campeonato Espanhol com sobras, enquanto o Barça terminou em terceiro, superado pelo Las Palmas. Já o Atleti apareceu na sexta posição. E, como era corriqueiro até os anos 1970, após o encerramento do campeonato, a Copa do Generalíssimo se concentrava no final da temporada.

Real Madrid e Barcelona caíram logo na fase de entrada, as oitavas de final. Os merengues deram azar de fazer o clássico contra o Atlético e não resistiram, derrotados por 2 a 1 em Manzanares, antes do empate por 0 a 0 no Bernabéu. O Barcelona, por sua vez, tomou de 5 a 1 na visita à Real Sociedad em Donostia e não reverteu com os 3 a 0 no Camp Nou. A Real ainda seria responsável por superar o Atleti na fase seguinte, as quartas de final. Ganhou por 2 a 1 em Madri, carimbando a passagem com o 1 a 1 dentro de Atotxa.

A Real Sociedad poderia carregar certo favoritismo na semifinal, mas teria pela frente um embate duro contra o Elche, que derrubara o Valencia nas quartas de final. E, atravessando um período de temporadas consecutivas na primeira divisão, os franjiverdes eliminaram os bascos. Sem prorrogação prevista no regulamento, foram necessários três jogos. O Elche venceu por 3 a 0 na Comunidade Valenciana, mas a Real Sociedad reverteu e goleou por 4 a 1 no País Basco. Na partida de desempate, dentro do Bernabéu, a expulsão de um jogador da Real abriu o caminho e o Elche venceu por 2 a 0, com tentos de Juan Manuel Asensi e Juan Gualberto Casco. Avançou à final inédita.

Aquela classificação rompia o sonho de um dérbi basco na decisão. Do outro lado, o Athletic Bilbao tinha eliminado o Granada. Os leones não atravessavam seu melhor momento, sem um título desde 1958. Acumulavam campanhas medianas na Liga e vinham de dois vices recentes na Copa. Já o Granada, que voltara da segundona na temporada anterior e terminara o Espanhol em oitavo, era o franco atirador. Melhor ao Athletic, que buscou o empate na Andaluzia e venceu por 2 a 0 em San Mamés – gols de Fidel Uriarte e José María Argoitia.

Diante de 120 mil no Bernabéu, as duas equipes possuíam boas armas para a finalíssima. Treinado pelo uruguaio Roque Máspoli, o Elche confiava no goleiro José Araquistáin e no atacante Fernando Serena, dois antigos campeões com o Real Madrid, além de Asensi, que logo viraria ídolo do Barcelona. No entanto, o Athletic tinha muito mais emblemas para acreditar. O técnico era Rafael Iriondo, parte de uma mítica linha de frente do clube nos anos 1940. Já em campo, uma coleção de lendas, a exemplo do goleiro José Ángel Iribar, do capitão Luis María Echeberría, do pichichi Fidel Uriarte e do ponta Txetxu Rojo.

Sob os olhares do ditador Francisco Franco, o Elche pareceu mais próximo da vitória durante o primeiro tempo no Bernabéu. O goleiro Iribar segurou as pontas com várias defesas. Já na etapa complementar, o Athletic reverteu o cenário. Aproveitou-se do cansaço dos franjiverdes e botou pressão. O gol do título saiu aos 37 do segundo tempo. Antón Arieta deixou o marcador no chão e soltou uma bomba para vencer o goleiro Araquistáin. O triunfo por 1 a 0 encerrava um jejum de 11 anos do Athletic e dava a primeira glória a vários ídolos dos leones. Era o 21° título do Athletic na Copa, cinco a mais que o Barcelona e dez a mais que o Real Madrid na época.

Aproveitando a deixa, relembramos ainda como foram as outras cinco semifinais nos últimos 50 anos que não tiveram Atlético de Madrid, Barcelona ou Real Madrid. Confira:

1972/73: Athletic Bilbao x Málaga / Castellón x Sporting de Gijón

Todos os quatro semifinalistas figuravam na primeira divisão do Campeonato Espanhol e, curiosamente, o Castellón terminou com a melhor classificação, quinto colocado logo após conquistar o acesso. Athletic e Málaga pintaram no meio da tabela, enquanto o Sporting de Gijón sofreu a ameaça do rebaixamento. Já na Copa do Generalíssimo, os grandes tiveram vida relativamente curta. O Atlético de Madrid (campeão de La Liga naquela temporada) caiu ainda nos 16-avos de final, diante do Espanyol. Já nas oitavas, Real Madrid e Barcelona sucumbiram de uma só vez – contra Sporting de Gijón e Sevilla, respectivamente.

Na semifinal, o Athletic Bilbao se impôs contra o Málaga, que vivia seu chamado “quinquênio de ouro”. Foram duas vitórias dos bascos para se confirmar na decisão. Já a sensação Castellón se impôs contra o Sporting do artilheiro Quini. Também emendaram duas vitórias, com três gols do ponta-de-lança Juan Bautista Planelles – destaque daquela equipe, que estava emprestado pelo Real Madrid.

Por fim, na decisão realizada dentro do Vicente Calderón, a camisa do Athletic pesou. Treinados pelo iugoslavo Milorad Pavic, os leones seguiam com vários ídolos históricos, a exemplo de Iribar, Iñaki Sáez e Txetxu Rojo. Antón Arieta e Félix Zubiaga balançaram as redes do Castellón para determinar a vitória por 2 a 0. Aquela campanha havia sido especialmente marcante a Iribar, recuperado de uma febre tifoide que quase o levou à morte meses antes. Entre os vice-campeões, figurava ainda o jovem Vicente del Bosque, então camisa 8 dos valencianos.

1976/77: Athletic Bilbao x Salamanca / Betis x Espanyol

O Atlético de Madrid conquistou mais um título espanhol naquela temporada, com o Barcelona como vice. Já o Real Madrid terminou na irrisória nona colocação, em sua pior campanha nas últimas sete décadas. Pela rebatizada Copa do Rei (retomando seu nome original após o fim da ditadura franquista), o Real Madrid sucumbiu ao Hércules logo nos 16-avos de final. Barça e Atleti saíram nas oitavas, para Celta e Sevilla. Assim, o favoritismo rumo às semifinais se concentrava todo sobre o Athletic, terceiro colocado na Liga. Betis e Espanyol fizeram campanhas dignas e rondaram as copas europeias, enquanto o Salamanca ficou na metade inferior da tabela no Campeonato Espanhol.

O Athletic simplesmente pulverizou o Salamanca na semifinal. Goleou por 6 a 0 em San Mamés, com quatro gols do atacante Carlos Ruiz – que faria mais dois nos 2 a 1 da volta. Na outra chave, Carlos Caszely deu o triunfo ao Espanyol na Catalunha, mas o adorado Antonio Biosca foi o herói na Andaluzia, nos 2 a 0 que selaram a classificação do Betis à sua segunda final. Os verdiblancos retornavam à decisão após 46 anos.

Já na final dentro do Calderón, muito equilíbrio. Carlos Ruiz abriu o placar ao Athletic, antes do empate de Francisco López, símbolo do Betis. O jogo seguiu para a prorrogação, com mais um gol para cada lado, de López e Dani. Então, o empate por 2 a 2 forçaria uma longa disputa por pênaltis. Foram dez cobranças para cada lado, até que Iribar perdesse aos bascos e o goleiro José Ramón Esnaola se tornasse símbolo do título inédito dos beticos. O arqueiro pegou três cobranças e converteu a sua nos 8 a 7. O técnico dos verdiblancos era Iriondo, o velho ídolo dos leones, o mesmo do título de 1969.

1993/94: Celta x Tenerife / Zaragoza x Betis

O Campeonato Espanhol viveu uma temporada histórica em 1993/94, quando o Super Depor perdeu a chance do título nos minutos finais e permitiu o tetra do Dream Team do Barcelona. O Real Madrid fez uma campanha morna na quarta colocação, distante dos candidatos à taça, enquanto o Atlético terminou no 12° lugar. Pela Copa do Rei, o Real eliminou o Atleti nas oitavas, antes de sucumbir ao seu fiel carrasco Tenerife. O Barcelona, por sua vez, caiu também nas quartas, para o Betis. Os andaluzes sequer estavam na elite naquela época. Já na primeira divisão, Celta e Tenerife fizeram campanhas na metade inferior da tabela, enquanto o Zaragoza seria o terceiro colocado daquela edição.

O Zaragoza confirmou o favoritismo nas semifinais, mas com certas dificuldades. Apesar da vitória por 1 a 0 no Benito Villamarín, os Maños permitiram o troco do Betis em La Romareda. Apenas na prorrogação a classificação veio, com três gols, fechando a contagem em 3 a 1. Como prêmio de consolação, ao menos os beticos faturaram o acesso ao final daquela temporada. Já o Celta encaminhou a passagem com os 3 a 0 na ida em Vigo, dois tentos de Vladimir Gudelj. O bósnio também resgatou os galegos na volta: o Tenerife abriu vantagem, mas Gudelj buscou o empate por 2 a 2 e assegurou os celestes na finalíssima, a primeira desde 1948.

A decisão aconteceu no Vicente Calderón. E o Zaragoza confirmou o melhor momento, com o triunfo nos pênaltis. O empate sem gols prevaleceu durante os 120 minutos, sendo que os Maños precisaram se segurar com um a menos durante toda a prorrogação, após a expulsão de Santiago Aragón. Já na marca da cal, a definição aconteceu na quinta série de cobranças. Enquanto o goleiro Andoni Cedrún pegou o chute de Alejo Indias, Francisco Higuera venceu Santiago Cañizares para confirmar a vitória por 5 a 4. Aquele era o quarto título do Zaragoza na Copa do Rei, o primeiro desde 1986, e renderia mais. O time de Víctor Fernández também conquistou a Recopa Europeia sobre o Arsenal em 1995. Gus Poyet, Fernando Cáceres, Nayim, Alberto Belsué e Miguel Pardeza eram alguns nomes importantes no ciclo vitorioso.

1994/95: Deportivo x Sporting de Gijón / Valencia x Albacete

Entre o retorno do Real Madrid ao topo de La Liga e a ressaca do Barcelona no desmanche do Dream Team, mais uma edição da Copa do Rei se abriu em 1994/95. O Deportivo era uma potencial nacional naquele momento. O Valencia frequentava o meio da tabela. Já Albacete e Sporting de Gijón disputaram os playoffs contra o rebaixamento, mas os alvirrubros ao menos se safaram do descenso. Pela Copa do Rei, Real Madrid e Barcelona saíram nas oitavas, contra Valencia e Atlético. Os colchoneros, contudo, seriam superados pelo Albacete na etapa seguinte.

A camisa pesou nas semifinais. O Valencia teve trabalho, mas bateu o Albacete. Após o empate por 1 a 1 no Mestalla, a classificação se consumou com o triunfo por 2 a 1 no Carlos Belmonte. Lyuboslav Penev e Roberto fizeram os gols dos Ches. Já o Deportivo de La Coruña quase deixou que o resultado escapar. A vitória por 2 a 0 em Gijón parecia encaminhar a situação. Porém, Igor Lediakhov abriu o placar no Riazor logo cedo e deu um susto, embora a reação tenha parado no insuficiente 1 a 0. Com apuros, os blanquiazules seguiram em frente.

Até pela rodada final do Campeonato Espanhol de 1993/94, quando o Valencia impediu o título do Deportivo, a decisão no Bernabéu ganhou ares especiais. O Super Depor vinha repleto de ídolos, incluindo Bebeto, Donato, Fran e Djukic. Enquanto isso, o Valencia também possuía bons nomes, a exemplo de Zubizarreta, Mazinho, Mijatovic e Penev. Javier Manjarín abriu o placar aos galegos durante o primeiro tempo, antes que Mijatovic igualasse aos valencianos faltando 20 minutos para o fim do tempo normal. Todavia, uma forte chuva provocou a interrupção da partida, só retomada três dias depois. O gol da vitória do Depor por 2 a 1 seria anotado neste retorno, pelo substituto Alfredo. Era um título de primeira grandeza inédito aos blanquiazules, que marcava aquele período áureo no Riazor.

2002/03: Mallorca x Deportivo / Recreativo de Huelva x Osasuna

Durante a virada do século, a Copa do Rei viu um desempenho fraco das três principais forças nacionais. Enquanto Barcelona e Real Madrid não se empenhavam tanto, em seus altos e baixos, o Atlético atravessava sua maior crise. Assim, nenhum deles ergueu a taça entre 1999 e 2008. Em 2002/03, apenas os Galácticos do Real Madrid pareciam realmente fortes. Ganharam La Liga, enquanto o Barcelona terminou num modorrento sexto lugar. Já o Atlético de Madrid se restabelecia na elite, em 12°. E o momento geral se refletiu na Copa. O Barça deu vexame nos 32-avos de final contra o Novelda, da terceira divisão. Real e Atleti caíram nas quartas, para Mallorca e Recreativo.

O favoritismo recaía sobre o Deportivo, mais uma vez. Campeão da Copa do Rei em 2002 em pleno Bernabéu, durante as comemorações do centenário do Real Madrid, o time foi terceiro colocado em La Liga 2002/03. Mas os galegos não resistiram ao Mallorca, que já tinha goleado os merengues por 4 a 0 na fase anterior. Os bermellones ganharam por 3 a 2 no Riazor, com dois gols de Walter Pandiani e um de Samuel Eto’o, sendo que Diego Tristán e Roy Makaay só descontaram no fim. Já no reencontro, o empate por 1 a 1 garantiu os baleares. Do outro lado, o Recreativo (que seria rebaixado ao término da temporada) eliminou o Osasuna. Os 2 a 0 em casa abriram o caminho, antes do empate por 2 a 2 em Pamplona.

A decisão em Elche serviu para consagrar um time histórico do Mallorca. Os bermellones não tomaram conhecimento do Recreativo e venceram por 3 a 0. Mais uma vez, a dupla de ataque fez estrago: Pandiani abriu o placar cobrando pênalti, enquanto Eto’o anotou dois gols durante o segundo tempo. Além deles, a equipe treinada por Gregorio Manzano também contava com Miguel Ángel Nadal, Harold Lozano, Albert Riera, Ariel Ibagaza e Leo Franco. Os baleares ainda chegaram às oitavas de final da Copa da Uefa em 2003/04, eliminados pelo Newcastle.

* Fica o agradecimento ao amigo Emmanuel do Valle por ajudar com o levantamento das cinco semifinais sem os três grandes.