Enquanto o Chile dava a volta olímpica no Estádio Nacional lotado, por um momento o barulho ensurdecedor se tornou vácuo. As bandeiras que tremulavam por todo o lado desapareceram, assim como o vermelho vivo que tomou as arquibancadas se tornava um cinza morto. Os campeões da Copa América passavam em frente à Escotilha 8. O trecho do estádio restaurado como era em 1973. Como era quando o país sofreu um golpe de estado e o local foi usado como prisão em massa pela ditadura militar de Augusto Pinochet. Quando, daquele ponto, os perseguidos políticos se esgueiravam para ver seus familiares do lado de fora e dar um sinal de vida. Antes de serem interrogados, torturados, mortos ou de desaparecerem.

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O Estádio Nacional de Santiago tem um grande peso para a história do Chile. E também para o próprio futebol chileno. Em ambos os casos, com históricas lamentações. O local deixou de ser uma prisão por conta de um jogo da seleção. Em um teatro vexatório, após o boicote da União Soviética na repescagem das Eliminatórias de 1974, os chilenos balançaram as redes vazias para a comemoração fútil da classificação, antes de um amistoso contra o Santos. Na casa do esporte no país, inaugurada em 1938, perdurava a seca de títulos da equipe nacional. Entre os quatro vice-campeonatos na Copa América, lá é que La Roja perdeu a taça em 1955, em um jogo decisivo contra a Argentina que também acabou em sete mortes por superlotação.

escotilla

Nem mesmo os clubes chilenos conseguiam se consagrar no Estádio Nacional. O Colo-Colo, único a levar a Libertadores, o fez no Estádio Monumental David Arellano. Somente em 2012 o futebol chileno teve sua glória internacional, com a Universidad de Chile faturando a Copa Sul-Americano. Um time de futebol envolvente, sob a batuta de Jorge Sampaoli. Justamente o maestro que ajudou a seleção a romper os seus 120 anos em jejum, com a histórica vitória na Copa América de 2015. Contra a vizinha Argentina, de tantos momentos de rivalidade. Após bater o arqui-inimigo Peru, contra o qual o Chile até travou uma guerra.

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Dentro do futebol, o título dá a chancela que a seleção chilena merece. Para um país que briga pelo posto de quarta força na América do Sul (o que, globalmente, já representa bastante), não ter uma taça sequer incomodava. Pesava contra as nove participações em Copas do Mundo, bem como a honrosa campanha até as semifinais em 1962. Pesava contra os grandes resultados em sua história, como a vitória sobre a Espanha no Mundial de 2014. Pesava contra também os craques que vestiram a camisa vermelha. E que não foram poucos: Raúl Toro, Sergio Livingstone, Enrique Hormazábal, Leonel Sánchez, Elias Figueroa, Carlos Caszely, Iván Zamorano, Marcelo Salas. Década a década, transmitiram entre si o orgulho pela seleção, atuando no Estádio Nacional. Mas sem nunca provarem o gosto do triunfo definitivo. Algo que ficou para Vidal, Alexis Sánchez, Bravo e os outros expoentes da “geração de ouro”.

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O título valoriza a seleção chilena, a sua história e respinga até mesmo nos feitos dos clubes. Mas reflete além. A repercussão também vai para fora do futebol. A presença constante da presidente Michelle Bachelet nas arquibancadas tinha motivos, diante da crise política que o país vive. As manifestações aconteceram constantemente nas ruas. E a população não brigava apenas pela reforma do governo. Também houve aqueles que usaram a plataforma da Copa América em busca dos próprios direitos, como os descendentes indígenas, que também realizaram protestos intensos. Uma efervescência que, de início, afetou o ambiente da torcida. Mesmo arrepiando no hino à capela, foi cobrada até pelos jogadores por causa da frieza com bola rolando. E cresceu com o time na competição.

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Durante a final, é verdade, a torcida vermelha não embalou tanto. Pouco se ouviu o tradicional “Chi-Chi-Chi Le-Le-Le, Viva Chile!”. Era o nervosismo diante da possibilidade de desperdiçar outra chance, o medo de que o passado triste do Estádio Nacional amaldiçoasse a seleção outra vez. Mas as bandeiras tremularam durante os 120 minutos, e também nos pênaltis. O orgulho nacional se sobrepôs às mágoas do passado e às desconfianças do presente. Deixou para trás toda a carga negativa daquelas arquibancadas, em uma festa que se estendeu ao Palácio de La Moneda, outro símbolo do luto, bombardeado durante o golpe militar em 1973. Tornou o Chile só um, acima da visão política ou da origem étnica. E o triunfo pode abrir um caminho para o futuro, absorvendo todos os debates que envolveram a Copa América, com um novo sentimento para pautar as mudanças necessárias.

A conquista significa muito para o futebol. Mas também significa muito mais do que isso.