A divisão regional brasileira, da forma como conhecemos hoje, existe desde o ano de 1970. Ela foi elaborada pelo IBGE, que dividiu o mapa do país em cinco áreas diferentes, determinadas conforme o nível de industrialização nas décadas de 1950 e 1960 e desenvolvimento sócio-econômico. Antes disso, a primeira proposta de regionalização havia sido apontada em 1913, passando por alterações pequenas ao longo das décadas seguintes. Entre outras diferenças, considerava São Paulo como parte da região Sul e apontava para a existência de uma região “Leste”, com Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Sergipe.

Coincidentemente, a definição feita pelo IBGE acompanhou um momento de transição do futebol brasileiro. A Taça Roberto Gomes Pedrosa deixaria de existir naquele mesmo ano de 1970, com a criação do Campeonato Brasileiro em 1971. Entre as mudanças mais significativas, estava a expansão da disputa para mais alguns estados e a criação de uma divisão inferior – que, de fato, só existiu até 1972, renascendo em 1980 com a implementação de acesso e descenso.

Além disso, a demanda pelo Campeonato Brasileiro também acompanhava, de certa forma, alguns dos motivos que levaram o IBGE a criar a nova regionalização brasileira. A “modernização” do futebol nacional a partir da década de 1950 é evidente, em especial após a criação da Taça Brasil e o título da seleção na Copa do Mundo de 1958. Como um reflexo da mudança do centro de poder para Brasília, o intercâmbio entre os clubes também se expandiu, indo além do eixo Rio-São Paulo.

Já nos últimos 20 anos, o Campeonato Brasileiro também ajudou a entender o jogo de forças do futebol brasileiro e, por que não, também algumas mudanças no processo sócio-econômico do país. A região Sudeste continua concentrando os times da competição, mas não tanto como em 1991. Assim como o Sul e o Nordeste também viram o peso de suas equipes no campeonato nacional mudar de forma significativa.

Como era no Brasileirão de 1991?

Apesar das seguidas mudanças de regulamento ocorridas ao longo dessas duas décadas, o Campeonato Brasileiro de 1991 também era disputado por 20 times – número estabelecido no ano anterior e que se manteria até a competição seguinte. O Sudeste era a região de doze clubes – 60% dos representantes do torneio. São Paulo, com seis times, era o estado mais representado, enquanto o Rio de Janeiro possuía quatro e Minas Gerais, dois. Foi da região que saíram, inclusive, as quatro equipes classificadas à segunda fase (Atlético Mineiro, Fluminense, Bragantino e o campeão São Paulo).

Em seguida, a região com maior relevância era o Nordeste, com quatro equipes de dois estados, Bahia e Pernambuco. O Sul, por sua vez, levava a campo os dois grandes do Rio Grande do Sul, Grêmio e Internacional, mais o Atlético Paranaense. Goiás era o único clube do Centro-Oeste e o Norte não era representado.

E como é no Brasileirão de 2011?

O Sudeste continua encabeçando a lista, mas com onze times, uma a menos do que em 1991. São Paulo, em especial, só conta com quatro equipes, duas a menos do que naquela época. Enquanto isso, o Sul dobrou a participação, com seis times. Santa Catarina, que não figurava há vinte anos, agora emplaca dois clubes. O Nordeste conta com dois participantes, divididos entre os estados Bahia e Ceará. O Centro-Oeste resiste com um representante e o Norte, como há 20 anos, não tem nenhum.

Novo equilíbrio de forças

Para entender as diferenças regionais nos últimos 20 anos do Campeonato Brasileiro é preciso também lembrar as seguidas mudanças de regulamento nesse período. Após os torneios de 1991 e 1992 terem seus regulamentos respeitados, uma mudança drástica ocorreu em 1993. Foram incluídos 12 novos clubes e a disputa passou a ser dividida em grupos. No ano seguinte, oito times caíram, mas a fórmula ainda previa grupos. Isso até 1996, quando o Brasileirão se estabilizou com oito classificados para mata-matas após turno único. Por fim, vieram os pontos corridos, vigentes desde 2003.

A região que sofreu maiores perdas neste espaço de tempo foi o Nordeste, que representava uma parcela de 20% dos clubes entre 1991 e 1993. Depois disso, entre idas e vindas de regulamentos, os nordestinos não tiveram mais de três times na era dos pontos corridos. O fundo do poço foi em 2005, quando o Fortaleza era o único bastião.

O Sudeste viu a diminuição no número de participantes, mas seguiu contando com uma fatia de cerca de 60% do campeonato. O “núcleo duro” da região, composto pelos grandes de Rio, São Paulo e Minas, garantiu essa estabilidade percentual, apesar de rebaixamentos pontuais. O decréscimo se explica principalmente pelos times do interior. Ponte Preta, Guarani e Bragantino, por exemplo, deixaram de ser figurinhas carimbadas no Brasileirão.

O Sul, por sua vez, foi quem mais cresceu. De três times em 1991, passaram para dois no campeonato seguinte. O ápice chegou com o início dos pontos corridos, quando nada menos que oito equipes representaram a região. No ano passado, só quatro participantes sulistas fizeram parte da competição, algo atípico para os cinco ou seis registrados a partir de 2005.

Por fim, as duas regiões restantes seguiram praticamente na mesma. O Goiás, acompanhado por vezes de Gama, Brasiliense ou Atlético Goianiense, assegurou a presença do Centro-Oeste com um ou dois clubes por 19 temporadas. E o Norte quase sempre dependeu da fase do Paysandu, exceção feita a 93 e 94, quando o Remo também apareceu, graças à virada de mesa naquele ano.

Sempre o dinheiro

Os principais motivos que ajudam a entender a mudança pela qual passou a divisão regional do Campeonato Brasileiro se concentram em fatores econômicos. Os grandes passaram a faturar muito mais, o que mexeu de forma significativa no equilíbrio. Em um primeiro momento, com o crescimento das transferências de jogadores sul-americanos na Europa, combinado com o aumento das cotas de televisão – as duas grandes fatias nos balanços financeiros dos clubes nas últimas décadas.

Os times de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul sempre tiveram mais visibilidade no mercado europeu, especialmente no início do processo de abertura dos mercados. Algo resultado de um ciclo vicioso, que combina dinheiro, elencos reforçados, boas campanhas, visibilidade internacional e vendas. As verbas da TV, também mais generosas com os grandes, dão o impulso inicial deste sistema.

Sem condições para competir financeiramente com os grandes do Sul e Sudeste, os nordestinos viram seu “pé de obra” migrando mais cedo para os outros centros. A falta força de suas categorias de base, combinadas com problemas administrativos em diversos momentos, fez com que nenhuma equipe se segurasse por um longo período na primeira divisão. Os únicos que passaram uma década seguida na elite neste período foram o Sport e o Vitória. As más gestões pesaram bastante também para o desaparecimento dos pequenos de São Paulo. Contudo, mais preponderante ainda foi a queda de nível nos Estaduais. Com o interesse dos grandes minguando, o faturamento das equipes também decaiu.

Como parte de outro processo, os clubes do Sul conseguiram estabilidade na primeira divisão. Orçamentos mais controlados, que, apesar de não garantirem briga pelo título, resultaram em boas campanhas, ajudaram bastante, em especial os paranaenses. Em Santa Catarina, por exemplo, as parcerias com empresários pesaram para o sucesso recente de Avaí e Figueirense. Nos últimos anos, projetos de sócio-torcedor complementaram a boa situação das equipes.

Por fim, em especial no fim da última década, a exploração do marketing tem potencializado a renda dos times de Sul e Sudeste. O que, em uma projeção para os próximos anos, não dá muitas perspectivas em uma nova alteração nesta regionalização do Campeonato Brasileiro. Casos esparsos de rebaixamento entre os grandes devem continuar existindo. Entretanto, o que parece garantido mesmo é apenas o sobe e desce de quem não encontrar uma forma de competir com os mais abastados.