A idolatria da torcida do Celtic por Henrik Larsson foi construída durante os sete anos em que o atacante sueco defendeu o verde e branco do clube com a mais pura excelência. Foram oito títulos, quatro da liga, um vice-campeonato europeu, e muitos gols: 242 em 315 jogos, vários deles contra o rival Rangers. A gênese da lenda está na sua primeira temporada na Escócia. Contratado por módicas £ 650 mil, em julho de 1997, foi uma peça essencial no título escocês do Celtic na temporada 1997/98, impedindo que o Rangers completasse dez conquistas seguidas e superasse o recorde dos Hoops. 

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A situação do Celtic no começo daquela temporada não era tranquila, mas já estava muito melhor do que em meados da década de noventa. Depois de comemorar o centenário com as conquistas da liga e da copa da Escócia, em 1987/88, o clube mergulhou de cabeça no buraco, tanto esportivo, quanto financeiro. Em campo, passou sete anos sem sequer conseguir ficar em segundo lugar no Campeonato Escocês e com pouco sucesso nos outros torneios nacionais. Nos bancos, ficou literalmente a horas de entrar em falência, antes de ser salvo pelo empresário Fergus McCann. 

Investimentos mal feitos e uma incapacidade assustadora de gerar receitas fizeram com que o Celtic chegasse ao começo de 1994 em grave crise financeira. O clube que hoje em dia tem média de 50 mil pessoas por partida estava na casa de 20 mil almas em termos de público e não vendia mais do que sete mil carnês de temporada. O Relatório Taylor, elaborado em resposta à tragédia de Hillsborough, foi uma grande pedra no sapato porque exigia que o Celtic Park fosse remodelado, para que houvesse cadeiras em todos os lugares, e simplesmente não havia dinheiro para tocar a reforma. Nos primeiros dias de março daquele ano, chegou a cartinha do Banco da Escócia: o Celtic tinha 24 horas para tentar sobreviver. 

Fergus McCann articulou uma movimentação dentro do conselho do Celtic para assumir o controle do clube das famílias que o dominavam há quase um século, os Kellys e os Whites. McCann deu nova vida aos Hoops. Conseguiu realizar a reforma do estádio, o que significou uma temporada mandando jogos no Hampden Park, e deu início a um novo projeto esportivo, sob o comando do ex-jogador Tommy Burns. Os primeiros resultados foram promissores. O Celtic de Burns venceu a Copa da Escócia de 1994/95, o único título em seis anos, e sofreu apenas uma derrota em todo o Campeonato Escocês da temporada seguinte. No entanto, foi incapaz de impedir que o Rangers fosse campeão da liga. Em 1996/97, o rival mais uma vez foi campeão e igualou o recorde de nove conquistas seguidas do Celtic. O pânico tomou conta de Parkhead, a relação entre treinador e presidente deteriorou-se debaixo da pressão, e Burns foi demitido. 

Era uma questão de honra. O Celtic orgulhava-se de ter conquistado a Escócia nove temporadas seguidas entre 1965 e 1974. Assistir ao Rangers igualar o feito com os títulos entre 1988 e 1997 já era ruim suficiente. Simplesmente não podia permitir que o rival o superasse nesse quesito. O primeiro passo era contratar um novo técnico. O nome preferido era Bobby Robson, então no Barcelona. Em meio a negociações com o clube catalão para assumir um cargo diretivo, e dar passagem a Louis van Gaal, o inglês balançou, mas acabou ficando no Camp Nou. O escolhido foi Wim Jansen, holandês que fazia parte do Feyenoord que derrotou o Celtic na decisão da Copa do Campeões de 1970, no San Siro. 

Jansen não era exatamente um sonho de consumo. Havia conseguido algum sucesso no Feyenoord no começo da década, foi assistente da seleção da Arábia Saudita e passou dois anos no Japão antes de assumir o Celtic. A imprensa escocesa o recebeu com uma manchete de muito mau gosto em que o classificava como a “segunda pior coisa a atingir Hiroshima”, pela sua passagem pelo Sanfrecce – a primeira, no caso, seria a bomba atômica. A busca pelo técnico foi liderada pelo novo administrador geral do clube, o advogado e jornalista esportivo Jock Brown, cujas credenciais também não enchiam o torcedor de confiança. 

As estrelas da companhia eram Pierre van Hooijdonk, Paolo Di Canio e Jorge Cadete, chamados de “Three Amigos” por Fergus McCann. Juntos, haviam marcado 51 dos 78 gols do Celtic na temporada anterior. E nenhum quis esperar para ver o que Wim Jansen faria em Parkhead. Van Hoojidonk foi vendido para o Nottingham Forest. Di Canio protagonizou uma breve e bem sucedida insurgência que o levou ao Sheffield Wednesday. Avesso a se tornar o violinista do Titanic afundando, Cadete também bateu o pé para sair e se transferiu para o Celta. Enquanto isso, o Rangers abria a carteira para conquistar o décimo título seguido. Trouxe Lorenzo Amoruso da Fiorentina por mais de £ 5 millhões e um jovem Genaro Gattuso do Perugia. 

Além de Larsson, pouco talento foi introduzido ao time. Ou, pelo menos, era aquilo que parecia. Dos 11 titulares que começaram jogando a partida decisiva contra o St. Johnstone, em 9 de maio de 1998, cinco chegaram naquela janela. Jonathan Gould foi pinçado dos reservas do Bradford. Marc Rieper, da seleção dinamarquesa, custou £ 1,5 milhões, em seu último ano de contrato com o West Ham. Craig Burley veio do Chelsea. Com a temporada em andamento, Paul Lambert, campeão europeu, foi comprado do Borussia Dortmund. Estava bem na Alemanha, mas sentia saudades de casa. Em dezembro, chegou o atacante Harald Brattbakk, do Rosenborg, que terá um papel central na história que estamos tentando contar

O começo não foi auspicioso. Nem para o Celtic, que perdeu as duas primeiras rodadas do Campeonato Escocês, nem para Larsson. O sueco foi responsável pelo passe errado que resultou no segundo gol da vitória do Hibernian por 2 a 1, na estreia da liga, e marcou contra no maluco 6 a 3 contra o Tirol Innsbruck, na segunda fase preliminar da Liga Europa. Depois de perder por 2 a 1, na Áustria, escoceses estavam sendo eliminados até fazerem dois tentos relâmpagos nos acréscimos do segundo tempo. A caminhada europeia terminou na fase seguinte, contra o Liverpool. 

Depois das duas derrotas, o Celtic emendou uma boa sequência de resultados, com sete vitórias e um empate. O mês de novembro, porém, seria um sinal amarelo. O primeiro Old Firm da temporada foi adiado para o começo de novembro por causa da morte da Princesa Diana. O Rangers venceu por 1 a 0, na estreia de Lambert. Apenas onze dias depois, com uma derrota para o Motherwell no intervalo, veio outro clássico e, em casa, o Celtic ficou apenas no 1 a 1. Entre o começo de novembro e os primeiros dias de dezembro, os Hoops venceram apenas o Dundee United em cinco partidas pelo Campeonato Escocês. Pelo menos, conquistaram a Copa da Liga Escocesa, com 3 a 0 sobre o mesmo Dundee United. 

O Celtic foi se acertando e chegou ao Old Firm do Ano Novo com a esperança de quebrar um jejum que já durava dez jogos no clássico. Com gols de Craig Burley e Lambert, conseguiu vencer por 2 a 0. Desde aquela derrota entre dérbis para o Motherwell até abril, o Celtic perderia apenas uma rodada do Campeonato Escocês, para o St. Johnstone. A briga pelo título era uma corrida de três cabeças entre os dois gigantes de Glasgow e o Heart, que havia demonstrado um rendimento exuberante na primeira metade do campeonato. 

Abril trouxe mais uma dobradinha de Old Firms, para o azar do Celtic. O Rangers despachou os rivais das semifinais da Copa da Escócia e também venceu pelo campeonato. Estavam ambos com 66 pontos. A pressão crescia em Parkhead porque, apesar de uma boa temporada, o título parecia prestes a escapar mais uma vez. Faltavam quatro partidas. O Celtic recebeu o Motherwell e goleou por 4 a 1. No dia seguinte, domingo, o Rangers visitaria o Aberdeen. Um gol de Stephen Glass deu a vitória aos donos da casa em Pittodrie, e o dano do Old Firm havia sido anulado: 69 a 66.

Mas não por muito tempo. Os Hoops apenas empataram com o Hibernian, e os Teddy Bears derrotaram o Heart confortavelmente por 3 a 0 e voltaram a encostar: 70 a 69. Por bizarrices do futebol escocês naquela época, os rivais não atuaram no mesmo dia na penúltima rodada. O Rangers recebeu o Kilmarnock, para o último jogo em casa na temporada, no sábado. O Celtic jogaria apenas no domingo, contra o Dunfermline. A partida caminhou para um 0 a 0 interminável, com muitos minutos de acréscimos. Em um desses, Ally Mitchel marcou o único gol da partida e deu a vitória aos visitantes. 

Logo, o Celtic precisava apenas derrotar o Dunfermline, que foi o antepenúltimo colocado naquele campeonato, para ser campeão escocês. Até chegou a abrir o placar no primeiro tempo, mas, nervoso, levou o empate depois do intervalo: 71 a 69. Ficou tudo para a última rodada, em 9 de maio de 1998. O começo contra o St. Johnstone foi promissor. Larsson recebeu pela esquerda, trouxe para o meio e soltou a perna para fazer o seu 16º gol da campanha, logo aos 3 minutos. 

Mas a partida seguiu disputada. Enquanto isso, todos tentavam descobrir o que acontecia no jogo do Rangers contra o Dundee United. No Tannadice Park, Laudrup havia aberto o placar para os Teddy Bears, aos 31 minutos, e Albertz converteu um pênalti, no começo do segundo tempo. A tensão cresceu no Celtic Park. A vitória parcial do rival significava que o Celtic não poderia escorregar. O Dundee United descontou, com Lars Zetterlund, revivendo a esperança de que talvez o Rangers tropeçasse. 

 

Não foi necessário. O alívio chegou aos 27 minutos do segundo tempo em Parkhead. O norueguês Brattbakk, que havia caído de rendimento desde a virada do ano, fez sua última aparição na semifinal da Copa da Escócia antes de sair do banco de reservas, marcar 2 a 0 e decidir o título.

O árbitro apitou o fim da partida: 74 a 72. 

Apesar da debandada de estrelas, da preparação conturbada, dos 32 gols de Marco Negri para o Rangers, da qualidade de Brian Laudrup e Paul Gascoigne, que não foi bem na sua última temporada no Ibrox, o Celtic conquistou seu primeiro título desde 1988 e impediu o Rangers de chegar a dez conquistas seguidas no Campeonato Escocês. Wim Jansen pediu o boné horas depois do feito, e o Celtic só voltaria a dominar o país com Martin O’Neill, no começo do novo século. Atualmente, com Brendan Rodgers no comando, já coleciona sete título seguidos e se candidata a ser o primeiro a alcançar o decampeonato nacional. 


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