A CULPADA

Olhava-se no espelho, mas já não se reconhecia. Não era o peso inconveniente da idade que a incomodava, porém. Os pés de galinha inevitáveis e as olheiras profundas aborrecem qualquer jovem senhora, mas ficavam em segundo plano quando desafiados por um rival muito mais avassalador: a indisfarçável feição de culpa que carregava. Se tinha ou não vergonha dos seus atos, talvez nem ela mesma soubesse dizer ao certo. A culpa, por outro lado, estava marcada em seu rosto. “Na vida, o importante é fracassar“, tentava se enganar, até ser interrompida pela porta do elevador se abrindo. Aquele momento de folga entre um pensamento autodestrutivo e outro era um alívio para a madame.

A confiança que carregava no olhar deu lugar a uma expressão de cansaço. Desânimo puro. Seu caminhar já não era garboso, suas pernas se intercalavam apressadas, no mesmo pique frenético em que se debatiam nas águas da piscina de onde quase não saía em seus tempos de menina. Como se fugisse de alguém em tempo integral. Talvez até de si mesma. Bateu a porta do carro, respirou fundo e disse: “Praxedes, toca para a Gávea!”. Um dia longo a aguardava e a cada popular que ficava para trás pela janela do automóvel, ela temia ouvir um insulto. “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais“. Definitivamente, não era o caso da madame, que agora dividia a sua vida entre tomar decisões equivocadas e ser duramente ofendida por elas.

O REMORSO

Bem sucedida e em ascensão, nunca foi uma mulher desejada, preferia mesmo era ser respeitada. Muitos viam nela, cada vez mais ativa em sua comunidade, um futuro promissor. As más línguas dizem que não passa de um delírio, mas ela jura que chegou a ser cogitada para ser candidata a vice-presidente do Brasil! Foi a primeira mulher a assumir o cargo mais importante na repartição onde trabalhava. Promessa de renovação, destino igual ao de tantos outros pusilânimes que passaram pelo posto. “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. Coroada a rainha da cocada preta, portava-se também como a rainha da Inglaterra: sentia-se mais à vontade como peça decorativa do que dando ordens. No seu entender, uma Evita sem Perón. Aos olhos do povo, a rainha louca.

Acontece que os flashes da coluna social não casam bem com a vida profissional de alguém que não tenha como ganha-pão simples poses, sorrisos e trejeitos diante dos holofotes. Os erros se acumularam e as tentativas de remendo só rasgavam mais um pouco da costura. Por baixo dos panos, demitia subalternos enquanto mantinha negociatas com aqueles que o substituiriam. As contas não fechavam, os santos não batiam e o desempenho da repartição só piorava. A imagem dela ia no mesmo embalo irrefutável. Dizem que“toda unanimidade é burra”. Felizmente, ou infelizmente, sempre há algum perdido que ainda confia no conto do vigário daquela que se deixou afogar nas próprias ilusões de grandeza. O que seria de uma sereia sem um punhado de tolos navegantes?

O MALANDRO

Há dias, ele nem se olhava no espelho. Não que não tivesse vaidade, nem que fugisse de si próprio. É que a farra da semana passada ainda não tinha hora para acabar. Se Narciso admirava a própria imagem refletida nas águas, o malandro se via era nos olhos das jeitosas incautas que se revezavam no seu colo, entre uma saliência e outra. Libertinagem prontamente referendada pelos seus amigos, que lhe davam seguidos tapinhas nas costas e soquinhos nos punhos, uma postura natural dos parasitas para com os seus hospedeiros. Para uns, um degenerado, um mau exemplo. Para outros, um bobalhão de bom coração, com problemas psicológicos e baixa resistência ao vício da bebida. “O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”.

Só que “o adulto não existe. O homem é um menino perene”. Aquele rapaz se negava a admitir, mas já não era mais uma criança. Já havia abusado do direito de perder as chances que a vida lhe dava. Está certo que a sua trajetória era repleta também de tragédia. Por isso mesmo, era difícil entender aquele sorriso eterno na sua boca. Aquela cara de “tudo vai passar, você vai ver”, estampada enquanto o seu mundo desabava ao seu redor. A certeza de que o dinheiro fácil que ganhava com o seu talento, o qual gastava com a mesma ferocidade, o absolvia de tudo, porque “é impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes”.

Não se tratava exatamente de um mau caráter, pois não fazia mal a ninguém que não vivesse em seu corpo, que com o tempo já passara de robusto a rechonchudo. Como Macunaíma, um herói sem caráter. Sem nenhum pingo de caráter. Particularmente, “não acredito na sinceridade dos sóbrios, dos lúcidos”, mas também não boto fé em alguém que viva trôpego num mundo de fantasia.

O ENLACE

As portas todas foram se fechando para o vagabundo exemplar. Seu potencial fez com que alguns ainda apostassem na sua ressocialização, mas de nada adiantava, se ele não parecia minimamente preocupado em colaborar nessa tarefa. Não dava as caras no serviço e vez por outra era encontrado entocado em um gueto semelhante ao de onde saiu. Não parecia se dar conta disso, mas, a qualquer momento, a fonte de oportunidades secaria, a grana sumiria, os puxa-sacos o deixariam e as cabrochas também. Para a sorte dele, eis que apareceu alguém que não precisava acreditar nele. Precisava apenas precisar dele.“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”, a madame filosofou.

Ela precisava de uma cartada de mestre. Resgatar o patife talentoso e colocá-lo na linha faria a sociedade – e sua memória mais curta que a roupa da piriguete da novela – esquecerem de todos os desenganos. Estava de olho em uma promoção e para ser escolhida teria de se provar mais esperta que o mais esperto dos espertos. Estendeu a mão ao malandro, que ganharia mais uma chance, na contramão de tudo que havia feito para não merecê-la. No fundo, ele sabia disso. Mas precisava ouvir de alguém que não fosse um mero aproveitador vivendo na sua aba. E após servir a décima nona dose de cachaça ao seu cliente preferencial, Osvaldinho, o dono do pé sujo, se sensibilizou com o guri que viu crescer naquela vizinhança e mandou a real, em um surto inesperado de sinceridade:

– Aí, chefia, você sabe que dessa vez vai ter de levar a sério a parada, mermão?

– Confia em mim, sangue bom. Tô sentindo que 2012 vai ser o meu ano.

– Mas desde que eu te conheço que o ano da vez é teu ano, rapá. Tu vai ter de parar com essa vida e se concentrar na labuta, meu velho.

– Mas é que ninguém é de ferro…

– Por isso mesmo que num é tu que vai morrer oxidado, né não?

– Mas é que…

– Acabou a putaria, xará. Se tu quiser que dê certo dessa vez, vai ter de viver uma vida regrada. Acabou a suruba, não tem mais festinha com jegue e com anão. Morreu essa parada.

– Mas até o anão, Osvaldinho?

– Principalmente o anão!”.

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”, pensou consigo próprio o bom malandro.

Na hora de assinar o contrato, poucas palavras e muita cumplicidade. “Batata?”, perguntou ela, desconfiada. “Batatíssima!”, respondeu ele, despreocupado. Trocaram um aperto de mãos confiante e posaram para os fotógrafos, que se acotovelavam na luta pelo melhor ângulo. E viveram inconsequentes para sempre, achando que o que a imprensa registrava era um momento de glória, quando todos olhavam para a cena com a mesma curiosidade mórbida de quem interrompe o tráfego para acompanhar o desenrolar de um desastre. Aos desavisados que comemoram o retorno do filho pródigo, um conselho de mestre: “Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe”.

Pode dar certo? Sim. Mas terá sido um acerto motivado por uma sucessão atropelada de erros. Que Deus perdoe essas pessoas ruins que cobram profissionalismo, planejamento, coerência e respeito ao torcedor e às instituições no futebol brasileiro.

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Todas as aspas em negrito contidas neste post são da autoria do dramaturgo, escritor e jornalista Nélson Rodrigues, cujo centenário foi completado ontem. Fica aqui a minha homenagem. Bonitinha, mas ordinária.