Poucos clubes conhecem tão bem a dor e a delícia de disputar as divisões de acesso do Brasileirão quanto o Sampaio Corrêa. A Bolívia Querida, afinal, se especializou em passar os últimos anos experimentando a glória da promoção e a penúria do rebaixamento. Ao menos, o saldo é mais positivo e o sábado guardou outra linda festa tricolor no Castelão. Os maranhenses receberam os gaúchos do São José e confirmaram o retorno à Série B, somente um ano depois de sua queda. O empate por 0 a 0 em Porto Alegre foi um bom resultado ao Tubarão, que prevaleceu na noite intensa de São Luís. Por mais que o Zequinha tenha arrancado o empate duas vezes, a vitória por 3 a 2 garantiu a euforia da massa nas arquibancadas.

A década oferece muitas emoções à torcida do Sampaio. Depois dos apoteóticos acessos na Série D e na Série C em 2012 e 2013, a Bolívia Querida viveu certa estabilidade na Série B, com duas temporadas consecutivas no meio da tabela. Desde 2016, entretanto, a gangorra confere altos e baixos aos maranhenses. Caíram com uma campanha fraquíssima na Segundona de 2016, mas já voltaram em 2017. Pois o bate-e-volta se repetiu mais uma vez. O baque do descenso em 2018 (ano em que também conquistaram a Copa do Nordeste) não atrapalhou a imposição em 2019. Os tricolores conhecem os atalhos.

A boa campanha do Sampaio Corrêa na fase de classificação, apesar das oscilações, valeu a segunda posição no Grupo A. O time deixou a liderança escapar na última rodada, diante de uma sequência ruim, mas ainda assim teria a vantagem de jogar a partida decisiva do acesso em casa. Seu destino se cruzou com o do São José, terceiro colocado do Grupo B. No Passo d’Areia, a ida ficou aquém do esperado. Os dois times fizeram uma partida fraca tecnicamente e o 0 a 0 não saiu do placar. Destaque ao goleiro Andrey, que fez defesas importantes e deu tranquilidade ao Tubarão na volta em São Luís.

Como já havia acontecido em outros jogos decisivos do Sampaio Corrêa, o Castelão lotou e proporcionou um ótimo clima para motivar a equipe. O clube sempre triunfou nos jogos de acesso nesta década e, pela quarta vez em oito temporadas, a história se repetiu. Aos 12 minutos, a Bolívia Querida abriu o placar, em pênalti convertido por Rodrigo Andrade. E, em jogo aberto aos dois times, as chance surgiam. Porém, foi apenas no segundo tempo que a taquicardia tomou os torcedores, com a alternância de gols.

O São José empatou aos 16 minutos, em cruzamento completado por Lucão. O Sampaio respondeu de imediato e Salatiel fez de cabeça. Ainda assim, já aos 20 o Zequinha enfatizou que estava vivo, com Matheusinho repetindo a igualdade. O Deus-nos-acuda se espalhava por todos os lados, em uma noite na qual um simples detalhe poderia fazer a diferença. Melhor ao Tubarão, que anotou o terceiro gol, o do acesso, aos 32. Rodrigo Andrade levantou a bola na área, a defesa gaúcha se enroscou toda e Luiz Eduardo desviou contra o próprio patrimônio. No final, apesar da pressa do São José, o Sampaio até poderia ter matado o jogo, mas desperdiçou boas chances de fazer o quarto. Nada que comprometesse a vitória e o acesso.

O mais legal ficaria mesmo para a comemoração que ocorreu depois do apito final. Os jogadores do Sampaio Corrêa puderam comemorar com a multidão em polvorosa, diante das bandeiras coloridas que tremulavam nas arquibancadas. Apesar da instabilidade que a Bolívia Querida experimentou nos últimos anos de Série B, o clube apresenta uma importante aptidão em se reconstruir – quando não são raros os casos de equipes que sofrem uma derrocada maior após o primeiro descenso, sucumbindo também à Série D.

Desta vez, o acesso leva a marca de João Brigatti. O treinador, com passagens por Ponte Preta e Paysandu, assumiu o Sampaio Corrêa em junho, quando Julinho Camargo não resistiu a uma derrota para o Imperatriz. O comandante chegou a emendar uma sequência de cinco vitórias no início de seu trabalho, importante à classificação. Em seu 11° compromisso, concluiu a missão. Deverá conduzir agora o planejamento rumo a 2020.

Está será a 17ª participação do Sampaio Corrêa na Série B, sua divisão mais habitual no Brasileirão. A ambição dos torcedores, por enquanto, é poupar o coração e evitar um novo descenso imediato, pensando no médio prazo. A própria caminhada na Terceirona 2019 foi irregular, com bons e maus momentos durante a fase de classificação, sem falar na loucura deste sábado. As próximas semanas conferem um pouco mais de alegria e de paz aos tricolores, que poderão buscar o seu segundo título na Série C – conquista que já viveram em 1997.