Um mesmo jogo de futebol pode ser contado de diferentes maneiras. Quem se irritou com o empate do Brasil contra a Venezuela nesta terça-feira, na Fonte Nova, certamente vai reclamar da postura ofensiva da Canarinho. A equipe de Tite errou demais na construção das jogadas e criou poucas oportunidades claras, considerando o volume de jogo que teve. Grande referência da defesa venezuelana, o goleiro Wuilker Fariñez realizou apenas uma defesa durante os 90 minutos, embora os gols anulados dos brasileiros tenham ocorrido por detalhes só percebidos graças ao VAR. No entanto, se a Vinotinto segurou o placar zerado durante todo o tempo, tem méritos. Foi uma excelente exibição dos defensores de Rafael Dudamel, em especial de um intransponível Yordan Osorio. O zagueiro comandou a área e merecia receber o prêmio de melhor em campo – que, sem nenhum motivo, acabou nas mãos de Philippe Coutinho.

Antes de começar a peleja, Tite estava ciente da qualidade da Venezuela atrás. É um time que fecha muito bem a entrada de sua área e conta com linhas de marcação compactas. Foi o que dificultou o jogo da Seleção, com claros problemas para encontrar espaços na faixa central. Neste trabalho, havia um grande papel da trinca de volantes. O jovem Yangel Herrera, em especial, foi um leão para bloquear os espaços. Mas quem realmente ficou em constante sinal de alerta foi a dupla de zaga da Vinotinto. Os passes agudos do Brasil, nem sempre bem feitos, exigiam atenção máxima dos oponentes. Conseguiram neutralizar o ataque brasileiro, mesmo com as trocas de posições e a movimentação dos anfitriões.

Mikel Villanueva e Yordan Osorio, se não são jogadores tão jovens, possuem pouca rodagem na seleção da Venezuela. Aos 26 anos, Villanueva estreou em 2016 e fez parte do último ciclo de qualificação à Copa do Mundo. Acumula 22 partidas na equipe nacional, as primeiras como lateral esquerdo, até se firmar no centro da defesa. Cria do Deportivo Táchira, largou o beisebol para calçar chuteiras e despontou mesmo no Deportivo Lara, antes de se transferir à Espanha. Não agradou no Málaga e rodou por diversos clubes das divisões de acesso, até chegar nesta temporada ao Gimnàstic de Tarragona, rebaixado à terceirona. Está distante da elite do futebol, mas encarou o Brasil sem medo. Foi excelente nos desarmes e manteve o bom posicionamento. Seria dele o desvio no tento anulado de Gabriel Jesus.

Osorio, aos 25 anos, tem uma experiência ainda menor na seleção principal da Venezuela. Filho de um pedreiro, começou a carreira no Zamora, um clube ligado à sua família – atualmente no Monagas, seu irmão mais velho Joan também deu os primeiros passos por lá, enquanto o caçula Cleidemar faz parte do atual elenco. Nenhum deles, porém, teve a projeção de Yordan, que estourou rápido nos profissionais e contribuiu para as boas campanhas do clube nas competições nacionais, ganhando rodagem ainda na Libertadores. Destino comum a jogadores venezuelanos nos últimos tempos, o beque arrumou as malas para Portugal em janeiro de 2017 e precisou de poucos meses para aparecer entre as melhores promessas do Tondela. Já em janeiro de 2018, foi levado como reforço do Porto. Falhou na única chance que teve com os portistas, mas pôde se reerguer no Vitória de Guimarães, para onde foi emprestado nesta temporada.

No novo clube, Osorio não apenas se firmou como titular. Sua entrada no time também impulsionou a ótima sequência do Vitória de Guimarães na campanha, cedendo poucos gols aos oponentes. A equipe teve uma das melhores defesas do Campeonato Português, com somente 12 gols sofridos em casa, e conquistou a classificação à Liga Europa. O venezuelano, aliás, anotou o gol que virou o placar contra o Moreirense e confirmou a presença na competição continental. Convocado à seleção pela primeira vez em 2017, só virou nome frequente com Dudamel justamente após sua transferência a Guimarães. A boa fase se alastrou e se nota na Vinotinto. Já tinha feito parte da histórica vitória sobre a Argentina em março, embora tenha começado a Copa América no banco de Jhon Chancellor. Até que a sua hora chegasse nesta terça.

O jogo contra o Brasil representava uma oportunidade a Osorio em vários âmbitos. Por opção técnica, Dudamel colocava o zagueiro para encarar o adversário mais difícil do grupo e, quem sabe, se confirmar como titular. Pois a exibição do camisa 3 foi excepcional. Teve uma leitura de jogo excelente, quase sempre bem posicionado e se antecipando aos adversários. Fez vários cortes providenciais, evitando a bola longa nas suas costas. Também se deu bem pelo alto contra os brasileiros, aproveitando-se de suas condições físicas, chegando junto nos combates. E seus bloqueios garantiram o placar zerado, sobretudo pelos chutes barrados no miolo da área. Curiosamente, os gols anulados saíram em lances nos quais os brasileiros atacaram em velocidade e os zagueiros ficaram mais expostos. Mas nem de longe podem ser classificados como falhas. Como se não bastasse, o beque ainda primou pela tranquilidade na saída de bola, com precisos lançamentos rumo ao ataque e bons passes.

Os tempos de Oswaldo Vizcarrondo e José Manuel Rey, os dois zagueiros mais célebres da Vinotinto ao longo deste século, ficaram para trás. Há a necessidade de estabelecer uma nova dupla e, ao menos neste setor, os prodígios do vice no Mundial Sub-20 estão em falta. A firmeza que Osorio demonstrou contra o Brasil deveria se tornar a confirmação de sua importância na caminhada da Venezuela rumo às próximas Eliminatórias. Não é sempre que se vê uma partida tão sobressalente de um zagueiro, especialmente nestas condições. O camisa 3 cresce rumo à sequência da Copa América. E, quem sabe, ao seu futuro também em Portugal. De volta ao Porto após o empréstimo ao Vitória de Guimarães, pode ser uma solução para suplantar a venda de Felipe ao Atlético de Madrid. Merece um voto de confiança.