Os atentados terroristas do Estado Islâmico, que mataram 129 pessoas em Paris, na última sexta-feira, aconteceram no momento em que a Europa discute o que fazer com os quase 750 mil refugiados que chegaram ao continente apenas em 2015. A relação falaciosa de causa e efeito entre os dois eventos foi traçada na velocidade da luz. Uma oportunidade perfeita para reforçar o discurso de quem quer fechar as fronteiras aos imigrantes, muitos dos quais arriscam as vidas para fugir do mesmo grupo extremista que atacou a capital da França.

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As autoridades acreditam que oito jihadistas participaram diretamente dos ataques a Paris. Cinco deles são tão franceses quanto Jean-Paul Sartre, Michel Platini ou François Hollande. Dois ainda não foram identificados. O corpo do último foi encontrado nos arredores do Stade de France com um passaporte sírio ao seu lado, que seria de Ahmad Almohammad. O documento ainda não foi autenticado e pode ser falso. A imigração grega disse que um homem carregando um passaporte com o nome de Mohammad foi registrado junto com outros imigrantes, em 3 de outubro, na ilha de Leros, uma das portas de entrada dos refugiados à Europa.

Essa possibilidade, ainda não confirmada, de haver um jihadista entre 750 mil pessoas parece ser o bastante para o líder do Partido da Independência anti-imigração do Reino Unido, Nigel Farage, dizer na noite da última segunda-feira que o “sonho europeu de livre circulação de pessoas permitiu a livre circulação de jihadistas”. Nos Estados Unidos, que têm planos de receber 10 mil refugiados sírios ano que vem, 24 governadores (apenas um democrata, partido do presidente Barack Obama) declararam que são contra essa medida, embora não possam legalmente impedi-la.

Na França, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, possível presidenciável nas próximas eleições, pediu que o governo do país parasse imediatamente de aceitar os pedidos de asilo que está recebendo. Marine é filha de Jean-Marie Le Pen, que foi expulso, em agosto do ano passado, do partido de extrema-direita que ele fundou por falar besteira demais, o que não é novidade.

Jean-Marie tem uma coleção numerosa de comentários racistas e xenofóbicos, uma vez que o debate sobre os imigrantes na França começou muito antes de o primeiro tiro ser disparado em Paris, na noite da última sexta-feira. O político participou ativamente dessa discussão, em 1998, quando a seleção francesa disputou a Copa do Mundo em casa, com um bom contingente de jogadores descendentes das colônias, como Patrick Vieira (Senegal), Marcel Desailly (Gana), Lilliam Thuram (Guadalupe) e Zinedine Zidane (Argélia), entre outros.

Marine e Jean-Marie Le Pen (Foto: AP)
Marine e Jean-Marie Le Pen (Foto: AP)

Le Pen havia dito que considerava “artificial” ter tantos jogadores “estrangeiros” na seleção, e que muitos deles nem cantavam a Marselhesa. Afirmou, também, que o “técnico (Aimé Jacquet) talvez tenha exagerado na proporção de jogadores de cor e deveria ter sido mais cuidadoso”. Se o político era uma voz quase isolada na época do Mundial, quatro anos depois, ele foi o segundo colocado das eleições presidenciais, vencendo o candidato socialista. Bandeiras da França, como Zidane e Desailly, praticamente fizeram campanha contra Le Pen no segundo turno.

É natural que quem reconheça o cidadão da França apenas por meio de um estereótipo físico ou de comportamento incomode-se com a seleção, a maior representação da miscigenação da sociedade francesa, uma mistura que data de muito tempo atrás. O primeiro negro a defender o time nacional foi Raoul Diagné, um descendente de senegaleses que nasceu na Guiana Francesa. Disputou a Copa de 1938 ao lado de outros dois descendentes africanos. O time de 1958 tinha Raymond Kopaszewski, filho de imigrantes poloneses, e Just Fontaine, nascido no Marrocos quando o país ainda tinha status de protetorado francês.

“Ao contrário de outros times nacionais, o francês teve jogadores naturalizados, com passado de imigração e de ex-colônias desde muito cedo”, afirma Fabrice Grognet, curador da exibição “À frente França! Futebol e imigração”, promovida pelo Centro Nacional da História da Imigração de Paris, em 2010, época da primeira Copa do Mundo em solo africano. “A partir da década de cinquenta, começamos a ver uma espécie de meritocracia por meio do esporte. A equipe que foi para a Suécia tinha Raymond Kopa e Maryan Wisnieski, ambos filhos de imigrantes poloneses. Isso marcou o início de uma geração de filhos de operários para os quais o futebol era uma fonte de mobilidade social”.

Além de elevador social, o futebol também serviu para unir os diferentes tipos de franceses, principalmente durante a Copa de 1998, que serviu mais como um exemplo do que o país pode ser do que o gatilho de uma mudança genuína. “Africanos, argelinos, árabes e marroquinos, todos colocavam a bandeira da França nas janelas”, disse Desailly à revista Four-Four-Two, sobre as viagens de ônibus que a delegação fazia durante o torneio. “Eles estavam se misturando com o povo francês e todos cantavam juntos e todos tinham os rostos pintados de azul, branco e vermelho. Se Zidane ou Thuram marcassem, todos comemorariam, e as pessoas não se importavam se estavam dando abraços em pessoas negras, amarelas ou azuis”.

Infelizmente, foi um fenômeno efêmero na seleção francesa porque a tensão racial seguiu existindo e sendo relevante. Na África do Sul, a equipe foi eliminada na primeira fase, depois de o elenco entrar em greve. O pivô da confusão foi Nicolas Anelka, cujos pais imigraram de Martinica, no mar do Caribe. Houve uma pesada discussão com o técnico Raymond Domenech, e na opinião do atacante, o caso mostrou como a igualdade étnica ainda está longe de ser atingida no futebol francês. “As pessoas disseram que havia um clã de jogadores negros na seleção francesa e que vimos a verdadeira face da França”, disse, segundo a CNN. “Quando o time da França fracassa, as pessoas começam imediatamente a falar de jogadores de pele escura e crenças religiosas. Disseram que Franck Ribéry havia batido em Yoann Gourcuff – Ribéry, o muçulmano, e Gourcuff, o bom garoto francês. Quando as coisas estão difíceis, nós descobrimos o que as pessoas realmente pensam”.

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Domenech não ficou no cargo depois do retumbante fracasso no Mundial de 2010 e foi substituído por Laurent Blanc, e a seleção francesa conseguiu passar quase um ano inteiro sem confusões. Quase. Em junho de 2011, o diretor-técnico François Blaquart foi suspenso das suas atividades pela Federação Francesa de Futebol, sob a acusação de ter proposto uma cota para jogadores negros e de descendência árabe nas categorias de base da seleção. Essa ideia veio a público quando o conteúdo de uma discussão entre Blaquart e Blanc sobre o assunto foi vazado pela imprensa. O atualmente técnico do PSG foi inocentado de discriminação após uma investigação do Ministério dos Esportes. “Em 1998, a única pessoa dizendo que havia diversidade demais era Jean-Marie Le Pen. Agora, parece que tudo que não seja cristão e branco é considerado uma ameaça”, avaliou, à CNN, o escritor Joachim Barbier, autor do livro Futebol feito na África.

Após os atentados de Paris, a discussão sobre imigração ficará ainda mais quente, e a seleção francesa provavelmente participará dela. O time de Deschamps tem Patrice Evra, que nasceu no Senegal; tem Raphael Varane, cujo pai veio de Martinica; tem a promessa Kingsley Coman, descendente de malineses; tem os muçulmanos Benzema e Sagna que, por exemplo, precisaram lidar com o jejum do Ramadã durante a última Copa do Mundo, e Sissoko e Ben Arfa, que reclamaram de um patrocínio do Newcastle que promovia uma empresa cuja prática contraria a religião deles. Ou Lass Diarra, acusado de ser jihadista, e cuja prima morreu nos tiroteios da última sexta-feira no centro da cidade.

Todos levam suas peculiaridades para formar um time forte, favorito à Eurocopa do ano que vem, novamente em casa, quando poderemos ver se os atentados de Paris inflam o sentimento de união entre os franceses a um nível similar ou até maior do que vimos na Copa do Mundo de 1998. Melhor do que resultarem no fechamento das portas para os imigrantes, o que pode deixar os pais do próximo Zidane no lado de fora.

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