A confiança da Federação Francesa de Futebol (FFF) no trabalho de Didier Deschamps não poderia estar mais expressa do que nesta terça-feira (10). Em entrevista coletiva, o presidente da instituição, Noël Le Graët, sentou-se ao lado do técnico para anunciar a renovação de contrato do campeão mundial até o fim da Copa do Mundo de 2022, entre novembro e dezembro.

A reação dos torcedores franceses ao anúncio, que não era exatamente uma grande surpresa, foi mista. Uma parte se mostrou descontente por causa do nível das atuações em 2019 – e mesmo ao longo de todo o serviço de Deschamps no comando dos Bleus. Por outro lado, muita gente também vê a situação como Le Graët: em termos de resultados, não se poderia esperar muito mais do treinador.

Em 2019, foram 11 jogos disputados pela seleção francesa: um amistoso contra a Bolívia e dez partidas pelas eliminatórias para a Euro 2020. No período, a equipe colecionou nove vitórias e só não conseguiu passar pela Turquia. No duelo com os turcos, foi derrotada fora de casa por 2 a 0 e apenas empatou no Stade de France, na metade de outubro.

Os maiores placares vieram contra Islândia e Andorra: 4 a 0 nas duas ocasiões. Ainda assim, o nível mostrado esteve aquém do esperado da atual campeã mundial, e mesmo os resultados positivos podem ser também atribuídos à fragilidade dos adversários ao longo do ano – Moldávia e Albânia foram as outras seleções encaradas pela França.

A impressão é de que a seleção francesa se comporta com cuidado excessivo mesmo contra adversários claramente mais fracos, assumindo poucos riscos e conseguindo os triunfos muito na base da qualidade individual de seus jogadores. Mas a FFF se agarra mais ao produto final vitorioso trazido por Deschamps.

O técnico assumiu a seleção em julho de 2012, depois da saída de Laurent Blanc, eliminado nas quartas de final da Euro 2012. Deschamps levou os Bleus a uma final de Eurocopa, em 2016, e ao título da Copa do Mundo de 2018, depois de eliminação nas quartas de final do Mundial de 2014. Mostrou, portanto, uma evolução lenta e constante, ao menos nos resultados.

Para Le Graët, estes resultados “não se discutem” e tornam a decisão da prolongação “muito lógica”. O presidente falou ainda sobre como o novo vínculo é uma forma de dar estabilidade a uma equipe prestes a disputar um torneio tão importante quanto a Eurocopa.

“Quando se tem uma competição importante como a Euro, é importante que os jogadores e os treinadores estejam tranquilos quanto a seu futuro. Eu não me permitiria vislumbrar um fracasso, mesmo que isso possa acontecer no futebol. E o contrato não tem nenhum cláusula negativa.”

Deschamps deixou seu nome na história da seleção francesa como jogador, com 101 partidas e um título de Copa do Mundo. Como treinador, tornou-se então apenas o terceiro nome a vencer o Mundial como atleta e técnico, depois de Zagallo e Beckenbauer. Já tem 100 jogos no comando dos Bleus, com 65 vitórias, 18 empates e 17 derrotas, e deverá ter uma história mais longeva como comandante nos Bleus do que como comandado.

Questões de seleção de jogadores à parte, como a demora para dar uma chance a Aymeric Laporte, do Manchester City, e a insistência em Olivier Giroud, que pouco joga no Chelsea, o público que aprova o seu trabalho é maior do que o que desaprova. E quem toma as decisões parece disposto a sacrificar um pouco de futebol encantador em troca de resultados. Até porque largar o projeto de Deschamps não seria garantia de que o primeiro viria.