Parece estranho incluir os Bleus, hoje bicampeões europeus e mundiais, no rol de “azarões” de qualquer torneio. Mas nem sempre foi assim. A seleção da França que deixou a Suécia com um terceiro lugar na Copa de 1958 e os históricos 13 gols marcados pelo recordista Just Fontaine havia chegado àquele Mundial desprovida de qualquer favoritismo, até em seu grupo. E durante muitas décadas, aquela seria, de longe, sua campanha mais notável em Copas.

Embora tivesse sido o palco da reunião que criou a Fifa em 1904, hospedado a sede da entidade internacional até 1932 e fosse o país de origem de Jules Rimet, o cartola que criou a Copa do Mundo, a França tinha até o fim dos anos 50 uma seleção com histórico bastante discreto na competição. Era assídua, é bem verdade: aquele da Suécia seria o seu quinto Mundial em seis realizados. Mas sem campanhas marcantes.

Em 1930, batera o México (4 a 1) no primeiro jogo da história das Copas, mas em seguida perdera para Argentina e Chile (ambos por 1 a 0). Quatro anos depois, caíra logo de cara para a Áustria por 3 a 2, ainda que tivesse conseguido levar para a prorrogação a partida diante do forte Wunderteam. Em 1938, em casa, bateu a amadora seleção da Bélgica na primeira fase (3 a 1), antes de cair para a campeã Itália pelo mesmo placar nas quartas.

Após a Segunda Guerra Mundial, a França ficou de fora da Copa de 1950, no Brasil, ao perder um jogo desempate das Eliminatórias para a Iugoslávia em Florença. E em 1954, na Suíça, voltaria a ser batida pelos balcânicos por 1 a 0 (no primeiro jogo da história do torneio a ser exibido ao vivo pela televisão na Europa), antes de vencer a fraca seleção mexicana por 3 a 2. Pelo estranho regulamento, não enfrentou o Brasil, a outra seleção da chave.

UM CLUBE IMPULSIONA A SELEÇÃO

Se a seleção ainda carecia de resultados de expressão, os clubes franceses viviam bom momento naqueles anos 50. Em especial o Stade de Reims, que vencera a Copa Latina (disputada pelos campeões de Itália, Espanha, Portugal e França) em 1953 e ficara com o vice em 1955, batido pelo Real Madrid na final. Também contra os merengues, decidiria – e perderia – a primeira edição da história da Copa dos Campeões, na temporada 1955/56.

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A partir de 1955, o comandante daquela equipe do Stade de Reims passaria a dividir seu tempo entre o clube e a seleção. Ex-meia dos alvirrubros, Albert Batteux pendurara as chuteiras em 1950 e logo assumira o posto de técnico, ficando até 1963. Participaria de todos os seis títulos franceses levantados pelo Reims em sua história: no primeiro deles, em 1949, como jogador e nos cinco seguintes como técnico. Levantaria ainda uma Copa da França em 1958.

Revolucionários para o país na época, os métodos de Batteux foram levados do clube para a seleção. A reposição de bola pelo goleiro era sempre feita pelo chão, de pé em pé, evitando chutões. Os jogadores eram orientados a desarmar os adversários sem apelar para faltas. E para desenvolver a técnica e a tomada de decisão de seus comandados, Batteux promovia treinos de três contra três em quadras de basquete, algo semelhante ao futsal.

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Seria ele o comandante da França nas Eliminatórias da Copa da Suécia. Nos quatro jogos, os Bleus anotariam 19 gols. Mas a marca passou despercebida devido à fraqueza dos adversários, ambos amadores. A Bélgica – que havia jogado a Copa anterior, mas tinha futebol pouco expressivo – foi derrotada em Colombes por 6 a 3. E estreante Islândia, goleada em Nantes (8 a 0) e em Reykjavik (5 a 1). Um empate sem gols com os belgas em Bruxelas confirmou a vaga.

Após a conquista da classificação, os resultados em amistosos também não impressionaram: os franceses foram goleados pela Inglaterra em Wembley (4 a 0) e, jogando em Paris, empataram com Bulgária (2 a 2), Espanha (2 a 2) e Suíça (0 a 0), três seleções que não iriam à Copa. Diante desse retrospecto, é compreensível que, na época, os Bleus não figurassem entre as equipes cotadas a fazerem um bom papel em gramados suecos.

No começo de junho, dias antes da abertura da Copa, as tradicionais bolsas de apostas de Londres anunciavam que o Brasil e a Iugoslávia (que integrava o mesmo Grupo 2 no qual estavam os franceses) eram os grandes favoritos à Taça Jules Rimet, seguidos por Inglaterra, Argentina, Hungria, União Soviética e Alemanha Ocidental, nessa ordem. Na rabeira, atrás até mesmo do México, e pagando 66 por 1, vinham França e País de Gales.

Até mesmo entre os franceses as pretensões eram modestas. Na análise prévia do jornalista Daniel Rocher, da agência France Presse, aquela chave tinha um “favorito lógico”, a Iugoslávia, e um “desconhecido”, o Paraguai – que embora tivesse impressionado na preparação, poderia sofrer com o clima escandinavo. O que deixava, em tese, a segunda vaga a ser disputada entre França e Escócia, “com ligeiras preferências para os tricolores”.

Além da grande qualidade técnica de seus jogadores, o favoritismo da Iugoslávia era explicado também pelo desempenho avassalador da equipe dirigida por Aleksandar Tirnanic em alguns jogos preparatórios antes do Mundial. Em maio de 1957, os balcânicos trucidaram a Itália por 6 a 1 em Zagreb pela Dr. Gerö Cup, torneio entre seleções da Europa central. E em maio de 1958, foi a vez da Inglaterra ser abatida por 5 a 0 em Belgrado.

O DESFALCADO TIME-BASE

Se com tudo isso considerado as análises não eram muito favoráveis aos franceses, pior ainda ficariam com as baixas sofridas no elenco nos meses que antecederam o Mundial. Primeiro foi o centroavante Thadée Cisowski, goleador de origem polonesa do Racing Paris, que havia marcado cinco vezes nos 6 a 3 sobre a Bélgica, igualando um recorde nacional que vinha desde 1913. Estava fora da Copa por uma fratura na perna.

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Em 14 de abril de 1958, quatro atletas de origem argelina – o zagueiro Mustapha Zitouni (que havia sido convocado para o amistoso com a Suíça a ser jogado dali a dois dias), os meias Rachid Mekhloufi e Abdelaziz Ben Tifour e o ponta-direita Said Brahimi – abandonaram a seleção para se juntar ao time da Frente de Libertação Nacional, que divulgava a luta pela independência da então colônia francesa no norte da África.

Por fim, já durante os treinamentos em solo sueco, a dias da estreia na Copa, houve o desfalque do centroavante René Bliard, do Stade de Reims, que se lesionou no tornozelo durante um jogo-treino contra um clube local. Cortado, ele abriria espaço na equipe para um companheiro de clube. Um certo Just Fontaine, nascido em Marrakech, filho de pai francês e mãe espanhola, e que até ali somava apenas cinco partidas (e quatro gols) pelos Bleus.

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Por outro lado, os desfalques acabaram ajudando a solidificar um time-base, pouco mexido ao longo da Copa: sete titulares atuaram em todas as partidas e outros três ficaram de fora apenas de uma. Somente no gol a mudança aconteceu a partir do terceiro jogo. François Remetter, do Bordeaux, o arqueiro mais utilizado nas Eliminatórias e que já havia disputado a Copa de 1954, cedeu o posto a Claude Abbes, do Saint-Étienne, que se firmaria.

Como praticamente todas as seleções daquela Copa, o sistema defensivo francês ainda estava disposto no WM, mas já indicava uma transição para a defesa com quatro jogadores, novidade daquele Mundial. Os laterais eram Raymond Kaelbel (Monaco) pela direita e André Lerond (Lyon) pela esquerda, com o capitão Robert Jonquet (Stade de Reims), principal referência do setor, atuando como central – apesar de inscrito com a camisa 10.

A dupla de médios defensivos tinha pela direita Armand Penverne (Stade de Reims), que recuava com frequência sugerindo uma função de quarto zagueiro, e Jean-Jacques Marcel (Olympique de Marselha) pela esquerda, encarregado de ser a sombra do criador de jogo adversário. Um pouco mais adiante, aparecia o grande cérebro da equipe, Raymond Kopa, um ponta-direita de origem convertido em meia, que em 1956 trocara o Reims pelo Real Madrid.

Na meia-esquerda, mais adiantado como um ponta-de-lança encostando no centroavante, jogava Roger Piantoni (Stade de Reims), perigoso nas infiltrações e com faro de gol. Pelas pontas, dois jogadores de estilos distintos: pela direita, Maryan Wisnieski (Lens), atacante impetuoso, ainda hoje o mais jovem a estrear pela seleção. Já pela esquerda, Jean Vincent (Stade de Reims) era um ponteiro mais sóbrio, com características de armador.

No centro do ataque, o já citado Just Fontaine, marroquino de nascimento e que surgira para o futebol no USM Casablanca de seu país natal, então colônia francesa. Em 1953, chegaria à França para defender o Nice e, três anos mais tarde, seria integrado ao forte elenco do Stade de Reims, time em que atuava na época do Mundial. Naquela seleção, Fontaine também simbolizava uma característica perene dos Bleus: a presença de imigrantes.

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Raymond Kopa (cujo sobrenome completo era Kopaszewski) tinha ascendência polonesa, assim como Maryan Wisnieski. Roger Piantoni e dois dos reservas (o goleiro Dominique Colonna e o armador Bernard Chiarelli) eram de origem italiana. O arqueiro Claude Abbes era filho de um agricultor espanhol. O atacante Célestin Oliver nascera na Argélia. E outro reserva, o meia Kazimir Hnatow, tinha família originária de onde hoje é a Ucrânia.

NA PRIMEIRA FASE, SAINDO POR CIMA

A escalação de Fontaine se mostraria recompensadora já na partida de estreia, diante do Paraguai no Idrottsparken de Norrköping. O jogo começou complicado – dando razão à baixa cotação dos franceses antes do Mundial – e até certo ponto violento: os guaranis abriram o placar numa falta cobrada por Florencio Amarilla aos 21 minutos de jogo. Em cinco minutos, a França virou o jogo com dois lançamentos magistrais de Kopa para Fontaine.

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Mas os sul-americanos marcaram outra vez com Amarilla, de pênalti, aos 42, e a partida foi para o intervalo empatada. Na volta, o Paraguai voltaria a passar à frente com gol de Jorge Romero aos cinco minutos. Só que o jogo mudaria dramaticamente quando o meia José Parodi se lesionou e teve de deixar o campo, fazendo os paraguaios jogarem com dez. E a França empataria dois minutos depois com um golaço de Piantoni, e dali em diante deslancharia.

Aos 17 minutos, Wisnieski colocaria os franceses de novo em vantagem após jogada individual. Quatro minutos depois, Fontaine completaria seu hat-trick depois de receber um cruzamento de Piantoni e ganhar a disputa com o goleiro Ramón Mayeregger. Aos 25, Kopa completaria um cruzamento de Fontaine para marcar o sexto dos Bleus. E aos 39, Vincent também entrou na brincadeira, tocando no canto do arqueiro guarani após receber de Kopa.

A goleada francesa surpreendeu o público e a imprensa, assim como o outro resultado da rodada, o tropeço da Iugoslávia ao empatar em 1 a 1 com a Escócia. De todo modo, para o jogo seguinte, contra os balcânicos, Albert Batteux promoveu uma mudança na defesa, com a entrada de Roger Marche, jogador mais experiente do elenco. A alteração também levou a uma série de trocas de posicionamento no setor para tentar conter o forte ataque adversário.

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A exemplo da estreia contra os paraguaios, a partida realizada no pequeno estádio de Arosvallen, em Västeras, também teve muitos gols e várias alternâncias no placar, mas desta vez a história seria quase o inverso: os franceses sairiam na frente logo aos quatro minutos com Fontaine, mas os iugoslavos empataram aos 16 com Aleksandar Petakovic, depois que o goleiro Remetter saiu em falso após uma cobrança de escanteio.

Na etapa final, a Iugoslávia passaria à frente quando Todor Veselinovic foi lançado, livrou-se de Lerond e chutou para virar o jogo. A França empataria a cinco minutos do fim, com mais um gol Fontaine após contra-ataque. Mas não conseguiria segurar o resultado, e a vitória ficaria mesmo com os balcânicos: aos 43, um cruzamento da esquerda encontrou Veselinovic sozinho no meio da área francesa. Mesmo escorregando, ele teve tempo de finalizar e decidir o jogo.

No outro jogo do grupo naquela rodada, o Paraguai derrotou a Escócia por 3 a 2. Os resultados levaram a Iugoslávia ao topo do grupo com três pontos, seguida por franceses e paraguaios (que somavam dois). Mesmo na lanterna, com um ponto, os escoceses tinham chances e jogariam tudo contra os Bleus na última rodada. Depois que suas mudanças na defesa não surtiram efeito, Albert Batteux retornou à escalação original. Mas trocou o goleiro.

Em Örebrö, a França abriu a contagem aos 22 minutos, quando Fontaine foi lançado por Kopa na direita, arrancou até a linha de fundo e retribuiu cruzando rasteiro para a pequena área, de onde o armador tocou para as redes. Oito minutos depois, a Escócia teve chance de ouro para empatar num pênalti estranho marcado pelo árbitro, mas o estreante Abbes contou com a sorte e não foi vazado: o zagueiro John Hewie chutou na trave.

O jogo ficou tenso, e um princípio de confusão surgiu, mas foi logo dissipado. Até que no último minuto do primeiro tempo os Bleus ampliaram a vantagem numa jogada já manjada daquele time: os lançamentos precisos de Kopa para as infiltrações de Fontaine no meio da defesa adversária. O atacante ganhou na corrida dos zagueiros e tocou na saída do goleiro Bill Brown. A ordem agora era segurar a boa vantagem construída na etapa inicial.

E, exceto por um gol de Sammy Baird numa cochilada da retaguarda francesa aos 21 minutos do segundo tempo, não houve maiores complicações. Com o empate em 3 a 3 entre paraguaios e iugoslavos (que estiveram três vezes na frente do placar, mas cederam a igualdade), o time de Albert Batteux confirmava não só a classificação como também o primeiro lugar do grupo pelo critério do goal average (divisão dos tentos marcados pelos sofridos).

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A liderança da chave também trouxe outro benefício à França: diante do desfecho surpreendente do Grupo 1, com a Argentina terminando na lanterna e a Tchecoslováquia perdendo o jogo desempate para a Irlanda do Norte, coube aos Bleus encarar os britânicos, tão azarões quanto eles próprios antes do início do torneio. Enquanto isso, a antes favorita Iugoslávia reencontraria a Alemanha Ocidental, que a eliminara quatro anos antes na mesma fase.

Até mesmo o fato de os norte-irlandeses terem precisado se submeter ao jogo extra para levar a segunda vaga de seu grupo ajudou os franceses, que entraram em campo mais descansados e sem problemas de lesão. A Irlanda do Norte, no entanto, fez jogo parelho no primeiro tempo, com o goleiro Harry Gregg muito firme na meta e o meia Jimmy McIlroy comandando o setor ofensivo e levando perigo à defesa dos Bleus.

Só que a França saiu em vantagem para o intervalo depois que Wisnieski aproveitou uma rebatida da defesa e chutou forte, quase da linha de fundo, com pouco ângulo, para vencer Gregg. E na etapa final, dispararia a goleada: logo aos dez minutos, Fontaine escorou cruzamento da direita e fez o segundo. Pouco depois, ele recebeu passe na meia-lua, entortou o zagueiro Dick Keith com um belo drible e bateu rasteiro no canto de Gregg.

No quarto gol, aos 23 minutos, a arte do drible voltaria a aparecer: Piantoni recebeu na ponta-direita, passou a bola por entre as pernas de Willie Cunningham, invadiu a área e fuzilou o goleiro, fechando em 4 a 0 a goleada que colocou os Bleus numa improvável semifinal. Do outro lado, estaria o Brasil, vencedor do Grupo 4 (considerado o “da morte” naquela Copa) e que avançara nas quartas após vitória dramática sobre outro azarão, o País de Gales.

O FIM DO SONHO DO TÍTULO

A euforia pela grande campanha inesperada tomou conta do país a ponto de as namoradas e esposas dos jogadores terem sido levadas à Suécia para apoiá-los, com despesas pagas pelo jornal L’Équipe. A medida foi considerada pela imprensa do Brasil, adversário dos Bleus nas semifinais, como uma demonstração de “oba-oba”, de vitória cantada antes do tempo, o que não chegava a ser o caso, visto que, de qualquer forma, a campanha francesa já era histórica.

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Em Estocolmo, o Brasil começou com a corda toda e abriu o placar logo aos dois minutos com Vavá. Mas a França empatou aos nove, quando Fontaine recebeu passe na área, driblou Gilmar e tocou para as redes. Era a primeira vez que a meta brasileira era vazada naquela Copa. Para o azar dos Bleus, no entanto, o time perderia seu esteio da defesa, o capitão Jonquet, que teve a fíbula fraturada após um choque com Vavá aos 35 minutos.

No improviso, o médio-esquerdo Marcel (que vinha sendo o responsável por tomar conta de Didi) foi recuado para a zaga central, enquanto o ponta-esquerda Vincent assumiu a função de vigiar o armador brasileiro. Com um a mais, a Seleção disparou no placar: três minutos depois, Didi já acertava um chute de longe no ângulo para recolocar o escrete canarinho em vantagem antes do intervalo. Na etapa final, o Brasil construiria a goleada em pouco mais de meia hora.

Pelé marcaria três vezes. Aos oito minutos, escorou uma bola que Abbes soltou aos seus pés. Aos 19, pegou o rebote de uma bola travada de Vavá. E aos 31, ajeitou na coxa e disparou chute forte e cruzado no canto direito de Abbes. A França descontaria com um belo gol de Piantoni, enfiando a bola por entre as pernas de Zito e batendo de fora da área para vencer Gilmar. Apesar do fim do sonho da final, era um desfecho à altura do talento daquele time.

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Alem de Jonquet, o atacante Piantoni também deixou o jogo contra o Brasil lesionado e seria desfalque na decisão do terceiro lugar contra a Alemanha Ocidental (derrotada pelos anfitriões suecos por 3 a 1 na outra semifinal). Maurice Lafont, do Nîmes, entrou na zaga e Yvon Douis, do Lille, no ataque. O jogo foi disputado em Gotemburgo debaixo de muita chuva e com campo pesado, o que, em tese, favorecia o jogo mais duro dos alemães.

Os campeões de 1954, que também entraram com muitos desfalques, chegaram a balançar as redes com o atacante Alfred Kelbassa, de carrinho, mas o árbitro argentino Juan Brozzi invalidou marcando falta no goleiro. A França então abriu o placar quando Fontaine completou passe de Wisnieski para as redes. Dois minutos depois, os germânicos ainda empatariam com o atacante Hans Cieslarczyk, mas logo depois os Bleus deslanchariam.

Aos 27, Douis recebeu lançamento em profundidade de Kopa, arrancou até a área e foi derrubado por Erhardt. O mesmo Kopa chutou no canto para desempatar. O terceiro gol viria aos 36, após o goleiro Heinz Kwiatkowski afastar mal uma cobrança de escanteio. O lateral Lerond pegou o rebote e chutou para o gol. No meio do caminho, a bola bateu em Fontaine e sobrou para o centroavante finalizar na pequena área.

Em meio ao jogo até violento dos alemães, o quarto gol francês foi uma pintura: começou com um belo drible de Kopa no meio-campo, a arrancada do camisa 18, a tabela com Fontaine e a troca de passes que chegou até Douis, que finalizou com a bola ainda resvalando em um defensor. Os germânicos descontaram com uma bonita jogada de Helmut Rahn, driblando Lerond e chutando alto e forte da linha de fundo, longe do alcance de Abbes.

Em outra arrancada, Fontaine marcaria o quinto gol francês, e a Alemanha de novo descontaria com Hans Schäfer, mesmo marcado, escorando cruzamento de Rahn. Mas outra vez Fontaine daria números finais ao placar com um gol fácil. Em meio à defesa alemã totalmente escancarada, ele recebeu quase no meio-campo e arrancou sem ser incomodado até a área, finalizando com um toque rasteiro, por baixo de Kwiatkowski. Placar final de 6 a 3.

Com os quatro gols anotados diante dos então ainda campeões mundiais, Just Fontaine chegou ao incrível total de 13 marcados nas seis partidas da França naquele Mundial, superando os 11 feitos pelo húngaro Sándor Kocsis na Copa anterior. Também balançou as redes em todos os seis jogos de sua seleção numa mesma edição do torneio, feito que só seria igualado por Jairzinho no Mundial do México, em 1970.

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A marca hoje aparentemente insuperável de Fontaine seria sua grande glória no cenário mundial. Sua carreira seria encerrada precocemente por lesões: o atacante sofreria uma dupla fratura na perna em março de 1960, seguida por outra fratura em janeiro de 1961. Sem ser o mesmo de antes, pendurou as chuteiras em julho do ano seguinte, com apenas 28 anos, mas com o impressionante número de 30 gols em 21 jogos pelos Bleus.

Logo em seguida àquela grande campanha no Mundial sueco, o bom momento do futebol francês seguiu com o Stade de Reims chegando a mais uma final da Copa dos Campeões, na qual seria novamente batido pelo Real Madrid. A seleção, por sua vez, despachou com facilidade a Grécia e a Áustria nas fases eliminatórias da primeira Eurocopa. E foi apontada como sede da fase final do torneio, disputada pelos classificados das quartas de final.

Na semifinal em Paris, mesmo desfalcada de Kopa, Fontaine e Piantoni, a França chegou a abrir 3 a 1 e depois 4 a 2 diante da Iugoslávia na metade da etapa final. Mas, liderada pelo atacante Drazan Jerkovic, a seleção balcânica obteve uma incrível virada para 5 a 4, voltando a ser a pedra no sapato dos Bleus como fora nas três Copas do Mundo anteriores. Na decisão de terceiro lugar, a França voltou a perder, agora para a Tchecoslováquia, por 2 a 0.

Após 1958, a França levaria 24 anos para voltar a passar da primeira fase num Mundial. Ficaria de fora das Copas de 1962 (eliminada pela estreante Bulgária), de 1970 (pela Suécia) e de 1974 (pela União Soviética), caindo logo na fase inicial em 1966 (lanterna no grupo com Inglaterra, Uruguai e México) e em 1978, quando deu azar no “grupo da morte” com a anfitriã Argentina, Itália e Hungria, mas revelou a boa geração liderada por Michel Platini.

Já em Eurocopas o jejum de participações também chegou aos 24 anos. Depois de sediar a edição inaugural, os franceses não se classificariam para as fases finais de 1964, 1968, 1972, 1976 e 1980. Somente em 1984, ao serem de novo escolhidos como anfitriões – o que agora dispensaria a disputa das Eliminatórias – é que estariam de volta ao torneio. Mas dessa vez, o desfecho foi bem diferente, com o título categórico que mudou de vez a seleção de patamar.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.