Os brasileiros sempre representaram uma parte importante da dinastia de Diego Simeone no Atlético de Madrid. Filipe Luís tomou conta da lateral esquerda , Diego Costa acumulou gols decisivos com a camisa colchonera, Miranda permaneceu por longos anos como esteio da zaga. Neste momento de renovação no Wanda Metropolitano, outros dois brasileiros se erigem como nomes relevantes: o lateral Renan Lodi e o zagueiro Felipe. Apesar do desempenho abaixo da crítica do Atleti na temporada, ambos se mantêm acima da média. E protagonizaram a vitória mais importante do clube em 2019/20. Como poucos apostavam, o Atlético derrotou o Liverpool por 1 a 0 nesta terça de Champions, com uma excelente atuação da dupla.

Renan Lodi é quem costuma ficar mais em evidência na imprensa brasileira. Algo natural, com o jovem visto por muitos como o dono da lateral esquerda na Seleção. O ex-jogador do Athletico Paranaense não precisou de muito tempo para se adaptar à Espanha, se destacando logo nas primeiras aparições. Oscilou junto com o time, como é natural a diversos jovens, e nem sempre corresponde com a solidez exigida por Simeone. Ainda assim, seus momentos positivos são mais relevantes que os negativos. Prova disso foi a volta por cima que deu nesta semana.

Durante a última sexta, Lodi não jogou bem contra o Valencia, pelo Campeonato Espanhol. Teve enormes dificuldades para marcar Ferran Torres e terminou substituído no início do segundo tempo. Não se abalou com isso. Logo nos primeiros minutos do jogo contra o Liverpool, o lateral participou diretamente da vitória. Foi a partir de um avanço do brasileiro pela esquerda, gingando para cima de Trent Alexander-Arnold, que o Atlético ganhou um escanteio. Nesta jogada se originou o gol precoce de Saúl.

Lodi travou uma batalha decisiva com Mohamed Salah em sua faixa de campo. O egípcio encontrou muitas dificuldades para se criar por ali, assim como Alexander-Arnold. Mesmo sobrecarregado na marcação, o lateral esquerdo protegeu o setor e foi uma das razões para o Liverpool produzir tão pouco ofensivamente. Acumulou seis desarmes, dois passes interceptados, dois bloqueios. Teve intensidade durante os 90 minutos. E as subidas do brasileiro também providenciaram uma importante válvula de escape ao Atlético.

Renan Lodi seria bastante ativo no apoio. Criou uma chance para Álvaro Morata, que o companheiro não aproveitou, e também arriscou um chute de longe que passou com perigo pela meta de Alisson. A noite em titubeante do jovem no Mestalla não se repetiu no Metropolitano. Tanto que o reconhecimento veio em forma de troféu: o comitê técnico da Uefa elegeu o lateral como o melhor em campo, entregando o novo prêmio oferecido pela entidade.

Felipe, por outro lado, é um nome bem mais silencioso. Vinha em ótima fase no Porto e se tornou o escolhido para ocupar o miolo de zaga com a saída de Diego Godín. Menos inflamado que o uruguaio, o brasileiro não deixa de ser uma referência no sistema defensivo do Atlético de Madrid. Também teve suas noites infelizes, como na eliminação contra a Cultural Leonesa, mas no geral é um dos jogadores mais regulares dos rojiblancos. Foi o que se viu diante do Liverpool nesta terça.

O senso de posicionamento é o principal trunfo de Felipe. Através disso, parecia sempre estar no lugar certo dentro da área para fazer os cortes e evitar os riscos impostos pelo Liverpool. Bem nos combates, manteve a soberania do Atleti próximo de sua meta. E, como se não bastasse, afastou de cabeça um arremate de Salah que renderia o gol. Esteve atento durante todo o tempo e liderou a resistência colchonera à pressão inglesa. Não à toa, recebeu rasgados elogios dos jornais Marcas e As.

Nem mesmo nos momentos mais abastados o Atlético de Madrid recebeu tantas atenções da seleção brasileira, vide o que aconteceu com Diego Costa. E, em uma temporada de rendimento mais baixo, é compreensível a falta de destaque dada a Felipe. Apesar disso, no Metropolitano, a consideração pelo defensor é alta. Aos 30 anos, não é jogador para muito tempo, mas parece disposto a marcar seu nome com a camisa colchonera.

O desafio do Atlético de Madrid será muito maior em Anfield. A vitória nesta terça-feira foi um primeiro passo, mas não diminui o tamanho do problema no segundo jogo e nem minimiza as dificuldades encaradas pelos rojiblancos até agora na temporada. De qualquer maneira, em um momento no qual o Atleti precisava recobrar seu moral, Simeone reviveu o melhor de sua defesa. Viu os dois brasileiros entre os comandantes de sua estratégia. É difícil de dizer se este resultado representará uma guinada. Mas a percepção instantânea ao redor dos rojiblancos muda, especialmente com Lodi e Felipe ao centro.