Uma final de Champions League como nenhuma outra. Um primeiro tempo impecável de um grande time anulado em seis minutos. Um zagueiro com cãibras arrastando-se pela prorrogação. Duas defesas impossíveis de um goleiro médio contra um dos melhores centroavantes da sua geração. Dois craques perdendo pênaltis. Há dez anos, em Istambul, o Liverpool trocou o impossível pelo milagre no seu dicionário, empatou o jogo contra o Milan após estar perdendo por 3 a 0 e conquistou o seu quinto título europeu nos pênaltis.

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Para ser justo aos fatos, o inacreditável começou antes do 25 de maio de 2005. O Liverpool não era um grande esquadrão, mas um time que mesclava jogadores esforçados e competentes com um ou outro acima da média, como Gerrard e Xabi Alonso. Muito bem organizado por Rafa Benítez, passou chorando por um grupo liderado pelo Monaco, com os mesmos pontos do Olympiakos. Ganhou bem do Bayer Leverkusen, usou Anfield e a solidez defensiva para eliminar a Juventus e venceu o Chelsea com um gol de Luis García, consagrado pela história como “fantasma” porque, convenhamos, a bola não chegou a cruzar totalmente a linha.

O Milan tinha Dida, Cafu, Nesta, Maldini, Pirlo, Seedorf, Kaká e Shevchenko, para ficar apenas nos craques, e o destino natural de um encontro entre os dois clubes seria realmente o primeiro tempo: um passeio italiano. Maldini abriu o placar antes do cronômetro completar um minuto em uma bola parada. Permitiu que Ancelotti armasse o contra-ataque para o bote letal. Kaká foi a cobra. Armou dois contra-ataques de manual. No primeiro, arrancou e abriu para Shevchenko cruzar para Crespo. No segundo, passe longo e rasteiro nas costas da defesa, e o argentino finalizou com categoria.

Imagina os vestiários. Um tentava não dar o título por garantido e o outro basicamente rezava para ser o lado vencedor daquela virada que acontece uma vez a cada 30 anos. Mas não apenas isso. Benítez arriscou. Perdendo por 3 a 0, colocou Hamman, um meia defensivo, para liberar Gerrard. Caso o final da história fosse outro, poderia ser acusado de ter desistido, trabalhado apenas para evitar uma humilhação. Mas Gerrard entrou na área no começo do segundo tempo para cabecear perfeitamente um cruzamento de Riise. E por que não rever o lance em Lego?

Se algum dia alguém não entender por que o torcedor do Liverpool idolatra Gerrard e Carragher, o videotape dessa final é uma boa resposta. O capitão foi responsável por fazer os seus companheiros acreditarem, o que naquele momento era mais difícil que colocar a bola na rede. Também foi o gatilho de um período mágico de seis minutos em que tudo daria certo a favor do seu time. Tanto que o chute da entrada da área de Smicer deveria ter sido defendido por Dida, mas não foi. O pênalti cobrado por Xabi Alonso foi defendido por Dida, mas o espanhol marcou no rebote. Acaso, destino, milagre. A escolha é sua.

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O outro ídolo dos Reds em campo era Carragher, literalmente se jogando no chão para evitar que o poderoso ataque do Milan chutasse contra Dudek. Deu carrinhos para desarmar e bloquear, mesmo durante a prorrogação, quando o seu corpo sofria com cãibras. Mais do que qualidade técnica, nada é mais encantador para o torcedor do que um jogador que deixa tudo dentro de campo. E, então, Dudek. O goleiro fez o jogo da sua vida. Nos acréscimos, a defesa da sua vida. Shevchenko cabeceou da marca do pênalti, uma bola que já deveria ter entrado. Parou nas mãos do polonês. O atacante pegou o rebote, a menos de trinta centímetros do gol, e Dudek defendeu novamente. Mandou a bola para os céus, talvez devolvendo o presente.

Antes da disputa de pênaltis, Carragher chamou Dudek de canto e contou a história de Grobbelaar, que usou as “pernas de espaguete” para incomodar Graziani na final de 1984. Disse que o goleiro precisava fazer de tudo para desconcentrar os cobradores do Milan. De fato, alguma coisa era necessária para compensar a qualidade excepcional do outro goleiro em campo nesse tipo de lance. Dudek balançou as pernas apenas contra Kaká, que converteu. Mas pulou descontroladamente diante de Serginho, Pirlo e Shevchenko. Serginhou mandou para a lua. Pirlo e Shevchenko foram barrados, e o Liverpool completou o milagre que só acontece uma vez a cada 30 anos.

Se tiverem a chance de ver, recomendo um filme de 2011 chamado “Will”, sobre um garotinho apaixonado pelo Liverpool que perde o pai, mas não a esperança, e embarca sozinho em uma viagem da Inglaterra até a Turquia para ver a final da Champions League de 2005.