O Independiente del Valle protagonizou um inesquecível conto de fadas na Libertadores de 2016. Em franco crescimento, o clube já vinha de aparições continentais, mas nada que se aproximasse da epopeia experimentada há três anos. Os rayados encadearam classificações históricas, sobretudo contra os gigantes argentinos. Derrubaram o então campeão River Plate nas oitavas, contendo um bombardeio, e também despacharam o reforçado Boca Juniors na semifinal. Se o título não veio na decisão contra o Atlético Nacional, não foi isso que diminuiu o orgulho pelo importante feito ao futebol equatoriano. E, nesta Copa Sul-Americana, o Del Valle demonstra como nada é por acaso. O novo sucesso reforça a qualidade do projeto em Sangolquí. Neste sábado, às 17h30 (de Brasília), o clube enfrentará o Colón na final em Assunção.

Criado por um grupo de amigos em 1958, o Independiente del Valle passou a maior parte de sua história figurando nas competições amadoras da região. Chamado de Independiente José Terán a partir de 1977, em tributo ao seu fundador, o clube teve uma breve aventura no profissionalismo entre 1979 a 1985, quando disputou terceira divisão. Foi apenas a partir de 1996, quando retornou à terceirona, que adotaria de vez o regime profissional. De qualquer maneira, a grande transformação acabaria reservada para 2006, quando os empresários Michel Deller e Franklin Tello iniciaram seus investimentos na agremiação. Dois anos depois, a equipe conquistou o acesso à segunda divisão do Campeonato Equatoriano e chegaria à elite em 2010. Não sairia mais de lá a partir de então, rebatizada como Independiente del Valle em 2014.

A ideia ao redor do Independiente del Valle é muito clara: o clube aposta as suas fichas em um bom projeto de formação em suas categorias de base para fazer a roda girar. Os frutos do trabalho são evidentes ao longo da década, com diversos jogadores vendidos ao exterior e convocados às seleções de base. Porém, o nível de excelência é tão alto que logo os rayados se tornaram um time altamente competitivo para os níveis nacionais, também com a adição de alguns atletas mais rodados. Em 2012, conquistaram a inédita classificação à Copa Sul-Americana. Em 2013, graças ao vice-campeonato nacional, viria também a vaga na Libertadores.

Não que o Independiente del Valle tenha se mantido dominante em todo esse período. Presente na Libertadores de 2014 a 2018, caiu três vezes nas preliminares e apenas em 2016 alcançou os mata-matas. No próprio Campeonato Equatoriano, o mais costumeiro foi terminar em terceiro lugar, ainda sem chegar à taça. Mas, depois do sucesso feito sob as ordens do uruguaio Pablo Repetto no vice-campeonato continental, os rayados reencontraram os seus rumos ao apostarem neste ano em Miguel Ramírez, um “desconhecido” treinador espanhol de 35 anos.

Ramírez chegou ao Independiente del Valle em junho de 2018, para comandar as categorias de base. Ele tinha sido indicado por outro espanhol, Roberto Olabe, que até já havia deixado o Equador para virar diretor da Real Sociedad. Após trabalhar no Las Palmas e no Alavés, o treinador passou seis anos na famosa Academia Aspire, do Catar, chegando a auxiliar Félix Sánchez na seleção sub-19 do país árabe. Em Sangolquí, sua principal missão era chefiar o processo formativo. Todavia, a mudança do técnico Ismael Rescalvo (mais um espanhol) ao Emelec em abril de 2019 levou Ramírez a ser promovido para o time principal dos rayados.

Mesclando jogadores mais tarimbados com os seus prodígios da base, Ramírez manteve o bom momento do Independiente del Valle no Campeonato Equatoriano. Mais notável, de qualquer maneira, foi sua arrancada na Sul-Americana. Rescalvo já tinha conquistado a classificação nos pênaltis contra o Unión Santa Fe. O novo comandante, logo em sua estreia internacional, seria capaz de golear a Universidad Católica por 5 a 0. Os rayados passaram com certa autoridade ainda pelo Caracas nas oitavas, até conquistar seus dois resultados mais expressivos. Com a derrota por 2 a 1 em Avellaneda e a vitória por 1 a 0 em Quito, o Del Valle despachou a camisa pesada do Independiente – clube que, inclusive, serviu de inspiração à sua própria criação. Isso até o resultado categórico contra o Corinthians em Itaquera.

A vitória por 2 a 0 na Arena Corinthians mostrou o melhor deste Independiente del Valle. É um time que sabe trabalhar bem a bola, com suas trocas de passes em progressão. É uma equipe que aproveita bem a amplitude do campo, com os seus pontas e laterais. Além disso, os equatorianos neutralizaram seus oponentes, sobretudo pela pressão alta na marcação. Já no reencontro dentro do Estádio Olímpico Atahualpa, apesar da postura valente dos corintianos para tentar a reação, a intensidade e a agressividade renderam o empate aos anfitriões, confirmando a classificação à final.

Pelo nível do futebol apresentado, não seria exagero dizer que o time atual do Independiente del Valle é mais vistoso que o vice-campeão da Libertadores em 2016. A diferença para a história, ainda assim, estará no resultado da final. E a situação até parece mais aberta desta vez aos equatorianos, em relação ao duelo com o Atlético Nacional, que carregava um favoritismo maior há três anos. Por mais que a Olla Azulgrana se prometa abarrotada de santafesinos, a campanha do Colón não impressiona tanto pelo que se nota dentro de campo, apesar de certa tarimba.

O ponto de equilíbrio na equipe do Independiente del Valle é o volante Cristian Pellerano. Aos 37 anos, o argentino possui vasta experiência em clubes como o Independiente, o Tijuana, o América do México e o próprio Colón. Não apenas confere equilíbrio aos rayados, como também serve de exemplo aos mais jovens. O camisa 10 Efrén Mena e o centroavante Gabriel Torres são os outros medalhões frequentes em campo. Entretanto, o Del Valle desfruta de muita juventude. O ponta colombiano Cristián Dájome, de 25 anos, deu enorme trabalho contra o Corinthians. Crias da casa, Jhon Jairo Sánchez e Alan Franco são outros nomes importantes. Vale destacar ainda o zagueiro Fernando León, único remanescente de 2016.

No muito que mudou no time do Independiente del Valle nestes três anos, Miguel Ramírez recebe elogios não apenas pelo que exibe em campo, mas também por sua postura. O treinador tratou de preservar a identidade de jogo que já se trabalhava com Rescalvo. Além disso, é visto como um sujeito contido, que não precisa ser midiático para conquistar o respeito. É visto como um professor pelos mais jovens, especialmente por seus métodos didáticos. Sempre usa as imagens em vídeo para corrigir os movimentos de seus atletas e trata até mesmo de usar telões no CT, para exibir suas ideias em tempo real.

O que não mudou e nem mudará no Independiente del Valle é a atenção dada às categorias de base. O clube oferece instalações de ponta aos seus garotos, onde garantem a formação e os estudos a 120 adolescentes. Além disso, os rayados possuem uma bem estruturada rede de escolinhas e de olheiros pelo Equador. Mesmo Ramírez não se desgarra disso. Por mais que trabalhe com o time principal, costuma se encontrar com os meninos para conversar e saber de seus problemas, como era antes de mudar de função. Segundo ele, os laços seguem fortes e não teria nenhum problema em voltar para a base, já que não tinha planejado trabalhar com o profissional tão cedo.

Tanto na Libertadores de 2016 quanto na Sul-Americana de 2019, o Independiente del Valle se destacou ainda por mobilizar torcidas de diferentes clubes no Equador. Como um time de ascensão recente, em uma cidade com 75 mil habitantes, os rayados dependeram deste apoio e conseguiram levar um bom número de espectadores ao Estádio Olímpico Atahualpa. Não serão muitos os que toparão a viagem para Assunção, é verdade. Em compensação, um título valorizaria o futebol equatoriano como um todo. E provaria de uma vez por todas como o Del Valle tem ótimas condições para seguir em evidência. Faz por merecer tal reconhecimento.