A final da Liga Europa renova o toque de Midas que Monchi outra vez dá ao Sevilla

A Copa da Uefa / Liga Europa transformou o Sevilla a partir de 2006. Os cinco títulos conquistados pelos andaluzes, em duas sequências dominantes, não foram mera coincidência: os métodos de trabalho se tornavam bastante claros, sobretudo pela montagem de equipes competitivas sem gastar muito. E esse status europeu dos rojiblancos fez de Monchi um dos executivos mais respaldados do futebol mundial. O ex-goleiro de carreira modesta, como diretor de futebol, virou um “Midas do mercado de transferências”. Cobiçado por outros clubes da Europa, o andaluz seguiu à Roma e mostrou também como seu planejamento não era infalível. Entretanto, o retorno ao Ramón Sánchez-Pizjuán enfatiza como, ao menos no Sevilla, muito do que toca acaba se transformando em ouro.

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A relação de Monchi com o Sevilla começa em 1988, quando o então goleiro chegou à filial do clube aos 20 anos. Virou reserva da equipe principal a partir de 1991 e seguiria por lá até 1999, mas longe de uma trajetória que garantisse sua idolatria. Ao menos, pôde aprender um bocado no banco ao lado de treinadores como Carlos Bilardo, Luis Aragonés e José Antonio Camacho. O arqueiro virou titular quando os rojiblancos acabaram rebaixados à segunda divisão em 1997 e se aposentaria duas temporadas depois, ao menos auxiliando no acesso de volta a La Liga. De qualquer maneira, Monchi demonstrava visão para seguir carreira nos bastidores e, assim que pendurou as luvas, virou delegado de campo dos andaluzes. Seria um pulo até o cargo de diretor esportivo, aos 32 anos, quando mais uma vez a equipe caiu à segundona.

O sucesso inicial de Monchi é evidente: com sua política de contratações, ajudou o Sevilla a se estabilizar na primeira divisão e, muito mais do que isso, a conquistar dois títulos continentais em sete anos no cargo, com o time sob as ordens de Juande Ramos. Obviamente, nem tudo é responsabilidade do diretor esportivo, com uma grande rede de olheiros e também de análise de desempenho. Mesmo assim, a quantidade de acertos mostra como o processo centralizado pelo ex-goleiro teve sucesso – e como não se resume ao período em que a janela está aberta, com observação e avaliação contínuas.

Os rojiblancos contaram com suas categorias de base para essa ascensão, com a geração encabeçada por Sergio Ramos, Jesús Navas, Antonio Puerta e José Antonio Reyes. Mas foram ainda melhores para garimpar talentos, com uma ajuda particular dos brasileiros nesse período. Daniel Alves, Adriano, Renato, Júlio Baptista e Luis Fabiano foram centrais na afirmação dos andaluzes, ainda com outros destaques como Frédéric Kanouté, Andrés Palop, Enzo Maresca e Christian Poulsen. Não é que todos fossem desconhecidos, mas todos ganharam outra percepção pelo sucesso no Ramón Sánchez-Pizjuán.

Monchi, diretor do Sevilla (Foto: Getty Images)

O fantasma da segunda divisão passava longe do Sevilla, que começou a se colocar entre os seis primeiros de La Liga com enorme frequência e virou time de Liga dos Campeões. Era o momento mais consistente da história recente do clube. E se houve uma pequena queda na virada da década, a Liga Europa representaria da melhor maneira a recuperação a partir de 2014, com o tricampeonato – e a nova fornada de achados de Monchi, agora lapidados em campo por Unai Emery. Sua reputação como gênio das transferências se consolidou com Ivan Rakitic, Carlos Bacca, Aleix Vidal, Geoffrey Kondogbia, Kévin Gameiro, Vitolo, Coke e outros que, se não vingaram em diversos clubes após serem vendidos por bons milhões, deixaram seus nomes impressos na história rojiblanca.

Depois de 17 anos como diretor esportivo do Sevilla, Monchi se despediu do clube para se provar em outro país. Parecia um negócio e tanto à Roma, que teria um executivo renomado para montar uma equipe forte. O projeto de médio prazo estava indicado pelo contrato de quatro anos. Mas as relações do espanhol começaram a se degradar bem antes disso, dentro de uma diretoria que tantas vezes meteu os pés pelas mãos.

O momento era delicado, com a aposentadoria de Francesco Totti, e Monchi não contribuiu à saída fria que teve o Capitano – inclusive, preferiu falar pelo veterano que a temporada de 2017/18 seria a sua última. O adeus conturbado de Daniele de Rossi foi outra questão dolorosa aos romanistas. E não é que os reforços fizessem maravilhas com o time. A lista de novatos que não vingaram como se esperava no Estádio Olímpico é extensa, apesar dos €260 milhões gastos em duas temporadas. Se o mercado dos giallorossi terminou superavitário, foi pela venda de destaques que chegaram antes de Monchi, como Alisson ou Mohamed Salah. Só que o preço disso foi a queda de desempenho, mesmo com uma semifinal de Champions para contar história.

Monchi cumpriu metade de seu contrato com a Roma e, em 2019, estava disponível outra vez. A falta de resultados convincentes de sua política de mercado não fechou as portas em outros clubes de projeção e ele seria cobiçado pelo Arsenal. Mesmo assim, o retorno ao Sevilla parecia muito bem-vindo. O agora subdiretor geral (um cargo com mais poderes) começaria um novo projeto ao lado de Julen Lopetegui, também um treinador disposto a reescrever sua história após a péssima saída da seleção espanhola e os meses frustrantes no Real Madrid. O técnico foi uma aposta bancada pessoalmente pelo executivo. Juntos, os dois ex-goleiros seriam as mentes por trás da montagem de uma nova equipe rojiblanca. E a Liga Europa, novamente, mostra como as escolhas de Monchi foram muito felizes nesses últimos meses no Nervión.

Monchi em seu retorno ao Sevilla (Foto: reprodução)

O Sevilla desmontou no último verão. Foi um mercado de transferências bastante movimentado por muitos jogadores que se foram da Andaluzia, sobretudo no setor ofensivo. Nomes como Wissan Ben Yedder, Luis Muriel, Pablo Sarabia, Gabriel Mercado, Nolito e Sergio Rico fizeram as malas – nem que fosse para sair por empréstimo. E o saldo de mercado dos rojiblancos até foi deficitário, considerando a baciada de reforços que chegou pelas mãos de Monchi. Ao todo, 14 novos jogadores foram incorporados pelo elenco do Sevilla no início da temporada, embora parte deles tenha saído logo na janela de inverno – com mais dois reforços aportando neste período.

Atletas como Chicharito Hernández, Rony Lopes e Munas Dabbur mal serão lembrados no Sevilla. Mas a lista de acertos é muito maior e boa parte deles tem o selo de qualidade de Monchi. Lopetegui formou uma equipe defensivamente muito sólida e de capacidade física, com uma base praticamente inteira trazida nesta temporada. Na escalação repetida durante os últimos três compromissos pela Liga Europa, nove dos 11 titulares foram contratados pelos andaluzes em 2019/20.

A França foi o baú do tesouro do subdiretor geral, como em outras passagens. Pagou €25 milhões para trazer o jovem Jules Koundé do Bordeaux, e o jogador mais caro do time multiplicou seu valor. O zagueiro ganhou a companhia de Diego Carlos, vindo do Nantes, que encerrou La Liga entre os melhores de sua posição. Também para a linha defensiva, o empréstimo de Sergio Reguilón caiu dos céus, sem que o lateral fosse devidamente aproveitado no Real Madrid. E os sevillistas se deram bem até com o goleiro reserva, ao tirarem o marroquino Bono do Girona e verem ele se agigantar nesta Liga Europa, substituindo o lesionado Tomás Vaclík. Isso se contar a liderança de Jesús Navas, readaptado como lateral direito e elo com outros tempos vitoriosos.

Do meio para frente, ainda que menos retumbantes e com uma maior margem de erro, as boas apostas também repetiram o sucesso. Fernando Reges era um veterano esquecido no Galatasaray, mas de ótima temporada, e fez valer o investimento relativamente baixo. O mesmo pode ser dito sobre Nemanja Gudelj, trazido de graça do Guangzhou Evergrande após empréstimo ao Sporting. Juntaram-se a Éver Banega, um dos raros remanescentes de outros tempos do Sevilla, mas trazido pela primeira vez por Monchi em 2014.

Monchi em entrevista coletiva (Foto: Getty Images)

O Sevilla tirou Óliver Torres a um preço suave do Porto, por €11 milhões, após o jovem amadurecer no Estádio do Dragão. Joan Jordán chegou do Eibar pronto a saltos maiores e se estabeleceu nos últimos meses com os andaluzes. Neste grupo de jovens, Carlos Fernández retornou de empréstimo ao Granada e justificou o espaço garantido por Lopetegui. Já no comando do ataque, que os números de Luuk de Jong tenham sido baixos, sobretudo se comparados aos seus tempos de PSV, ainda assim foi ele o autor do gol que garantiu a vaga na final da Liga Europa. E o inverno teria as incorporações de Suso e Youssef En-Nesyri, peças complementares que acabam figurando entre os titulares nestes momentos decisivos.

O protagonismo, de qualquer forma, recai sobre Lucas Ocampos. O argentino já foi uma promessa bastante badalada e assim chegou ao Monaco na segunda divisão. Apesar de bons momentos em seu início com o clube, não vingou da maneira devida, vendido ao Olympique de Marseille. Rodou emprestado por Genoa e Milan, até recuperar um pouco de sua forma no Vélodrome. Mesmo assim, seguia aquém de seu potencial quando os marselheses aceitaram vendê-lo por €15 milhões, um valor baixo ao que se pensava quando o ponta surgiu no River Plate. Mas hoje, aos 26 anos, Ocampos vem da melhor temporada de sua carreira. Foi essencial ao Sevilla em diversos momentos e não sentiu o peso da responsabilidade. É mais um daqueles negócios que parecem se transformar quando recebem a assinatura de Monchi.

Se não foram os 16 reforços do Sevilla que deram certo nesta temporada, o sucesso dos resultados está evidente, principalmente naquele que é o primeiro ano de um projeto. Ter a quarta maior folha salarial de La Liga não era qualquer garantia. Lopetegui montou uma equipe firme, mesmo sem ser brilhante, e que se manteve competitiva ao longo de todo o Campeonato Espanhol. A conquista da vaga na próxima Champions League não veio ao acaso, com uma campanha que se manteve no G-4 durante quase todo o tempo e contou com uma boa série invicta na reta final. E, apesar da eliminação para o Mirandés na Copa do Rei, a Liga Europa mostrou como este time também estava talhado aos mata-matas. As classificações sobre Roma, Wolverhampton e Manchester United dão mais peso ao que fazem os rojiblancos, indo além do gosto particular que possuem pelo torneio continental.

A vitória categórica sobre a Roma, aliás, possui sua representatividade particular a Monchi. Os italianos tentaram se reconstruir nesta temporada, mas os sinais do trabalho ruim do diretor esportivo se notaram durante o embate. Em compensação, seus acertos na montagem do Sevilla também se mostraram, com grande atuação de diversos reforços, a exemplo de Diego Carlos, Koundé e Ocampos. Um time praticamente novo impressiona pela forma como rendeu tão bem em pouco tempo. O que não é novo aos sevillistas é a capacidade de seu executivo fazer negócios excelentes e descobertas no mercado.

Até pela maneira como este Sevilla superou as expectativas, é bem possível que precise se remontar outra vez para 2020/21. Alguns bons nomes certamente não continuarão no Ramón Sánchez-Pizjuán – ainda que só devam deixar o clube mediante o pagamento de uma bolada. Entretanto, com a volta de Monchi aos corredores rojiblancos, a torcida certamente não se preocupa com um desmanche. Já está claro como o trabalho está em boas mãos, também por aquilo que Lopetegui realiza no campo. A Liga Europa serve de norte aos andaluzes e mais um título seria a prova cabal de que, mesmo sendo um executivo, Monchi é daqueles caras que merecem a eternidade com uma estátua. Lá se vão 30 anos de clube em suas duas passagens e uma importância inegável, com marcas perceptíveis muito além dos bastidores.