Argentina e Colômbia possuem uma ligação umbilical no futebol. O crescimento dos clubes colombianos dependeu de vários craques argentinos, sobretudo no período do El Dorado. Em tempos nos quais a qualidade técnica abundava até mesmo entre os pequenos clubes na Argentina, mas os salários não eram suficientes para as pretensões dos atletas, o surgimento do abastado Campeonato Colombiano no fim dos anos 1940 se tornou uma válvula de escape a tantas estrelas. E se a geração de Alfredo Di Stéfano passou a desbravar sistematicamente a ponte aérea rumo ao norte da América do Sul, outros tantos fizeram seu nome por lá nas décadas posteriores, de Ricardo Gareca a Omar Pérez. No entanto, o caminho contrário também virou comum nas últimas décadas. Com a afirmação da seleção cafetera, muitos talentos começaram a desembarcar às margens do Rio da Prata. Alguns se transformaram em ídolos de grandes clubes, incluindo Boca Juniors e River Plate. Destaques que podem, inclusive, ser decisivos nesta Libertadores de 2018.

Não se contam os sucessos do Boca Juniors na Copa Libertadores sem citar suas lendas colombianas. Os cafeteros começaram a surgir no elenco a partir dos anos 1980, mas foi no final da década seguinte que eclodiram. As transferências de Jorge Bermúdez e Óscar Córdoba, ambos destaques do América de Cali vice-campeão continental em 1996, mudou a história dos xeneizes. Os dois seriam pilares no esquadrão de Carlos Bianchi, assim como Mauricio Serna, trazido do Atlético Nacional. Bermúdez foi o capitão no bicampeonato em 2000 e 2001, enquanto Córdoba teria atuações heroicas sob as traves naquelas campanhas. Posteriormente, outros ainda passaram por La Boca, mas sem a relevância da atual geração colombiana sob as ordens de Guillermo Barros Schelotto.

O River Plate, por sua vez, também exaltou vários colombianos em seus elencos vitoriosos. Se não faturaram Libertadores, ao menos ajudaram os millonarios a manterem sua hegemonia na liga nacional. O primeiro foi Juan Pablo Ángel, centroavante que contribuiu com muitos gols na virada do século. Mario Yepes chegou após a final da Libertadores de 1999 e deixou a sua marca durante as conquistas do Campeonato Argentino. Na década passada, quem veio ainda garoto para fazer o River campeão foi Radamel Falcao García. E a gratidão da torcida permanece em relação a Teo Gutiérrez, referência no início da passagem de Marcelo Gallardo pelo banco de reservas, embora tenha deixado o clube durante a campanha vitoriosa na Libertadores de 2015. Seus herdeiros seguem em Núñez.

A maior legião colombiana atualmente aparece no Boca Juniors. São quatro jogadores no elenco de Schelotto – além de Sebastián Pérez, que participou do início da Libertadores, antes de ser emprestado ao Pachuca em setembro. O mais antigo do grupo é Frank Fabra. O lateral esquerdo foi contratado junto ao Independiente Medellín em janeiro de 2016. Manteve-se como um dos melhores jogadores do time no bicampeonato argentino, especialmente por sua capacidade no apoio. Contudo, precisará acompanhar as finais do lado de fora. O defensor de 27 anos sofreu uma ruptura de ligamento cruzado que o tirou da Copa do Mundo e, agora, custa ainda mais com o clube. Deve voltar a campo apenas em janeiro.

Oito meses depois, o Boca Juniors voltou a investir em um jogador colombiano. E, de todos os quatro, Wilmar Barrios é quem mais pode ser considerado um ídolo da torcida xeneize. O volante não é exatamente um jogador técnico, mas se sobressai pela entrega extrema e pela maneira como consegue se tornar onipresente dentro de campo. Revelado pelo Tolima e campeão nacional em 2016, chegou após fazer boas partidas nos Jogos Olímpicos. E sua evolução na Bombonera é plena. A eficiência dos boquenses nos últimos títulos dependeu bastante do trabalho do meio-campista, limpando os trilhos na cabeça de área. A fase é tão boa que ele esteve presente na Copa do Mundo e também viveu seus momentos de destaque no time de José Pekerman. Já nesta Libertadores, garantiu o equilíbrio em alguns dos compromissos mais difíceis nos mata-matas.

Em julho de 2017, Edwin Cardona desembarcou em La Boca bastante referendado. Vinha com a pecha de novo camisa 10, dono de um talento inegável, mas também com amplo histórico de indisciplina e de problemas com a balança. Chegou a fazer algumas boas partidas com a camisa xeneize, sobretudo no clássico de novembro do ano passado, quando anotou um golaço de falta no Monumental e abriu a vitória por 2 a 1. Contudo, viu outros jogadores pedindo passagem e atualmente é apenas uma opção a mais para o segundo tempo.

Dono de um perfil bastante distinto, Sebastián Villa pode ser considerado um dos responsáveis pelo sumiço de Cardona nas escalações. O ponta é outra revelação do Tolima, trazido em julho, após ser uma das referências do time campeão nacional em 2018. Aportou como um dos reforços para o segundo semestre e, mesmo sem a reputação de alguns dos contratados, logo se tornou um dos mais importantes. Vem sendo muito útil nestes mata-matas da Libertadores, especialmente pelos jogos fora de casa contra Cruzeiro e Palmeiras. Veloz e habilidoso, o jovem vira uma alternativa aos contragolpes. Considerando ainda a queda de produção de Cristian Pavón pelo lado esquerdo, o cafetero pela direita se consolidou como uma válvula de escape.

Do outro lado da final, os colombianos do River Plate são menos numerosos, mas igualmente importantes. E ambos foram verdadeiros achados dos Millonarios no mercado de transferências. Rafael Santos Borré chegou a Núñez em agosto de 2017, visando a reta final da Libertadores. Revelado pelo Deportivo Cali, se tornou aposta do Atlético de Madrid, mas não emplacou na Espanha. Depois de um empréstimo ao Villarreal, foi levado em definitivo pelo time de Marcelo Gallardo. Já em janeiro, o River deu uma nova oportunidade a Juan Fernando Quintero. Apesar dos 25 anos, o meia revelado pelo Envigado possui um currículo amplo. Teve seus momentos no Atlético Nacional e no Pescara, até se mudar ao Porto a peso de ouro. Apesar dos lampejos no Estádio do Dragão e da presença na Copa de 2014, não se firmou e passou os últimos meses rodando por empréstimos, por Rennes e Independiente Medellín. A volta para casa serviu para recuperar seu melhor futebol e atrair o interesse dos argentinos, novamente emprestado.

Santos Borré deve ser titular no Superclássico deste sábado. E com todos os méritos, considerando a maneira como o jovem cresceu ao longo dos últimos meses. Sua contratação foi colocada em xeque durante seu início no River Plate, sem causar o impacto esperado. Todavia, tem se tornado uma peça fundamental no ataque de Gallardo, especialmente pela intensidade que oferece. É um jogador de mobilidade, que sabe aproveitar os seus espaços e auxiliar os companheiros. Além do mais, desempenha papel decisivo nesta reta final da Libertadores. Anotou três gols na competição, um em cada jogo que valeu a classificação nos mata-matas – sobre Racing, Independiente e Grêmio. A atuação contra o Rojo, em especial, valeu o protagonismo ao cafetero.

Quintero, por outro lado, possui uma concorrência mais pesada pela posição. Geralmente disputa espaço com Pity Martínez, que saiu com moral após a vitória na Arena do Grêmio. Contudo, durante a lesão recente do armador argentino, o colombiano se tornou intocável na formação e também impulsionou a campanha do River Plate. Suas limitações físicas dificilmente permitem que atue durante os 90 minutos. Ainda assim, o talento é suficiente para conduzir os millonarios e ditar o ritmo da equipe, principalmente com seus passes em profundidade. Foi outro que mostrou o seu melhor contra o Independiente, quando saiu do banco e mudou o jogo no Monumental, possibilitando a vitória de um duelo amarrado aos anfitriões. A mera permanência em Núñez, após gastar a bola na Copa do Mundo de 2018, já tinha sido um baita reforço.

E mesmo que não tenha nascido no país,  um “cafetero postiço” também faz toda a diferença ao River Plate. Franco Armani seguiu ao norte do subcontinente quando já era profissional, mas ajudou a transformar a história do Atlético Nacional. Naturalizado colombiano, chegou a ser cogitado pela seleção local, mas seu sucesso nos verdolagas o deixou em evidência à Albiceleste após se mudar a Núñez. Talvez o jogador mais decisivo do elenco de Gallardo, ainda provoca o orgulho nos colombianos que aprenderam a adorá-lo. Mais um a se juntar à legião. Mais um a poder desequilibrar nestas finais em ritmo de tango, mas com notas da tradicional cumbia colombiana. Como na música, o futebol cafetero também rompeu fronteiras.