A final da Copa do Rei vem para exaltar um lado do futebol espanhol que deveria ser bem mais valorizado

Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta e sexta é dia da Olé, com informações e análises sobre o futebol espanhol. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

O futebol atravessa um processo paulatino de “superdimensionamento”. As ideias de se criar uma Superliga Europeia que reúna a nata da nata não são à toa. Em uma época na qual só a Champions League parece ser suficiente para satisfazer as ambições de muitos clubes, sejam elas esportivas ou financeiras, as demais competições tantas vezes se veem relegadas à insignificância de um “prêmio de consolação”. E no futebol espanhol, onde o gigantismo de Real Madrid e Barcelona sufoca os times ao redor, o exagero se torna mais escancarado. É como se todo o restante da estrutura estivesse a serviço de ambos os devoradores de planetas.

[foo_related_posts]

Muitas vezes, infelizmente, acaba sendo assim. Mas não precisa, necessariamente. E em uma temporada na qual fica claro que o dinheiro não será a solução para tudo, o futebol espanhol nos lembra que possui muitas mais histórias para contar. O glamour ao redor de Barça e Real, por vezes Atleti, não suprime o que se vive em outros tantos estádios do país. O título mais incensado do ano na Espanha, muito provavelmente, será uma Copa do Rei disputada entre Athletic Bilbao e Real Sociedad em Sevilha. Uma competição que permite o olhar além.

E o protagonismo dado ao clássico basco se torna ainda mais emblemático em uma semana na qual o Santiago Bernabéu recebeu o encontro entre Real Madrid e Barcelona. Sim, os gigantes fizeram um jogo bastante interessante por La Liga. Os goleiros acumularam defesas fantásticas, os garotos merengues apresentaram seu poder de decisão e a equipe de Zinedine Zidane encontrou sua solução para uma vitória que, se não decide tanto, mostra quem atravessa o momento mais confiável entre os dois gigantes. Porém, pouco tempo bastou para que os jornais deixassem de lado El Clásico e passassem a estampar manchetes com o dérbi basco.

O futebol espanhol possui esse caráter, por mais que tantas vezes permaneça eclipsado: ele tem um grande poder de contar histórias locais. A identidade dos clubes no país, até mesmo pelo próprio caráter nacional difuso, confere uma grande importância ao pertencimento. Ao longo das décadas, sempre foi necessário lidar com o gigantismo de Real Madrid e Barcelona, por mais que o contexto fosse outro. Só que, em pedrinhas miúdas, nunca deixou-se de cultivar esse arraigamento em outros cantos.

Todavia, entre taças de Champions, e contratações galácticas, e expansão da marca, e futuramento na casa das centenas de milhões de euros, perde-se de vista com mais facilidade essa outra dimensão do futebol espanhol. Menos gloriosa aos olhares de outros cantos do mundo e menos interessante ao próprio jogo de poder, mas mais importante à cultura de estádio dentro da Espanha. E, neste sentido, a atual edição da Copa do Rei veio a calhar.

Primeiro, porque a competição nacional voltou a conferir o verdadeiro valor a essas pequenas histórias. Com um regulamento que oferecia menos privilégios aos favoritos na disputa, foi possível que diversos clubes lutassem por seu espaço e contassem as suas próprias sagas. O Mirandés acabou se tornando o maior exemplo, ao alcançar as semifinais, mas outros tantos times menores puderam brigar por seu lugar ao sol. E, como se não fosse suficiente, o destino ainda garantiu uma final especialíssima. Dois clubes com este caráter local, com esse arraigamento, poderão protagonizar o maior clássico de sua história. Um dérbi basco que a Espanha toda parará para ver.

Em termos de rivalidade, Athletic Bilbao e Real Sociedad nem fazem um clássico tão ferrenho. Pelo contrário, a história marginalizada dos bascos em meio à ditadura franquista e o próprio orgulho fomentado por ambos os clubes os tornam muito mais irmãos. São dois bastiões da cultura basca e do senso de pertencimento da população regional, que se uniram em momentos difíceis de repressão. Mas que, diante de uma oportunidade nestas proporções, não deixarão de oferecer o seu máximo pela conquista única na Copa do Rei.

Athletic Bilbao e Real Sociedad até já disputaram uma decisão da competição nacional. Foi em 1910, em uma das primeiras edições da Copa do Rei. Recém-fundados, os txuri-urdin sequer puderam adotar o seu nome oficial no torneio, por não “serem antigos o suficiente”. Assim, emprestando a identidade do Vasconia, perderam a final ante os leones por 1 a 0 em San Sebastián. Foi a primeira decisão em que o Athletic vestiu seu tradicional uniforme alvirrubro. E, apesar dos ânimos exaltados nas tribunas, com os bilbaínos “loucos de alegria” e os donostiarras “protestando com pedras”, não foi isso que desembocou numa rivalidade amarga.

Ao longo das décadas, Athletic e Real se preocuparam muito mais com o esforço em conjunto para preservar a identidade basca do que com os anseios pelos títulos em comum. Afinal, em um contexto de supressão da cultura local, o futebol se tornou em rara válvula de escape, mesmo que também sofrendo sanções. Juntos, os dois clubes passaram a privilegiar os jogadores bascos, embora os txuri-urdin tenham se aberto com o tempo. Juntos, os dois capitães levaram a campo a bandeira do País Basco, num enorme símbolo da contraposição ao final da ditadura franquista. Juntos, os dois elencos costumavam confraternizar e dividir a mesa do jantar quando dominavam o futebol do país, durante meados da década de 1980.

Entre 1981 e 1984, o País Basco faturou quatro troféus consecutivos do Campeonato Espanhol. A Real Sociedad levou primeiro o bicampeonato, nos únicos títulos de sua história, antes que o Athletic Bilbao repetisse o feito e encerrasse um jejum que se aproximava das três décadas. Nem neste momento, com certa concorrência e confrontos diretos nas rodadas finais, a rivalidade floresceu em um sentido tóxico. Permaneceu um lado de confrontar os centros do poder e valorizar os feitos locais. Nesta época, os bilbaínos ainda levaram seu 23° título da Copa do Rei em 1984, antes que os donostiarras faturassem sua segunda taça em 1987. Os últimos, até que algum dos lados quebre o hiato nesta temporada.

Obviamente, não dá para dizer que a relação entre Athletic Bilbao e Real Sociedad manteve-se apenas saudável esse tempo todo. A influência do dinheiro também pesou e até gerou os seus atritos, sobretudo pelas necessidades de mercado dos leones. Com as restrições aos jogadores nascidos no País Basco, revelações dos txuri-urdin se transformaram em objetos de desejo dos bilbaínos e aconteceram alguns casos de “aliciamento” – o mais recente, envolvendo a mudança de Iñigo Martínez, de Anoeta a San Mamés. Mas nada que contaminasse tanto assim o clima das arquibancadas, onde as confraternizações seguem comuns e os torcedores mesmo se misturam em pleno clássico.

A final da Copa do Rei oferecerá uma nova realidade em La Cartuja. Ainda será uma ocasião para celebrar o orgulho basco e a história de ambos os clubes. No entanto, somente um poderá sair vencedor, e nenhum dos lados desejará desperdiçar a chance de botar a faixa no peito – especialmente quando a grandeza anda um tanto quanto adormecida. Até por isso, as atenções (e as tensões) tendem a aumentar.

A Real Sociedad tentará comprovar a qualidade de seu projeto de investimento em jovens. Os txuri-urdin montaram um elenco de enorme potencial, mesmo que nem todos os atletas pertençam ao clube, e exibem um futebol ofensivo. A empolgação ao redor do trabalho de Imanol Alguacil é evidente e poderá consagrar diversos talentos que ganham o merecido reconhecimento em Anoeta, menções especiais a Martin Odegaard e Mikel Oyarzabal. Por aquilo que tem jogado, a Real é favorita.

O Athletic Bilbao, por outro lado, apresenta um futebol muito mais aguerrido – como manda a sua própria tradição. Não deixa de possuir talentos arrebatadores, a exemplo de Iñaki Williams, mas depende de um estilo de jogo muito mais centrado na voracidade dos contragolpes e na solidez defensiva. A tradição pesa mais aos bilbaínos, inclusive pela maneira como acumulam campanhas relevantes na Copa do Rei. Foram três vices desde 2009, todos eles em decisões perdidas para o Barcelona. Chegou a hora da espera terminar, sobretudo quando pode premiar com uma taça a última temporada de Aritz Aduriz, um ídolo histórico em San Mamés.

Entre os elementos culturais e o que se joga em campo, a final já ocupa um lugar privilegiado no calendário. Mais de 40 mil bascos devem lotar as arquibancadas do Estádio Olímpico de Sevilha em 18 de abril, enquanto o maremoto nas ruas do País Basco tomará proporções inéditas. É capaz que Real Madrid ou Barcelona voltem à decisão no próximo ano, quem sabe o Atlético. Mas, neste momento, a ocasião vem a calhar para reforçar um lado do futebol espanhol que é tão legal sem ter montanhas de dinheiro ou os maiores craques.

Talvez o processo de uma Superliga Europeia ou de uma Champions cada vez mais selecionada seja mesmo irreversível. Contudo, o futebol não depende apenas disso. E, ressaltando as raízes, a Copa do Rei valoriza um lado do futebol que nunca morrerá, embora não precise ser sempre tão desprivilegiado. Através de Athletic e Real Sociedad, a Espanha reaprende um bocado das virtudes de sua cultura. Pode perceber que, para ter um campeonato mais interessante, não deve proteger apenas suas potências. Neste sentido, a temporada é de alento.