Do muito que viveu com a camisa colorada, Andrés D’Alessandro possui uma de suas piores memórias justamente na decisão da Copa do Brasil. E não foi apenas a derrota para o Corinthians na final de 2009 que marcou o desgosto do craque. Ele também perdeu a cabeça e protagonizou a cena que sentenciou a derrocada do Internacional dentro do Beira-Rio. O craque partiu para cima do zagueiro William e, com os punhos em riste, tentou gerar uma confusão maior do que já havia. Restando 15 minutos de jogo, acabou expulso e viu qualquer fiapo de reação dos gaúchos se esvoaçar.

D’Alessandro fez com que muitos torcedores esquecessem aquela cena pouco tempo depois. Se as semanas seguintes ainda foram caóticas, ao ponto de ser afastado do elenco, a redenção seria a mais gloriosa possível, com a taça da Libertadores nas mãos em 2010. E, entre muito mais alegrias do que amarguras que experimentou em Porto Alegre, o veterano pode reescrever esta história na Copa do Brasil justamente dez anos depois. A decisão contra o Athletico Paranaense não apenas oferece ao meia uma chance de conquistar seu primeiro grande título nacional com os colorados. Ela também é uma oportunidade de se redimir do passado.

D’Ale já tinha certa reputação no Internacional quando aquela briga ocorreu. Contratado a peso de ouro em 2008, o meia possuía mais nome do que feitos àquela altura da carreira. Depois que saiu do River Plate, a promessa não se confirmou no Wolfsburg e no Zaragoza, além de ter passado rapidamente pelo San Lorenzo, o que contribuiu para que recuperasse um pouco mais de prestígio no continente. O Inter se transformaria no grande clube da vida do armador e isso começou a se notar já meses depois, com a conquista da Copa Sul-Americana de 2008. Ainda assim, a Copa do Brasil colocou em risco a trajetória, que poderia ter sido bem mais efêmera.

Não foi. E a Libertadores cristalizou a grandiosidade de D’Alessandro no Beira-Rio. Desde então, o craque passou por diferentes momentos no clube e, quase sempre brilhou, mesmo quando os resultados não eram tão prodigiosos assim. Ele entendeu o que era o Inter, tornou-se mais um torcedor. Se deixou Porto Alegre brevemente para realizar o sonho de retornar ao River, não abandonou os colorados na maior penúria do clube, com o rebaixamento à Série B. Depois de fazer falta na campanha do descenso, o argentino voltou para conduzir o acesso e ser venerado ainda mais. Ele demonstrou como valoriza a própria instituição. Agora, dois anos depois, o processo de reconstrução parece seguir em frente. A Copa do Brasil é o próximo degrau a se escalar.

Mesmo sem jogar todas as partidas do Inter, D’Alessandro permanece como o centro de gravidade do time em 2019. Encabeçou a boa caminhada dos colorados na Libertadores, mesmo que tenha ficado a frustração contra o Flamengo. Pouco antes, vivera um recital diante do Nacional dentro do Gran Parque Central. E a Copa do Brasil mostra um pouco mais desse D’Ale interminável, mas ainda extremamente habilidoso e decisivo. Segue assim, a cada fase avançada pela equipe. É o cara que dita o ritmo da partida pela bola nos pés, assim como pela mente. O gênio permanece forte, embora aquela briga em 2009 tenha deixado as suas lições. Aos 38 anos, as cicatrizes também indicam a sabedoria adquirida de quem transita entre a diplomacia e as táticas de guerrilha.

Há dez anos, D’Alessandro declarou que não se arrependeu da confusão, por mais que admitisse ter vergonha da briga e que, se pudesse, mudaria as suas reações. Hoje, vê aquela ocasião perdida no passado como motivação para ter mais fome em 2019. “É minha segunda final de Copa do Brasil. Chegamos também em 2009 e perdemos para uma grande equipe, com jogadores muito qualificados. Agora, é uma revanche”, afirmou, na saída de campo após a classificação contra o Cruzeiro. “Vai ser uma bonita chance de poder ficar na história do clube. É emocionante, porque faz tempo que o Inter não ganha esse título”.

Nesta final de Copa do Brasil, um lance poderá ser fatal a D’Alessandro – como foi no primeiro gol de Guerrero contra o Cruzeiro. O velho maestro segue preciso com sua batuta, capaz de ritmar a orquestra colorada e de chamar os holofotes para si. A bola, obediente, ainda sabe exatamente para onde ir quando recebe um tapa carinhoso daquela canhota. A ela, a Copa do Brasil é um reencontro. No entanto, também um ponto para se desgarrar.

Sabe-se lá até quando os torcedores ainda poderão desfrutar do talento do armador. O título seria um pouco mais de certeza quanto ao tamanho de sua lenda no Beira-Rio. Seria a conclusão da ascensão desde a Série B que, com todo o seu apreço pela camisa, D’Ale encabeçou. Por ora, não uma exatamente despedida, mas certamente um novo ponto de chegada à história que pode se alongar. O troféu, se vier, cairá como um justo reconhecimento à dedicação do ídolo. Depois das conquistas da Sul-Americana e da Libertadores, esta é a copa que lhe falta.