A Fifa viveu uma sexta-feira conturbada. A grande notícia do dia na entidade foi o indiciamento de Joseph Blatter pela justiça suíça, com o dirigente finalmente ligado na investigação do caso de corrupção da entidade. E o fato acabou deixando de lado as novidades anunciadas pelo Comitê Executivo, após reunião de dois dias em Zurique. Tão importante quanto o cerco a Blatter foi a definição das datas da Copa do Mundo de 2022. Como a Fifa já havia sinalizado há meses, o torneio acontecerá mesmo pela primeira vez no final do ano, entre 21 de novembro e 18 de dezembro. Período de 28 dias, mais curto do que o comum para a competição, em recesso que precisa abarcar ainda as semanas de preparação das seleções.

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A decisão da entidade sobre o Mundial do Catar já tinha sido adiantada em março, quando o vice-presidente Jim Boyce deu sugestões para a readaptação do calendário. Mas vai contra àquilo que a campanha catariana prometera em sua candidatura para sediar o torneio. Desde a escolha, em 2010, as preocupações com o calor no país durante o verão já eram grandes. Mesmo assim, os organizadores insistiram que teriam tecnologia de refrigeração nos estádios para suportar as altas temperaturas. O que se perdeu com o tempo. Diante da inviabilidade do projeto, a mudança de data a fórceps pela Fifa se tornou inevitável.

O problema está em todas as consequências que a decisão da alteração na data tradicional gera. A agenda dos clubes terá que ser adaptada para a Copa de 2022, em especial os europeus, bem no meio da temporada. O usual para os países de calendário anual no futebol, como o Brasil, promete gerar entrave nas ligas mais ricas. Por mais que seja a favor da mudança das datas, mesmo a Uefa torce um pouco o nariz para a escolha da Fifa, desejando que o Mundial começasse em dezembro – para não afetar tanto fase de grupos da Champions League.

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Outro conflito que promete se estender acontece com as redes de televisão, em especial a Fox e a Telemundo, donas dos direitos nos Estados Unidos e na América Latina, respectivamente. A Copa do Mundo entre novembro e dezembro entra em conflito com as datas de três das quatro grandes ligas esportivas americanas: a NBA, a NHL e a NFL – sendo que, no futebol americano, o mais lucrativo de todos os esportes, o momento é de definição no final da temporada regular. Em junho, no entanto, o Mundial só coincide com a MLB.

As partes afetadas, entretanto, buscam soluções em meio à queda de braço. A Associação Europeia das Ligas Profissionais e a Associação Europeia de Clubes querem que a Copa seja disputada entre maio e junho, justificando que a temperatura média do Catar no período não se difere com a do Brasil em 2014 ou a dos Estados Unidos em 1994. Já as redes de televisão podem diminuir a sua oposição com um processo especial de concessão de direitos para o Mundial de 2026, sem precisar passar pela disputa com outras redes. Duas propostas que não conseguem ser unânimes.

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A Fifa ainda tenta justificar que a Copa em novembro e dezembro será melhor para o nível técnico, com os jogadores menos desgastados – o que, levando em conta a visibilidade do torneio, ainda vale dinheiro para os clubes, graças à vitrine. Em contrapartida, eles estarão mais cansados para a reta final da temporada. Mas, se os clubes pretendem ter algum poder de lobby, o alinhamento da Uefa (presidida por Platini, personagem próximo da candidatura catariana) à Fifa os enfraquece bastante.

Restando sete anos para a disputa da Copa de 2022, ainda há muita água para rolar. O debate deverá se intensificar mesmo depois do Mundial da Rússia, e nem pode ficar muito para depois, já que causa impacto também no calendário da temporada anterior. Mas, no fim das contas, a questão acaba sendo mais um argumento para quem quer tirar o torneio do Catar. Se o caso de corrupção na escolha da sede e as seguidas denúncias de trabalho escravo já são problemas suficientes para os catarianos, a mudança das datas serve como um elemento a mais na lista dos descontentes – um grupo de peso pela voz e pelo poder comercial.