Equipe bastante tradicional do interior do estado de São Paulo, a Ferroviária de Araraquara tem no currículo apenas uma participação na elite nacional, em 1983. Porém, com estilo: após obter sua vaga com uma boa campanha no Paulistão, o time que apresentava muitos jovens talentos combinados a nomes experientes derrotou clubes grandes fez uma das melhores campanhas do Brasileirão nas duas primeiras fases. E quando caiu, encerrou a trajetória com vitória memorável sobre o Grêmio em Porto Alegre. Uma campanha para ser relembrada.

A HISTÓRIA ATÉ ALI

Fundada em 1950 por funcionários da Estrada de Ferro Araraquara, a Ferroviária estreou na divisão principal do futebol paulista seis anos depois. Depois de algumas campanhas discretas para se afirmar na competição, com vitórias esporádicas sobre os grandes, sua campanha mais destacada no torneio vem em 1959, quando termina em terceiro, atrás apenas de Palmeiras e Santos. No ano seguinte, realiza sua primeira excursão ao exterior.

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Esta primeira passagem pela elite do Paulistão, marcada por algumas vitórias memoráveis sobre o Santos de Pelé, termina em 1965 com seu primeiro rebaixamento. Mas o time voltaria logo no ano seguinte, iniciando uma era de ouro, marcada pelo tricampeonato do interior e um novo terceiro lugar no estadual em 1968, quando a equipe liderada pelo artilheiro Téia, o goleador do campeonato, terminou atrás apenas de Santos e Corinthians.

Após uma década de 1970 sem grandes campanhas, o time começou a se estabilizar como uma pedra no sapato dos grandes no início dos anos 80. No mesmo período, começou a disputar os torneios nacionais, participando da Taça de Prata (equivalente à segunda divisão do Brasileiro) em 1980 e 1981. Mas a estreia na elite nacional viria mesmo após uma grande campanha no Paulistão de 1982, disputado no segundo semestre daquele ano.

A equipe dirigida por Diede Lameiro, ex-treinador de São Paulo e Palmeiras, empreendeu uma campanha de recuperação, depois de um primeiro turno bastante discreto, no qual terminou em 15º lugar entre 20 participantes e com apenas cinco vitórias em 19 jogos. No returno, o time só venceu a primeira na quarta rodada, mas daí em diante embalaria. Seriam sete triunfos nas últimas dez partidas, incluindo um 2 a 1 sobre o Santos em plena Vila Belmiro.

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Na última rodada, uma vitória por 3 a 0 sobre o já classificado Juventus na Rua Javari garantiu à Ferrinha a sexta e última vaga do Paulistão na Taça de Ouro, terminando à frente de clubes como o Guarani (que teve de jogar a Taça de Prata) e o Santos (que foi mantido na elite por um convite da CBF). Apesar da festa, as expectativas eram baixas. Além de perder o técnico, substituído por Sebastião Lapola, o clube preferiu lançar juvenis a contratar reforços.

UM ELENCO JOVEM

O tempo mostraria que havia sido uma decisão acertada: técnico de bons trabalhos no interior do estado de São Paulo, mas ainda pouco badalado, Lapola vinha comandando a seleção paulista de juniores e chegou a acumular os dois cargos nos primeiros meses de 1983. Treinador de 44 anos, sóbrio, exigente, mas de diálogo aberto com os jogadores, tinha experiência em trabalhar com jovens e conhecia alguns dos novos nomes do elenco da Ferroviária.

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Ao chegar ao clube, Lapola mandou pintar em um quadro a palavra “solidariedade”. Era a palavra-chave de uma equipe combativa, de defesa firme, mas de futebol vistoso, com bom toque de bola no meio-campo e dois pontas abertos, que empurravam o time à frente com muita velocidade. E que incluía vários pratas-de-casa, burilados nas divisões inferiores pelo técnico Bazzani, ex-jogador do clube nos anos 60 e velho ídolo da Ferrinha.

Entre esses jovens estavam o seguro goleiro Abelha, de boa elasticidade e bom comando de área; o vigoroso zagueiro Vica, que se impunha na área; o forte lateral-esquerdo Zé Rubens, bom na marcação e no apoio; o clássico volante Júnior, de boa saída de jogo; o talentoso meia Douglas Onça, armador com ótima visão de jogo; e o ágil ponta-direita Claudinho, um dos puxadores de contra-ataques. Mas nem só de juventude era feita a equipe.

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Entre os mais rodados havia, na defesa, o lateral-direito Marinho Paranaense (ex-Fluminense e Palmeiras) e os zagueiros Pinheirense (ex-Náutico e Fortaleza), Arouca (português de nascimento e ex-jogador de Palmeiras e Portuguesa) e o veterano Fernando Paolillo, 37 anos, revelado pela própria Ferroviária ainda nos anos 60 e que rodara por diversos clubes, entre eles o São Paulo, até retornar ao clube no fim da década seguinte.

Do meio para a frente, a experiência ficava por conta do ponta-de-lança Zé Roberto, jogador de toque refinado e que vivia momento artilheiro (havia sido o goleador da equipe no Paulistão de 1982), do gigantesco centroavante Marcão (de 1,96 metro de altura, revelado pela Ponte Preta) e do ponta-esquerda Bozó, campeão brasileiro pelo Guarani em 1978, rápido e driblador. Dessa combinação, nasceu um time que surpreendeu já de saída.

A PRIMEIRA FASE DO BRASILEIRÃO

A Ferroviária foi incluída no Grupo G do Brasileirão, ponteado por Internacional e Botafogo e que contava ainda com o Brasília, considerado o mais fraco do grupo, e o sempre perigoso Colorado-PR, com quem, em tese, a equipe de Araraquara disputaria a terceira vaga direta na segunda fase (o quarto colocado disputaria uma repescagem e o quinto seria eliminado). Mas bastou a bola começar a rolar para os favoritismos serem reconsiderados.

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Após folgar na primeira rodada, a Ferrinha estreou no torneio contra o Botafogo no Maracanã, em 27 de janeiro. Embora enfrentasse sua longa seca de títulos, o Alvinegro tinha jogadores tarimbados como o goleiro Paulo Sérgio e o zagueiro Abel, além de nomes em ascensão como o lateral Josimar, o meia Alemão e o ponta Geraldo. Mas num contragolpe logo aos 13 minutos, o ponteiro Claudinho marcou um belo gol de cobertura para dar a vitória ao time grená.

A partida seguinte foi a primeira em seu estádio da Fonte Luminosa, diante do Colorado-PR. E o time voltou a vencer, agora por 2 a 0, gols de Bozó e Douglas Onça, um em cada tempo e ambos aproveitando rebotes do goleiro. Quando o time recebeu o Internacional de Mauro Galvão e Rubén Paz no terceiro jogo e voltou a vencer por 2 a 0, com gols de Marcão e Douglas Onça, assumindo a liderança isolada da chave, o país inteiro já estava de olho na Ferrinha.

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O primeiro ponto perdido veio, por ironia, diante do time menos badalado do grupo, o Brasília, no antigo estádio Pelezão (demolido em 2009) da capital federal. No empate em 0 a 0, destacou-se mais uma vez o goleiro Abelha, que ainda não havia sido vazado em quatro jogos. A primeira derrota viria no jogo seguinte contra o Colorado (2 a 0) na Vila Capanema, num jogo em que a Ferrinha teve o zagueiro Vica expulso junto com o meia paranaense Jaiminho.

O time se recuperaria novamente tendo Abelha como protagonista segurando mais um 0 a 0, agora diante do Internacional em pleno Beira Rio. Num jogo nervoso, a Ferroviária teve mais um jogador expulso: o meia Zé Roberto, que deixou o campo junto com o volante gaúcho Ademir. De volta à Fonte Luminosa, a equipe grená retomaria o caminho das vitórias, derrotando o Botafogo (2 a 1) e o Brasília (3 a 1) em suas duas últimas partidas naquela fase.

Contra o time carioca, a Ferroviária abriu o placar num chute de Bozó de fora da área, sofreu o empate num pênalti muito contestado convertido por Abel, mas chegou à vitória a cinco minutos do fim com o ponteiro Cláudio, que entrara pouco tempo antes, ao aproveitar um cochilo na saída de bola alvinegra. Já contra os brasilienses, o triunfo veio de virada, com gols de Claudinho no primeiro tempo e de Bozó e Marcão na etapa final.

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Nesta primeira fase, a equipe de Araraquara consolidou um time-base bastante sólido, e que seria mantido com poucas variações pelo resto do torneio. No gol, Abelha era uma das revelações do Brasileirão. Marinho e Zé Rubens eram os laterais, com Vica e Pinheirense formando uma dura dupla de zaga. No meio, a qualidade de Júnior, Douglas Onça e Zé Roberto também se destacava. E na frente, a velocidade de Claudinho e Bozó municiava o centroavante Marcão.

AINDA A SENSAÇÃO

Primeira colocada no grupo ao fim da fase inicial (com 12 pontos ganhos contra dez do Colorado, oito do Internacional, seis do Botafogo e apenas quatro do eliminado Brasília), a Ferroviária teria pela frente um grupo novamente duro e equilibrado na etapa seguinte – e com direito a rivalidade regional. No Grupo O estavam o América de Natal, o Atlético-PR e o Botafogo de Ribeirão Preto, com quem a equipe de Araraquara fazia o clássico Bota-Ferro.

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O América de Natal, primeiro adversário, também vinha de boa campanha na primeira fase, ficando em segundo no grupo do São Paulo, à frente do Sport. E foi para o intervalo do jogo no Castelão vencendo com gol de Paulo Lino. Mas não resistiu ao bom momento da Ferrinha, que virou para 3 a 1 – gols de Douglas Onça, Marcão e Bozó – e de novo estreou numa fase vencendo fora de casa, somando ainda seu terceiro triunfo seguido na competição.

A segunda partida também foi fora de casa, diante do Atlético-PR na velha Baixada. O time levou sufoco durante quase todo o jogo e saiu atrás com um gol de Washington, cobrando pênalti, logo aos 15 minutos. Mas conseguiu um empate providencial com Marcão ainda na primeira etapa, aos 38 minutos. Daí em diante, coube a Abelha brilhar novamente, parando o ataque do rubro-negro paranaense e garantindo um ponto precioso.

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No terceiro jogo, uma vitória sobre o Botafogo de Ribeirão Preto representaria um grande passo rumo à classificação. E ela viria – com uma boa dose de sofrimento dada a ampla superioridade da Ferrinha no primeiro tempo, mas viria. O único gol sairia aos 39 minutos da etapa inicial com Marcão mais uma vez aparecendo para conferir, cabeceando um cruzamento do lateral Marinho Paranaense. O resultado levava a equipe grená à liderança da chave.

Um novo triunfo em casa, agora sobre o Atlético-PR, deixaria a situação ainda mais confortável. Mas o time tropeçou pela primeira vez na Fonte Luminosa ao parar num 0 a 0. Chances de vencer não faltaram, porém. A mais clara delas, aos 44 minutos do segundo tempo: o meia Zé Roberto chutou um pênalti na trave, e só restou à equipe lamentar o ponto perdido e tentar recuperá-lo no jogo seguinte, contra o rival Botafogo em Ribeirão Preto.

No Estádio Santa Cruz, Abelha não sofreria gols pelo terceiro jogo seguido naquele Brasileiro, e a Ferroviária garantiria um importante empate em 0 a 0, que praticamente assegurou a vaga na fase seguinte, já que Atlético-PR e Botafogo-SP (os outros dois postulantes) se enfrentariam na última rodada. Mas, para não haver dúvidas, a Ferrinha deu um show na partida derradeira contra o América de Natal em Araraquara, goleando por 5 a 1.

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O time já havia ido para o intervalo vencendo com gols de Zé Roberto e Marcão. Na etapa final, o zagueiro Pinheirense anotou o terceiro, Sandoval descontou para os potiguares, mas o ponteiro Jorginho fez o quarto e Marcão, de novo, apareceu para fechar a goleada. O resultado endossava a ótima campanha do time nas duas fases iniciais: oito vitórias, cinco empates e apenas uma derrota, com 20 gols marcados e apenas sete sofridos em 14 partidas.

Naquela altura, o veterano Fernando havia substituído Vica na zaga titular, enquanto o meia Sidnei ganhou um lugar no meio-campo (primeiro revezando-se com Júnior e mais tarde no posto de Zé Roberto). A terceira fase, no entanto, era a hora em que o funil apertava: os adversários agora seriam nada menos que São Paulo, Grêmio e Sport. Desta vez, sabia-se que hesitações não seriam perdoadas. E o time percebeu isso desde a estreia.

UM GRUPO FORTE DEMAIS

Jogando na Fonte Luminosa contra o Grêmio, a Ferroviária abriu o placar logo aos 11 minutos com Marcão batendo pênalti. O volante China empatou para os gaúchos aos 21, e o jogo foi para o intervalo igual. Na etapa final, aos 34, Claudinho colocou de novo a Ferrinha na frente. Mas o time não soube segurar o resultado e permitiu o empate gremista aos 42, com gol do meia Osvaldo. A frustração acabou impactando nos jogos seguintes.

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Contra o São Paulo no Morumbi, Marcão foi expulso junto com o zagueiro tricolor Gassem logo aos 15 minutos. Daí em diante, os donos da casa fizeram três gols, poderiam ter marcado outros, e a Ferroviária só descontou no fim, com Douglas Onça cobrando pênalti. A ausência de sua referência ofensiva pesou também contra o Sport em Araraquara. Tímida no ataque, a equipe foi pressionada pelos pernambucanos e perdeu pela primeira vez em casa: 1 a 0.

Com esses resultados, a classificação já dependia de um milagre. Mas o que viria a seguir seriam revezes ainda mais acachapantes. Contra o São Paulo em Araraquara, a Ferroviária perdeu chance logo aos 20 segundos e saiu atrás com um gol de Heriberto. Após o intervalo, a equipe se lançou toda ao ataque e perdeu inúmeras oportunidades. Acabou sofrendo outros três gols no fim, aos 35, 42 e 44 minutos, caindo numa goleada de 4 a 0 que não refletiu o que foi o jogo.

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Desanimada, a Ferrinha foi ao Arruda enfrentar o Sport, sofreu um gol logo aos oito minutos e acabou perdendo outra vez por goleada: 4 a 1. Foi a última partida de Lapola no comando da equipe: em reconhecimento ao bom trabalho com um time repleto de jovens, ele foi convidado a dirigir a Seleção Brasileira de Novos no Torneio de Toulon. Em seu lugar entrou Roberto Brida, que havia conquistado o Torneio Incentivo paulista com o clube no ano anterior.

Brida saíra da Ferroviária para dirigir o Sport, com quem foi campeão pernambucano em 1982. Agora, reestreava na equipe de Araraquara na posição de poder ajudar a classificar o rubro-negro caso o time grená arrancasse um improvável triunfo sobre o Grêmio em Porto Alegre. Durante a semana, São Paulo e Sport, os interessados na derrota gremista, anunciaram que ofereceriam um “prêmio” extra aos jogadores da Ferrinha em caso de vitória.

UM ÚLTIMO BRILHO

“Turbinado” pelo dinheiro, interessado em mostrar serviço ao novo treinador ou simplesmente motivado a encerrar em grande estilo uma campanha que merecia um desfecho digno, o time da Ferroviária fez no Olímpico uma partida que entrou para a história do clube. Aguerrido na defesa e letal nos contra-ataques, já mostrou ao que viera aos quatro minutos, quando Bozó e Douglas Onça tabelaram pela esquerda e o ponta chutou rasteiro para abrir o placar.

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A tarefa do Grêmio, que precisava do empate para se classificar, ficou ainda mais complicada aos 22 minutos, quando Claudinho desceu outra vez pela esquerda e cruzou. Só que a bola desviou em Casemiro e entrou no canto, com o goleiro gremista Remi apenas olhando. Atônito, o Tricolor gaúcho tentou uma reação um pouco mais organizada na volta do intervalo e acabou diminuindo aos 22, quando De León passou a Bonamigo, que bateu forte da entrada da área.

Na sequência do gol viria uma confusão que interromperia a partida por cinco minutos. Troca de agressões, socos, pontapés, voadoras e uma expulsão para cada lado: Tita pelo Grêmio e Arouca pela Ferroviária. Os donos da casa ainda tentaram não deixar o ânimo esfriar, mas num contra-ataque, o time grená matou o jogo: Douglas Onça foi lançado partindo do próprio campo, invadiu sozinho a intermediária gremista e deu um leve toque de cobertura em Remi.

Após o apito final, a confusão voltou: um torcedor do Grêmio invadiu o campo, agrediu o ponta Bozó e levou o troco de Pinheirense. Renato Gaúcho também entrou na briga, que só pôde ser contornada com a intervenção da polícia. A vitória da Ferroviária, porém, era incontestável e encerrava de maneira brilhante (12º lugar entre 44 participantes) uma campanha histórica – e que viria a ser a única da equipe de Araraquara na elite nacional.

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Como qualquer time do interior e de menor investimento que se destaca numa competição nacional, a Ferroviária logo começou a sofrer baixas em seu elenco. Ainda em meados de 1983, Abelha e Marcão deixaram o clube. O goleiro seguiu para o Flamengo, onde seria reserva de Raul e mais tarde de Fillol. Sem sucesso, passou em seguida ao São Paulo, onde também não vingou. Já o centroavante também tomou o rumo do Morumbi.

No ano seguinte, o zagueiro Vica seguiria para o Fluminense, onde seria campeão brasileiro e levantaria os títulos cariocas de 1984 e 1985. Também em 1984, Douglas Onça, Pinheirense e o lateral reserva Divino integrariam um pacote de reforços do Coritiba para o Brasileirão, no qual os paranaenses chegariam às quartas de final. Em 1985, o meia-armador também se destacaria em um bom time do Sport, ao lado de outro ex-colega de Ferroviária, Bozó.

Já o volante Júnior passaria mais tarde pelo Coritiba antes de resgatar um vínculo familiar ao se transferir para o Palmeiras: seu tio Olegário Tolói, o Dudu, também havia deixado a Ferrinha que o revelou para brilhar na Academia do Palmeiras nos anos 60. Após defender ainda o Grêmio e o Juventude, Júnior penduraria as chuteiras e se tornaria treinador, ganhando o direito de adotar também o primeiro nome: passaria a ser conhecido como Dorival Júnior.

Enfraquecida, a Ferroviária faria campanhas ruins nos Paulistões de 1983 e 1984, terminando em 17º lugar entre 20 equipes, salvando-se do rebaixamento em ambos por meros dois pontos. Mas voltaria a brilhar em 1985 – ficou entre os quatro melhores do estadual depois de tomar do Corinthians a última vaga às semifinais (Santos e Palmeiras também haviam ficado de fora) – antes de voltar a passar por um longo período apenas fazendo figuração no torneio.

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Haveria ainda uma boa campanha no Paulistão de 1993 (sexto lugar) e o vice-campeonato do Brasileirão da Série C em 1994, que valeu o acesso à segundona nacional em 1995. Embora tenha conseguido se salvar em campo de voltar à terceira divisão, o clube não resistiria a uma grave crise financeira e seria obrigado a desistir da disputa. A Ferrinha entraria no período mais difícil de sua história, no qual chegou a descer à Série B1 (quarta divisão) do estadual.

O time escalou novamente as divisões inferiores do Paulistão, conquistando o acesso à elite em 2015. Desde então vem se restabelecendo como força do interior, à espera de ter mais uma chance de brilhar no cenário nacional. Enquanto isso, o clube conta ainda com uma das mais fortes equipes femininas do estado e do país, já tendo vencido por quatro vezes o estadual, além de levantado um Brasileiro, uma Copa do Brasil e uma Libertadores.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.