Manchester City e Tottenham se tornaram figurinhas carimbadas na Liga dos Campeões ao longo dos últimos anos. Enquanto a injeção de dinheiro impulsionou os mancunianos ao topo da Premier League, o bom trabalho de prospecção mantém o alto nível dos londrinos. Contudo, vale lembrar que não era assim até uma década atrás. Ambos apareciam como mero figurantes no Campeonato Inglês, quando muito, e atravessaram longos períodos fora da principal competição do continente. A história só mudou graças a um personagem em comum: Peter Crouch, fundamental tanto a Spurs quanto a Citizens.

O Tottenham passou mais tempo longe da Champions. Após conquistar a dobradinha nacional em 1960/61, o time de Bill Nicholson fez bom papel no certame europeu em 1961/62. Chegou a eliminar o Feyenoord e o poderoso Dukla Praga, antes de sucumbir ao esquadrão do Benfica nas semifinais. Contudo, o jejum no Campeonato Inglês manteve os Spurs longe do torneio até 2010. E o fim das quatro décadas de espera dependeu de uma vitória gigantesca na penúltima rodada, quando a equipe treinada por Harry Redknapp fez o confronto direto justamente contra o Manchester City, seu principal concorrente.

O Tottenham se manteve entre os cinco primeiros da Premier League desde o primeiro turno. Mas enquanto Chelsea, Manchester United e Arsenal abriram vantagem, os Spurs precisaram levar a disputa com o City pela última vaga na Champions até os últimos instantes. O duelo decisivo no Estádio Etihad aconteceu em 5 de maio de 2010, em confronto atrasado pela 29ª rodada. Um ponto à frente, os visitantes poderiam se sentir cômodos com o empate, mas a diferença apertada não oferecia margem a erros.

O Manchester City dirigido por Roberto Mancini (substituindo Mark Hughes já no meio da campanha) contava com um conjunto forte, mas ainda pedindo passagem nas competições nacionais. Vincent Kompany, Carlos Tevez e Emanuel Adebayor eram alguns dos protagonistas. Do outro lado, um Tottenham que misturava talentos verdadeiros e outros bem questionáveis. Luka Modric e Gareth Bale davam qualidade ao meio-campo, enquanto Jermain Defoe e Peter Crouch compunham a dupla de ataque. Em uma partida extremamente equilibrada, ambos os times criaram chances para vencer. Todavia, os visitantes arrancaram o triunfo aos 37 do segundo tempo. Bola na área e, diante do rebote de Márton Fülöp, Crouch cabeceou para o fundo das redes. Com quatro pontos de vantagem, os londrinos voltavam à Champions após quase cinco décadas. Chegaram a derrotar Internazionale e Milan, antes da eliminação contra o Real Madrid nas quartas de final.

Curiosamente, o filme se repetiu na temporada seguinte, desta vez com os papéis invertidos. O jogo aconteceu a três rodadas do fim, de novo dentro do Estádio Etihad. Mancini via o seu trabalho à frente do Manchester City ganhar embalo e o time se impulsionava pelos reforços – a exemplo de Edin Dzeko, David Silva e Yaya Touré. Já o Tottenham não conseguiu manter sua toada com o calendário mais exigente e, àquela altura, dependia de uma grande reviravolta para ir à Champions. Eram seis pontos de diferença em relação aos celestes, restando nove em disputa. Firme no G-4 ao longo da trajetória, os Citizens arremataram a classificação naquela noite. Encerraram um hiato de mais de 40 anos no torneio continental. Na única participação anterior, em 1968/69, a equipe campeã inglesa sucumbiu ao Fenerbahçe logo na fase inicial da contenda.

O gol decisivo no Estádio Etihad aconteceu aos 30 minutos. James Milner fez o cruzamento e, depois que a bola passou por Carlo Cudicini, Peter Crouch mandou contra as próprias redes. O Tottenham dominou a posse de bola e pressionou no segundo tempo, mas o City conseguiu segurar o placar. Além do mais, a entrada de Carlos Tevez deu nova energia aos celestes no ataque e aliviou um pouco o sufoco, até que o apito final confirmasse o triunfo por 1 a 0. Foi o resultado que recolocou os mancunianos no cenário continental. Na reta final da campanha, os Citizens ainda ultrapassaram o Arsenal para ficar com uma vaga direta na fase de grupos da Champions. Só que a reestreia europeia não guardou boas lembranças, com a eliminação na chave que também contava com Bayern de Munique e Napoli.

Desde então, tanto Manchester City quanto Tottenham se tornaram postulantes costumeiros à Champions e adversários temidos nos mata-matas. Os longos jejuns ficaram para trás. O objetivo é buscar o máximo no cenário continental e sonhar com uma inédita final. Por isso mesmo, o confronto que se inicia nesta terça-feira terá contornos gigantes para ambos os clubes, muito maiores do que aqueles vividos em 2010 e 2011.