Fabinho termina 2018/19 entre os candidatos à seleção da temporada europeia. O volante do Liverpool se tornou um dos principais artífices ao grande momento do clube. Depois de um início incerto em Anfield, jogando pouco durante a adaptação, o brasileiro se tornou essencial neste começo de ano. Exibe uma regularidade imensa na cabeça de área dos Reds, contribuindo para que a equipe sonhasse com o troféu da Premier League até a última rodada. E que o título nacional não tenha vindo, a Champions League permanece como um objetivo palpável, muito graças ao meio-campista – um gigante no milagre alcançado contra o Barcelona. O alto nível nas duas principais competições do futebol europeu seria suficiente para uma convocação à seleção, certo? Não é o que acontece. Fabinho é a grande ausência na lista da Copa América.

O clichê afirma que “seleção é momento”. E não há verdade maior a Fabinho que este é o seu momento. O meio-campista já viveu grandes fases na carreira, especialmente ao liderar o Monaco na memorável temporada de 2016/17. Não ganhou uma chance desde a Copa América Centenário, quando foi reserva na lateral, e só estreou com Tite em setembro de 2018, após sua transferência ao Liverpool. Ainda tateando seu espaço na Inglaterra, foi utilizado também na lateral direita, onde já não costuma atuar em seus clubes.

Fabinho, se não empolgou tanto em jogos modorrentos da Seleção, fez por merecer o seu espaço. Foi bem principalmente contra os Estados Unidos, seu retorno neste novo ciclo, quando deu uma assistência. Todavia, o meio-campista teve parcos minutos em sua posição atual. Já embalado com o Liverpool, ganhou míseros três minutos em campo durante o amistoso contra a República Tcheca. Substituiu Roberto Firmino e foi só. Ao final, terminou excluído da lista mais importante desde a sua volta. Poderia ser relevante na faixa central, sobretudo por sua polivalência, ou mesmo servir numa necessidade à lateral.

Tite, obviamente, possui uma visão mais ampla sobre a contribuição de Fabinho nos treinamentos. Mesmo assim, não parece suficiente para excluí-lo da lista, diante do que o volante vem apresentando no Liverpool. O alto nível é inegável. Está em forma melhor do que qualquer outro cabeça de área brasileiro, inclusive Casemiro. Contudo, acabou preterido até mesmo por Fernandinho, que não entrava em campo desde a fatídica eliminação contra a Bélgica na Copa do Mundo – por mais que uma lesão tenha atrapalhado seu retorno em uma das convocações. Que siga jogando bem no Manchester City, aos 34 anos, soa mais como passado do que como futuro da Seleção.

“Todas as posições do setor estão bem justificadas e escolhidas. É duro, mas tenho responsabilidade de decidir. Ao técnico cabe medir desempenhos, e foi a decisão que tomei. O Fabinho vive um grande momento. Foi muito difícil a escolha. Qualquer uma escolha estaria bem feita. Não tem demérito, tem os três [Fabinho, Fernandinho e Casemiro] em altíssimo nível. Dói ao técnico escolher, mas é a função”, justificou Tite. “Fernando é um cara muito experiente, sabe da sua responsabilidade. É pressão e responsabilidade muito grande estar falando com vocês, como é bom estar na Seleção. Como é bom representar o nosso país. Crítica e elogio são da vida, e o Fernandinho sabe disso”.

E a ausência de Fabinho, no fim das contas, gera um debate mais amplo. Não é de hoje que Tite exibe um apego por seus jogadores. A lista de serviços prestados vale mais do que o momento – e, por “serviços prestados”, também se inclui a própria relação extracampo. A fidelidade prevalece, algo que já tinha prejudicado o treinador em outros trabalhos. Mas se a falta de renovação em um clube é um processo mais lento, porque envolve contratações, na Seleção o imediatismo é bem maior – até pela ligação que se constrói com os torcedores. Algo que provoca o atual desgaste com a figura do técnico.

A lua de mel pela excelente campanha nas Eliminatórias acabou. As insistências de Tite causam os atritos. Assim, por mais que a lista à Copa América seja lógica dentro das ideias do treinador (e boa no geral, apesar de divergências pontuais), os questionamentos ganham proporções bem maiores.

Há mais entraves com nomes presentes do que com ausentes – com menção honrosa a Lucas Moura, outro em momento iluminado na Liga dos Campeões. Mas a maneira como Neymar é protegido, o privilégio a alguns medalhões que não terão muito mais tempo de Seleção ou mesmo a preservação a jogadores que não atravessam boa fase geram o chiado. Pior, ocultam até acertos, como a renovação que se desenrola no ataque, com a manutenção dos ascendentes David Neres, Éverton e Ricarlison – de certa forma, o que barra Lucas, outro a ganhar pouquíssimo tempo para ser observado nos últimos amistosos.

Tite seria naturalmente cobrado, pelo cargo que ocupa. Todavia, seus apegos ressoam e tornam algumas posições mais incongruentes. E, neste contexto, Fabinho é quem mais pesa contra o técnico. Pior ao meio-campista, que não poderá assinalar seu alto nível também na Copa América.