Robin van Persie chegou ao Manchester United aos 29 anos de idade. Tinha consigo uma larga experiência na Inglaterra, vindo de oito anos no Arsenal. Apesar de toda a rodagem, não deixou de se maravilhar com os medalhões que faziam parte daquele elenco comandado por Alex Ferguson, na última temporada da lenda como treinador dos Red Devils. Em entrevista à So Foot publicada neste mês, o neerlandês falou sobre os ex-companheiros – e a fascinação do ex-jogador por seus antigos colegas pode ser sentida a cada linha.

Van Persie relembra que, à época, tinha outras duas opções: Juventus e Manchester City. Entretanto, atraído pela figura de Ferguson, escolheu o lado vermelho de Manchester, um time com uma aura vencedora e que era alvo de admiração por parte do até então ídolo do Arsenal.

“Eu sempre tive sentimentos positivos em relação ao Sir Alex Ferguson e ao Manchester United. Se você vê aquele time na época, vê jogadores como Vidic, Ferdinand, Scholes, Giggs, Carrick. Verdadeiros vencedores, jogadores de experiência. Jogar com eles foi extremamente tentador. Além disso, me lembro bem que fui muito bem recebido desde minha chegada ao grupo, do primeiro dia ao último, mesmo tendo jogado pelo Arsenal nos oito anos anteriores e tendo sido adversário deles. Todos os jogadores que citei, em particular, se esforçaram para fazer eu me sentir em casa”, revelou o ex-atacante à revista francesa.

O neerlandês contou ainda que se juntar a uma equipe com tantos jogadores experientes tirou de seus ombros um grande peso, permitindo que ele focasse seu futebol: “O que foi agradável para mim no Manchester United é que, no Arsenal, eu era um dos mais velhos, tinha muitas responsabilidades além das minhas partidas. Porém, ao chegar nesta equipe do Manchester United de 2012, eu não era um dos mais experientes, eu não tinha mais tantas responsabilidades. Eu pude, então, focar meu jogo, minhas atuações. Em cada equipe, tem uma hierarquia, e em Manchester ela era clara: os chefes eram Paul Scholes, Ryan Giggs, Michael Carrick, Nemanja Vidic, Rio Ferdinand. Estes cinco eram os patrões do time. Tudo que acontecia fora do campo era resolvido por eles”.

Van Persie olha em retrospecto para a decisão de deixar o Arsenal e ir para um de seus maiores rivais, definindo como uma barreira sendo quebrada em busca de possibilitar alguns sonhos – como a conquista da Premier League, da qual foi o grande nome, em 2013. Relembrando a rotina daquele elenco campeão, lhe vêm à cabeça memórias do altíssimo nível de exigência de seus ex-companheiros.

“Nos treinos, a intensidade era inacreditável. Mesmo em uma única sessão de treinamento, esses caras todos estavam fazendo tudo que podiam para ganhar. Mesmo em um cinco contra dois, os que estavam apenas em dois ficavam incomodados de perder… Esses jogadores pareciam estar sempre buscando a perfeição, empurrando uns aos outros, e eu adorava esse ambiente. Eles me estimulavam a ser o melhor que eu podia ser.

Mesmo com 29 anos, Van Persie via-se deslumbrado como se tivesse novamente 21 anos, trabalhando ao lado das lendas do Arsenal dos Invincibles. “Eu tinha tido uma sensação semelhante oito anos antes, quando fui para o Arsenal. Cheguei lá como um jovem jogador. Ao ver Bergkamp fazer o que ele fazia, eu ficava tipo: ‘Uau!’ Nunca tinha visto nada igual, assim como com Thierry Henry, Robert Pirès, Freddie Ljungberg. E, oito anos mais tarde, com mais oito anos de experiência, levei um choque parecido quando cheguei ao Manchester United de Sir Alex Ferguson”, afirmou.

Individualmente, Van Persie enumerou as qualidades dos companheiros, ressaltando a autenticidade destas figuras: “Considero que você sempre tem que ser você mesmo, e esses jogadores eram fortes também porque expressavam sua natureza”.

Sobre Paul Scholes:

“Quando comecei a observar as escolhas de Paul Scholes nas brincadeiras de posse de bola, percebi que ele era um monstro.”

Falando de Ryan Giggs:

“Quando você olhava para ele, você se perguntava para onde a bola estava indo, e então ela caía no lugar certo, como por magia. Foi especialmente fascinante vê-los nos treinos. (…) Era o jogador extravagante, dando sempre a impressão de estar na sua zona de conforto. Ainda em grande forma aos 39 anos. Fazia ioga, vivia o futebol o tempo todo. Impressionante à sua própria maneira também.”

Wayne Rooney também o encantava:

“Impressionante também à sua maneira, sempre a todo vapor, nas divididas, pressionando os adversários.”

Sobre a complementar dupla formada por Vidic e Ferdinand:

“Vidic era um guerreiro, colocava a cabeça onde normalmente é assustador colocar o pé. Ele fazia qualquer coisa para ganhar. Ferdinand era mais ‘elegante’, confortável com a bola, forte no jogo aéreo, bom nos lançamentos.”

E, por fim, Patrice Evra, a quem via como um grande líder:

“O seu desejo de vencer, a sua energia positiva… Patrice Evra era impressionante em seu hábito de falar em alto e bom som, de suscitar a confiança na equipe. Hoje, eu sei que ele faz vídeos ‘engraçados’, mas ele é um super profissional e um cara super inteligente. Ele fala cinco línguas, fala até coreano! Sua aparência física mostra como ele é profissional, sua mente é tão forte quanto seu corpo.”

O chefe

Todas essas figuras eram complementadas pela liderança de uma lenda do clube, que era também um mestre na gestão humana. Capaz de “achar as palavras e os gestos certos para manter 27 milionários felizes”, segundo Van Persie. Mas também capaz de constranger se fosse necessário.

“O Ferguson sabia quando precisava agir, quando precisava pressionar por disciplina, por exemplo. Na minha primeira temporada, estávamos 15 pontos à frente no campeonato e recebemos o Manchester City em casa para conquistar o título (em abril de 2013). Se ganhássemos aquele jogo, ficaríamos 18 pontos à frente, mas perdemos. Isso ainda nos deixou 12 pontos à frente, e a maioria dos técnicos não teria dramatizado a situação. O chefe, por outro lado, subiu pelas paredes. Foi pesado. Dois caras do time tinham saído de noite depois daquela derrota. No dia seguinte ao jogo, ele (Ferguson) colocou fotos dos dois jogadores durante sua noitada nas paredes dos vestiários. E ele disse em frente a toda a equipe: ‘Ok, pessoal, se nós não ganharmos o campeonato, saibam que é por causa desses dois babacas que escolheram sair’.”

Você pode conferir aqui a entrevista completa de Van Persie à So Foot, em que fala em mais detalhes sobre seus tempos de Manchester United, a decepção com a aposentadoria de Ferguson um ano após sua transferência para o clube e sua visão sobre o que mudou em Old Trafford desde o fim da era vencedora com o escocês.